Piano sem artifícios

por Camila Frésca 01/06/2018

O escocês Steven Osborne vem ao Brasil para recital solo e concerto com a Osesp, na Sala São Paulo, e para apresentação com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Steven Osborne está no Brasil para uma série de concertos. O músico escocês de 47 anos é um dos mais importantes pianistas britânicos de sua geração. Solista que se apresenta com frequência junto a grandes orquestras internacionais, ele venceu o Concurso Clara Haskil em 1991 e foi escolhido pela BBC como “New Generation Artist” no ano de criação do título, 1999.

Osborne conta com mais de duas dezenas de discos lançados e, observando sua escolha de compositores, parece haver preferência por um repertório que vai do fim do século XIX até os dias atuais, assim como por autores russos e os franceses Debussy, Ravel e Messiaen. Ele diz que é “quase” isso. “Bem, meu primeiro amor foi Beethoven, que continua no centro de meu repertório”, revela à Revista CONCERTO. “Além disso, eu diria que meu foco principal é mais o início do século XX, com alguns interesses isolados depois, como Messiaen e Tippett. Não é fácil dizer o porquê, as razões são muito diferentes – a cor e a forma da música de Debussy, a melancolia discreta de Ravel, a vulnerabilidade de Rachmaninov, os contrastes e a grande escala de Messiaen, a selvageria e o controle de Beethoven...”

Dos dois programas que realiza na Sala São Paulo, o recital solo, no dia 6, traz justamente os franceses e os russos – intercalando Estampes e o segundo livro de Images, de Debussy, às Sonatas nº 6 e nº 8 de Prokofiev. Osborne explica que foi a partir de Prokofiev, de quem gravará algumas das sonatas no ano que vem, que o programa se formou. “No entanto, achei que tocar só sonatas de Prokofiev seria um pouco indigesto. Além disso, gosto bastante de passar de uma peça a outra sem lacunas, e a ideia de as peças de Debussy servirem como prelúdios ao próximo trabalho me pareceu bastante forte, ainda mais porque uma das obras compartilha quase exatamente do mesmo material melódico que a sonata que a segue”, explica. Além disso, há sempre um aspecto instintivo e afetivo que guia as escolhas, segundo o pianista. “Procuro encontrar uma combinação de peças que crie um arco emocional coerente sobre todo o concerto.”

Steven Osborne [Divulgação / Ben Ealovega]
Steven Osborne [Divulgação / Ben Ealovega]

Com a Osesp, nos dias 7, 8 e 9, ele interpreta o Concerto para piano nº 2 de Shostakovich. Escrita como um presente para seu filho no aniversário de 19 anos, a peça é um pouco diferente da maioria das obras do compositor, não muito longa e aparentemente mais alegre. “Bem, parece uma peça alegre, mas tem suas complexidades. Uma explosão furiosa no desenvolvimento do primeiro movimento, por exemplo, e um movimento lento de sentimento mais profundo”. Osborne afirma que o que mais lhe atrai na obra são “os fortes contrastes, que imediatamente tornam cada emoção mais interessante”, bem como a beleza excepcional do segundo movimento.

Já com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, ele sola, nos dias 14 e 15, o Concerto nº 12 de Mozart. “Quando estava na faculdade de música, eu tocava muito Mozart – por um tempo, mais que qualquer outro compositor”, lembra. “Fui tocando menos ao longo dos anos, à medida que me movi em direção à música romântica e ao século XX, mas ainda amo sua música e sua incrível criatividade. Para mim, Mozart tinha uma capacidade infalível de encontrar melodias que soam tão óbvias e naturais que você acha que compor deve ser fácil.”

É provável que o público que vá ouvir Steven Osborne em São Paulo e em Belo Horizonte perceba outra característica do músico: seu empenho em comunicar-se com a audiência para melhor envolvê-la no programa. “Há algo na cultura escocesa que é muito realista, com uma aversão ao fingimento, e estou ciente de que existe um tanto de artificialidade na formalidade do palco. Então, costumo conversar com o público, é uma forma muito natural de me relacionar com a plateia”, afirma. “Eu acho que a pergunta é: como você pode ajudar o público a se envolver com a música? Conversar tende a deixar as pessoas abertas para aquilo que o artista tenta comunicar pela música. É biológico – estamos preparados para responder ao tom de voz, aos gestos das mãos, à linguagem corporal. Infelizmente, não poderei fazer isso em português!”

Agenda
Steven Osborne – piano
Dia 6, Sala São Paulo
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Louis Langrée
– regente/Steven Osborne – piano
Dias 7, 8 e 9, Sala São Paulo
Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
Stilian Kirov – regente/Steven Osborne – piano
Dias 14 e 15, Sala Minas Gerais (Belo Horizonte/MG)