O Império Austro-Húngaro invadiu a América – e venceu!

por Júlio Medaglia 01/08/2018

O cinema americano do século XX falava inglês, mas os autores de sua música, alemão

No segundo pós-guerra do século passado, aquilo que se chamava de música de vanguarda nada mais era que um revival do dodecafonismo de Schönberg, linguagem composicional do entre-guerras de pouca divulgação à época em consequência de uma série de acontecimentos históricos extramusicais. O compositor Karlheinz Stockhausen, ao lado de Pierre Boulez, surgia nos anos 1950 como líder dessa tendência que se espalhava pelo mundo. Em 1956, Stockhausen compôs uma obra para quinteto de sopros que chamou de Zeitmasse (Medidas de tempo). Aqui no Brasil, influenciados por Koellreutter, nós acompanhávamos com fervor o desenrolar dessas experiências – aí já com o nome de serialismo, pois os processos de serialização dos 12 tons haviam sido aplicados também aos parâmetros rítmicos e acústicos. Não tardou para termos acesso a um registro dessa obra, a mais radical baseada nessa linguagem. Por ocasião de sua gravação, Stockhausen fez uma observação muito curiosa e que causou espanto. Disse que, dada a extrema complexidade e o ineditismo da escrita de Zeitmasse, havia optado por fazer a gravação com músicos dos estúdios de Hollywood, dirigidos por Robert Craft, segundo ele os melhores e mais versáteis instrumentistas que conhecia.

Igor Stravinsky e Franz Waxman [Reprodução]
Igor Stravinsky e Franz Waxman [Reprodução]

Voltando para casa no dia anterior à escrita deste artigo, ouvi na Rádio Cultura um programa de música sinfônica que igualmente me causou espanto pela audácia da escrita, pela complexidade e pela qualidade da execução – sobretudo nos instrumentos de cordas – e me lembrei dessa observação de Stockhausen. Tratava-se do programa Super-8, dedicado à música de cinema. Encostei o carro numa viela e ouvi, deslumbrado, o programa até o fim. Eram trechos e suítes de trilhas sonoras escritas por Franz Waxman para filmes de Hollywood.

Franz Wachsmann – seu nome de batismo – nasceu na Silésia, em 1906, e faz parte de uma preciosa geração de compositores de música de cinema que, a cada dia, se torna mais considerada e valorizada, tendo suas gravações restauradas e suas partituras executadas fora do escurinho do cinema. São músicos de excepcional formação, oriundos da Europa central, mais precisamente do então chamado Império Austro-Húngaro, que deixaram o continente fugindo do nazismo por serem de origem judaica. Além de Waxman, que compôs música para mais de cinquenta filmes em Hollywood com 12 indicações ao Oscar, podemos nos lembrar de Max Steiner, que nasceu em Viena, em 1888 – na porta da casa em que nasceu existe hoje uma placa de bronze com seu nome – e é autor da trilha sonora de mais de duzentos filmes, 18 vezes nomeado ao Oscar, alguns antológicos. Outro mestre da área foi Miklos Rozsa, nascido em Budapeste, em 1907, formado em Leipzig e autor de mais de meia centena de trilhas sonoras que marcaram época. É também apontado como um dos responsáveis pela moderna linguagem da trilha sonora cinematográfica. Há que se lembrar, também, de Dimitri Tiomkin, nascido em 1894 no antigo Império, numa região hoje pertencente à Ucrânia. Fez sua formação em Berlim, onde estudou com Busoni, e compôs mais de uma centena de trilhas para o cinema americano, 18 das quais apontadas ao Oscar. Outra figura desse clã de gênios da mais ousada música sinfônica para o cinema do século XX, oriundos da Europa central, foi o austríaco Erich Wolfgang Korngold (1897-1957). Ele chegou a desenvolver expressiva carreira na Europa, tendo muitas de suas obras executadas por importantes intérpretes e suas óperas encenadas em várias cidades. Hoje, sua obra para as salas de concerto e suas óperas estão sendo revalorizadas e trazidas a público em todo o mundo.

É bom que se diga que essa migração de talentos do som dramatúrgico para o celuloide ocorreu com mais facilidade, pois uma geração de igualmente preciosos diretores de Hollywood veio também do universo austro- -húngaro e germânico em geral. Foram gênios como Billy Wilder, Milos Forman, Otto Preminger, Josef Sternberg, Ernst Lubitsch, Michael Curtiz, Fritz Lang, Willian Wyler, Fred Zinnemann e muitos outros.

Nas décadas de 1960 e 1970, sem perder a dignidade profissional anterior, o cinema americano foi mudando, e sua trilha sonora ganhou novas características, com a introdução das tecnologias eletrônicas permitidas pelos sintetizadores. Em pouco tempo, porém, essa música feita por dezenas de equipamentos operados por um único técnico-compositor, deu lugar novamente a dezenas de músicos em estúdio. Grandes produções, repletas de efeitos visuais inacreditáveis, passaram a dialogar com grande facilidade com o velho e bom som sinfônico, fazendo nascer uma nova geração de compositores especializados. Figuras como Jerry Goldsmith, Maurice Jarre, Quincy Jones, John Barry, James Horner e, sobretudo, John Williams, com trilhas para superproduções como Superman, Guerra nas estrelas, ET, Indiana Jones, Harry Porter, Jurassic Park e dezenas de outros.

Não li nem assisti a uma única entrevista de qualquer um desses novos “trilheiros”, como se diz no jargão profissional, que não tirasse o chapéu e tecesse os maiores elogios e homenagens aos compositores da antiga geração – àqueles que vieram “fazer a América”, que lá chegaram no porão de navios que transportavam os mais modestos imigrantes, mas que traziam nas bagagens as técnicas e o dom de colorir, como ninguém, a música da maior fábrica de entretenimento de massa do planeta, o cinema de Hollywood.