Um francês às voltas com o mar wagneriano

por Júlio Medaglia 01/07/2018

Em um cenário musical saturado por influências externas, Charles Gounod, de quem se comemora neste ano o bicentenário, soube retornar às raízes da música francesa

No século XVII, Luís XIV estipulou um prêmio a artistas que despontavam na vida cultural francesa, o chamado Prix de Rome. O laureado com a distinção poderia viver por quatro anos na capital italiana dedicando-se exclusivamente à criação artística, às custas da corte francesa. François-Louis Gounod, revelando especial talento para as artes plásticas, recebeu esse prêmio e chegou a desenvolver relativa carreira de pintor e gravador no fim do século XVIII. Identificando o talento artístico de um de seus filhos, o incentivou a seguir profissionalmente nessa área. Por sua vez, sua mulher, Victoire Lemachois, excelente pianista, insistiu para que o jovem se dedicasse à música, dando a ele aulas de piano na mais tenra idade. O pequeno Charles-François reagiu tão bem a esses ensinamentos que, ainda bastante jovem, conseguiu entrar no Conservatório de Paris e, como uma espécie de desafio às pretensões paternas, esforçou-se e abocanhou o tão disputado Prix de Rome.

Charles Gounod (1818-1893)
Charles Gounod (1818-1893)

Aos 21 anos, Charles-François, ou simplesmente Charles Gounod, partiu para realizar o ambicionado desejo de dedicar-se à criação musical naquela usina cultural chamada Roma. Curiosamente, porém, sua reação diante daquele exuberante manancial artístico foi estranha e semelhante à de um conterrâneo seu, décadas mais tarde: Claude Debussy. Em vez de extasiar-se com a monumentalidade das construções históricas, das artes plásticas e do operismo italianos, Gounod preferiu, como Debussy, estudar a música dos séculos XVI e XVII, particularmente Palestrina, e frequentar as pequenas igrejas e capelas que praticavam a delicada ourivesaria coral renascentista. A profunda religiosidade embutida nesse repertório o contagiou de modo tão intenso que despertou nele um forte desejo de seguir a vida eclesiástica. Suas primeiras composições, aliás, foram de caráter religioso, como uma missa a três vozes a cappella.

Ao término de seu estágio em Roma, Gounod foi a Viena e, em seguida, a Leipzig. A intrincada arte do contraponto renascentista o levou a estudar também a complicada engenharia da obra de Bach na cidade onde este criou suas principais obras, recém-restauradas por Mendelssohn, de quem se tornara amigo.

De volta a Paris, ao relacionar-se com a famosa mezzo soprano Pauline Viardot, figura de grande presença na movimentação cultural da cidade em meados do século XIX, Gounod foi levado a mergulhar no universo operístico. Aos 33 anos, em 1851, compôs sua primeira ópera, Sapho, baseada num conto da mitologia grega.

Seu trabalho valorizava com sofisticação e acuidade o conteúdo literário dos libretos em vez de apelar para a monumentalidade maneirista da grand ópera 

Nesse momento, entrou em pânico ao constatar o panorama geral da música em seu país, particularmente do teatro musicado. De um lado, o italianismo da ópera parisiense dominado por Spontini, Cherubini e Rossini, que se misturava com o gigantismo da grand ópera de Meyerbeer e de seu professor no Conservatório, Halévy. De outro, o wagnerianismo seduzindo toda a nova geração de músicos. Gounod, ao contrário, impostou seu trabalho no sentido de valorizar com sofisticação e acuidade o conteúdo literário dos libretos em vez de apelar para a monumentalidade maneirista da grand ópera de então. Desenvolveu um artesanato refinado do mecanismo dramatúrgico em lugar do alegórico pomposo que cairia em desuso com o advento do verismo.

Por outro lado, Gounod empenhou-se em destacar as raízes musicais francesas. Algo semelhante ao que ocorreria, anos mais tarde, quando Satie chamou a atenção de Debussy para que este fizesse uma música “sem sabor de chucrute”, ironizando o panorama musical francês da época mergulhado por inteiro no wagnerianismo. Esse posicionamento de Gounod influenciou sobremaneira a geração de compositores franceses que nascia representada por figuras de grande importância não apenas em seu país, como Massenet, Bizet e Saint-Saëns.

A maior parte da produção musical de Gounod foi de fato de caráter religioso. Escreveu vinte missas, com grande destaque para a Missa solene de Santa Cecília, sete oratórios e cantatas e dois réquiens. De suas treze óperas, é possível dizer que Fausto, Mireille e Romeu e Julieta foram as que se sobressaíram. Não fosse sua influência, contudo, a música em seu país não teria caminhado no sentido do impressionismo que pairava em outras artes. Liderada por Ravel e Debussy, ela representou na área aquilo que os franceses tão bem sabem fazer: mesclar com sutileza e habilidade únicas sons, fragrâncias, vinhos, odores, paladares, sabores e temperos, design etc.