O negócio é fazer teatro de qualidade

por Jorge Coli 01/07/2018

Na ópera, mais que a oposição entre tradição e modernidade, o importante é evitar o lugar-comum

Eu odeio os diretores de cena. Não, não é verdade. Sou grato a eles por me oferecerem visões esplêndidas de grandes óperas. Ou, quando não, em um espetáculo que me desagrada ou me irrita, por permitirem que eu descubra – nem que seja pela negativa – qualidades nas obras.

Não odeio os diretores de cena, de modo algum. Consigo mesmo, apesar das críticas que escrevo para o Site CONCERTO, ser amigo de alguns deles.

No entanto, vendo La traviata apresentada em abril de 2018 na Den Norske Opera de Oslo, graças ao excelente site https:// operavision.eu/en, que traz espetáculos recentes, devo, envergonhado, confessar que essa frase me passou pela mente.

Sólida regência de Julia Jones, bela Violetta de Aurelia Florian, tenor e barítono pouco relevantes, mas dando conta do recado. Eu estava curioso para ver a montagem da alemã Tatjana Gürbaca.

Cena da ópera “La traviata” na Den Norske Opera de Oslo [Divulgação]
Cena da ópera La traviata na Den Norske Opera de Oslo [Divulgação]

Ela tem recebido prêmios e elogios da crítica. Não importa: sua Traviata é intolerável.

Certos diretores de cena parecem julgar-se mais inteligentes que o público. Gürbaca é desse tipo. Vocês pensaram que La traviata era uma ópera sobre preconceitos sociais, sobre uma prostituta que tenta se redimir pelo amor, sobre a opressão masculina? Nada disso. La traviata é uma ópera sobre preconceitos sociais, sobre uma prostituta que tenta se redimir pelo amor, sobre a opressão masculina. É preciso que isso entre nas cabeças ingênuas e inocentes.

Ela insiste, martela, reitera aquilo que está na obra e que todos já haviam compreendido. Durante o prelúdio, Violetta queima uma nota: que surpresa, nós não sabíamos que, para ela, o amor estava acima do dinheiro! No brinde, Violetta e todas as mulheres se põem de joelhos diante dos homens, puxando- lhes as calças como para um blow job : não esqueçam, é uma casa de prostituta! Na ária do barítono, “Di Provenza”, reúnem-se em torno da mesa de jantar Germont, Alfredo, a filha e seu noivo, a mãe, tomando sopa no jantar – pois é, não havíamos percebido que a ária tenta convencer Alfredo a voltar para o girão familiar. Na festa em casa de Flora, Violetta é estuprada diante de um barão que se masturba: vejam, ela voltou para a orgia! Na cena do jogo, Annina fica de quatro patas no chão para servir de mesa: ela é a criada explorada, não é mesmo?

São apenas alguns exemplos, porque em cada cena há uma ideiazinha que vem explicitar, sublinhar a situação com lápis vermelho grosso. Eu pensava: como foi bela a montagem de Jorge Takla, no Theatro Municipal de São Paulo! E recordava ainda a de William Decker, para Salzburg, em que Anna Netrebko tornou-se uma heroína de hoje, devorada pelo tempo e pelos homens, vítima de uma necessidade implacável. Ou, suprema lembrança, a La traviata de 1976, no festival de Aix-en-Provence, concebida por Lavelli, com Sylvia Sass, anunciada como sucessora de Callas, de carreira tão curta, mas que, naquela noite, estava sublime de beleza e de voz, uma Violetta que se isolava em gaiola feita de rendas, como um pássaro ferido.

A questão não é opor montagens “tradicionais” e “modernas”. É fazer teatro bom, o melhor possível, apenas. Levando em consideração, com rigor, música e libreto. As modernizações trazem, porém, um risco maior. O peso, para o diretor de cena, de sentir-se obrigado a ser original a qualquer custo, mais interessado nas próprias ideias que na obra que ele deveria servir. De posar como intelectual buscando referências eruditas ou de enfant terrible querendo pôr tudo de cabeça para baixo. De estar, necessariamente, na crista da onda, não percebendo que essas releituras têm já décadas e que é facílimo escorregar para cair no lugar-comum, no academismo do “moderno”.

Fiquei pensando nos grandes espetáculos a que tive a sorte de assistir, dirigidos por Lavelli, Ponnelle, Ronconi, Chéreau, Herheim, Heiner Müller, Strehler, Visconti, Bolognini, Friedkin, Brook, os cenários de Svoboda, esquecendo tantos. Porém, se tivesse que escolher um único, não hesitaria: Tristão e Isolda, cena de Nikolaus Lehnhoff, com Birgit Nilsson (que completaria neste ano um século de existência) e Jon Vickers, regência de Karl Böhm, no grande teatro romano de Orange, em 1974.
 Montagem depurada, duas escadarias luminosas formando semicírculos. Ambos os imensos cantores, heroicos, dominando as arquibancadas que continham 11 mil espectadores, todos ouvindo como se estivessem na primeira fila, graças à acústica perfeita. Dominando também o mistral, vento poderoso da Provença, que ampliava, épico, a grande paixão.