A presença da ópera

por Jorge Coli 01/06/2018

Com o início da temporada lírica no Brasil, uma reflexão sobre a importância do gênero

A óperas chegaram: um Festival Amazonas que começou de vento em popa, com um soberbo Fausto, de Gounod; uma suntuosa La traviata, no Theatro Municipal de São Paulo – produção apresentada pouco antes em Belo Horizonte; um espirituoso Matrimonio segreto, no Theatro São Pedro, em São Paulo; um Schiavo em forma de concerto, em Campinas; um Ballo in maschera a que, infelizmente, não pude assistir, no Rio de Janeiro. E é provável que eu esteja me esquecendo de alguma coisa.

Ou seja, a ópera vive e revive, apesar de tudo. Apesar de os poderes públicos não se importarem em nada com a cultura, a não ser como forma vagamente sacralizada à qual é preciso sacrificar o mínimo possível de dinheiro, apenas o suficiente para não levar a acusação de beócio. E isso quando o político se importa com esse leve insulto, o que está longe de ser frequente.

Ópera custa caro. Nada que se compare com tantos gastos públicos absurdos e irracionais que ocorrem constantemente, mas, enfim, pesa nas despesas do orçamento. Afinal de contas, para que ópera? Para satisfazer o gosto de alguns admiradores?

Em 1966, quando eu estava em meus tenros 18 anos, comprei, num sebo, A ópera de Edward J. Dent, edição argentina: excelente aquisição. Dent começa lembrando o palácio Garnier, o teatro de ópera de Paris e diz que, quanto mais o admirava, “mais intimamente me impressionava a ideia de que toda essa grandeza e essa magnificência, toda essa imensa contribuição de arquitetos e escultores, pintores e engenheiros, tinha sido reunida com o único objeto de criar uma morada que fosse digna da música e do drama musical”. Comparável, diz ele, ao sentimento de maravilha e pavor que palácios e catedrais devem inspirar.

Cena da ópera “La Traviata” [Divulgação / Paulo Lacerda]
Cena da ópera “La Traviata” [Divulgação / Paulo Lacerda]

De fato, a ópera de Garnier é um edifício esplêndido, que condensa em si um mundo de cultura, coisa que os organizadores do museu d’Orsay, consagrado à arte do século XIX, compreenderam perfeitamente, pois colocaram no âmago das coleções uma maquete desse teatro, fazendo com que tudo pareça emanar dali.

De Manaus a Porto Alegre, os teatros de ópera constituem, também no Brasil, espetaculares monumentos. O retorno de interesse pela ópera, que a modernidade havia combatido, fez com que, recentemente, brotassem teatros, no mundo inteiro, que estão entre os edifícios mais célebres da arquitetura contemporânea, a começar pela ópera de Sidney, em 1973, genial invenção do arquiteto dinamarquês Utzon. Ele conseguiu associar a evocação de conchas acústicas, grandes orelhas, à forma de velas, que combinam com o mar próximo. Tornou-se um dos edifícios mais célebres do planeta. Há vários outros: a ópera de Valência, 2005, por Calatrava, com sua forma tão dinâmica e fluida; a ópera de Pequim, de 2007, de Paul Andreu, gigantesco disco voador pousado sobre um lago; a de Mascate, também de 2007, pelo escritório WATG (esta, é verdade, construída por capricho de um sultão melómano, que Alá o proteja!); e mesmo a ópera da Bastilha, em Paris, de 1989, do arquiteto uruguaio Ott, edifício bastante criticado, mas cuja sala enorme tem perfeita acústica e visibilidade em todos os lugares.

Basta isso como sintoma de que a ópera tem um lugar privilegiado na cultura de nosso tempo. Resta o fato de que ela não voltou a adquirir o caráter popular com que contava no passado. Naquele mesmo ano remoto de 1966, e no mesmo sebo, comprei também A ópera de Kurt Pahlen. Em 1966, um clima de modernidade arrogante e triunfante, que ia de pop art e op art ao programa Jovem Guarda, mudando gostos, comportamentos, modos de vestir, decretara a morte da ópera, como gênero arcaico, mumificado. E eu lia, boquiaberto, o início do livro de Pahlen, que dizia: “Em Viena, minha cidade natal, a ópera forma parte das conversações diárias, e sua qualidade pode ser discutida tanto nos salões das classes elevadas quanto entre as vendedoras do mercado”. Que paraíso era aquele, que eu desconhecia por completo? Quem sabe, o futuro ainda nos surpreenda.

Enfim, por que a ópera é tão importante? A resposta cabe numa frase formulada por Dent: “A função da música no drama é a de elevar-nos a um plano emotivo mais alto”. E ainda: “A ópera faz sentirmos que nossas personalidades se intensificam”. Uma forma artística que faz compreender e sentir, ao mesmo tempo. Que se endereça, de uma vez só, à inteligência racional e à emotiva. Em suas óperas, os grandes criadores teceram as mais complexas questões em sons e palavras, num modo paradoxal que é complexo e acessível.