Bernstein, um americanófilo mahleriano

por Júlio Medaglia 01/06/2018

Em 2018, o mundo todo celebra o centenário de nascimento do grande músico norte-americano

O Brasil e os Estados Unidos têm trajetórias históricas semelhantes. Ambos os países foram descobertos e colonizados por europeus, que trouxeram para o continente costumes e hábitos culturais e com o tempo foram buscar mão de obra na África para trabalhos mais pesados e, digamos, “menos nobres”. O que os colonizadores que aqui se instalaram não sabiam era que esses escravos negros, analfabetos, que falavam dialetos incompreensíveis para ouvidos europeus, traziam na alma uma linda provocação cultural. Após a libertação dos escravos no continente americano, participando dos hábitos culturais de origem europeia, os negros influenciaram nossas culturas musicais, fazendo nascer por aqui estilos novos e muito originais. No norte, o chamado jazz, as diversas formas de musicais, os Tin Pan Alley; no sul, o choro e uma centena de ritmos sincopados extraídos das danças de origem africana.

Como no Brasil os negros puderam manter suas práticas musicais, pouco depois da libertação dos escravos houve a infiltração de um sem-número de componentes dessas práticas na música popular. Em seguida, esses componentes invadiram também a chamada música de concerto. Nos Estados Unidos, essa integração não foi tão simples e rápida assim. Aqui, o grito de alforria de Nepomuceno em prol de uma música brasileira com as cores sonoras de nosso país foi logo assimilado, fazendo nascer uma geração, com Villa-Lobos, que produziu música “miscigenada” da melhor qualidade. No país do norte, a chamada “música de concerto” e a popular permaneceram separadas por décadas. Na primeira metade do século passado, as grandes orquestras sinfônicas dos Estados Unidos eram compostas e dirigidas por músicos europeus que fugiam do comunismo ou do nazismo; além disso, nascia uma geração de compositores influenciados por Nadia Boulanger, que criavam uma música neoclássica num país que não teve classicismo. Enquanto isso, o jazz e o musical americano desenvolviam características próprias, criativas e do mais alto nível técnico e artístico.

Leonard Bernstein [Reprodução]
Leonard Bernstein [Reprodução]

Um incidente ocorrido na coxia do Carnegie Hall de Nova York no dia 14 de novembro de 1943 aos poucos mudaria essa situação. Um músico americano de pouco mais de 20 anos, que havia estudado com os melhores mestres e que tinha algumas de suas composições já executadas, assumiu o cargo de espécie de assistente da Filarmônica de Nova York. Não tinha compromisso de regê-la, e sim de acompanhar os ensaios e ficar nos bastidores dos teatros, preparado para assumir o concerto caso o maestro tivesse um inesperado impedimento: Leonard Bernstein. Nos concertos dessa orquestra, nunca o maestro havia sido substituído por assistente. Naquela noite, porém, um mal súbito afastou Bruno Walter da regência, e o jovem americano assumiu a direção. O Carnegie Hall lotado e o concerto transmitido pelo rádio internacionalmente transformaram aquele evento no lançamento mundial de um dos maiores músicos do século XX.

Bernstein tinha sólida formação. Estudara no Curtis Institute da Filadélfia e na Harvard, teve como mestres Erich Kleiber e Serge Koussevitzky. Era excelente pianista, a ponto de executar o Concerto em sol de Ravel sob o comando de Toscanini, mas também obras jazzísticas com todos os maneirismos daquela linguagem tão flexível e espontânea. Sua carreira de regente, pianista e compositor da Broadway e do Metropolitan cresceu de tal maneira que, em 1957, assumiu a Filarmônica de Nova York e substituiu um mito da regência, Mitropoulos.

Com prestígio cada vez maior no cenário americano e com a poderosa filarmônica nas mãos, Bernstein iniciou um processo de americanização da música de seu país. Algo que, na área da composição, Gershwin havia feito ao colocar o suingue do jazz na orquestra sinfônica. Bernstein foi adiante. Levou ao conhecimento público importantes compositores que permaneciam no limbo, iniciando esse trabalho com a revelação ao público da obra de Charles Ives, o grande compositor e precursor do século XX musical. Prestigiou toda uma geração de novos músicos, intérpretes e compositores que apresentavam a realidade musical americana às salas de concertos.
Atuou em séries televisivas e radiofônicas que popularizaram a música clássica.

Aqueles que pensavam que a carreira de regente de Bernstein havia se encerrado ao sair da Filarmônica de Nova York depois de doze anos enganaram-se redondamente. Ele iniciou uma nova carreira internacional à frente das melhores sinfônicas do mundo, como as de Viena, Berlim, Amsterdam, Tel Aviv, Londres e outras. Seu prestígio como maestro cresceu ainda mais quando, à frente da Filarmônica de Viena, regeu inúmeras vezes e gravou as sinfonias de Mahler, revitalizando modernamente a fama desse compositor. Parece incrível afirmar que um pianista de jazz americano chegaria à cidade-reduto de Mahler e apresentaria uma nova concepção de sua obra a ponto de torná-la internacionalmente modelar.

Essa relação especial com a obra de Gustav Mahler se dava pelo fato de Bernstein ter tido contato direto e intenso com Bruno Walter, amigo pessoal do compositor e seu assistente por muitos anos.

Quando fui estudante na Universidade de Freiburg, na Alemanha, tive oportunidade de conhecer uma filha de Bruno Walter que era amiga de meu professor de regência Carl Ueter. Ela narrou em detalhes as características dessa aproximação de Bernstein com Walter e a maneira como as análises das partituras do mestre eram passadas ao jovem músico.

No verão de 1962, após tomar um café com ela e meu professor na praça da belíssima catedral gótica de Freiburg, ao nos despedirmos, perguntei: “Dona Lotte, naquela noite que seu pai não pode reger um concerto com a Filarmônica de Nova York, ele estava realmente doente?”. Ela respondeu que não, que, naquela semana, ele tinha tido um pequeno resfriado, mas aproveitou o fato para não reger o concerto e dar oportunidade a Bernstein. Ele estava ciente de que aquele era o momento de lançá-lo em grande estilo em seu país e internacionalmente.

Walter tinha razão. Ajudou a tornar conhecido o maior músico americano do século e um dos maiores da história.