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Música atualiza filmes na III Jornada de Cinema Silencioso (27/7/2009)
Por Camila Frésca

Entre os dias 13 e 16 de agosto, um programa especial na Sala São Paulo terá a estreia de uma obra do compositor Almeida Prado escrita para o filme francês rodado em 1928 Études sur Paris, de André Sauvage, que será exibido na ocasião. A apresentação do dia 16 marcará o encerramento de um interessante evento que acontece pela terceira vez na Cinemateca Brasileira, a Jornada de Cinema Silencioso.

Em quase dez dias de programação, serão exibidos filmes do chamado período silencioso de diversos países – e aqui vale um parêntesis: o termo “cinema mudo” está em desuso entre as pessoas do meio. Isto porque, além de seguir a terminologia inglesa “silent movie” diz-se que o fato de um filme ser mudo não significa que ele não “fale”, ou melhor, não tenha algo a dizer. Ele apenas não tem som, é silencioso. Achei a argumentação pouco preciosista pois, afinal, uma pessoa que não fala, portanto “muda”, está longe de não poder dizer coisas ou ter expressividade.

Mas, voltando ao assunto, todos os anos a programação da Jornada divide-se entre apresentar uma cinematografia nacional do período e dar ênfase à produção de um outro país. Nesta edição, integrando-se às comemorações do Ano da França no Brasil, serão apresentados diversos filmes daquele país, provindos do Centro Nacional de Cinematografia, da Cinemateca Francesa e dos Arquivos Albert Kahn. Entre os destaques, está uma coleção dos primeiros trabalhos dos irmãos Lumière, além de documentários curtos sobre a Córsega, a Tunísia e a Abissínia, e de filmes de longa metragem da década de 1920 em cópias de alta qualidade. Além dos filmes, conferências irão explorar diversos temas relacionados a esse período do cinema.

Mas uma das coisas mais interessantes da Jornada de Cinema Silencioso é que os filmes poderão ser vistos com acompanhamentos musicais feitos ao vivo – na verdade, quase todos serão exibidos duas vezes, uma sem e outra com música. O curador da parte musical, desde a primeira edição, é o compositor Lívio Tragtenberg. Ele conta que seu trabalho parte primeiramente de conversas com o curador geral do evento, Carlos Roberto de Souza. Determinadas algumas diretrizes, Lívio passa a convidar os artistas e mostrar a eles os filmes para os quais farão música. Neste ano, apresentam-se músicos como a cantora e pesquisadora Marlui Miranda, os pianistas Antonio Eduardo e Fabio Caramuru, o cantor e compositor Carlos Careqa e a soprano Lucila Tragtenberg.

Uma das preocupações centrais da Jornada é trazer o cinema mudo ou silencioso para a contemporaneidade, fazer dele um entretenimento atual e não um espetáculo histórico ou saudosista. Nesse sentido, o papel da música é essencial. “Não nos interessa reproduzir a forma como esses filmes eram vistos antigamente, mas sim aproximá-los de nossa sensibilidade”, afirma Lívio. O compositor, que também fará música para um dos títulos, tem experiência com este tipo de trabalho, pois, ao lado de Wilson Sukorski, já fez diversas vezes música ao vivo para o filme “São Paulo sinfonia da Metrópole”, de 1929. Ele conta que o mais importante é definir “o que você quer com esse filme, como quer conversar com ele e o que pretende passar ao público”. Ou seja, determinar sua relação com o filme e criar uma trilha a partir de suas experiências com a música é o caminho para “atualizá-lo”.

Durante o evento, irão se apresentar artistas dos mais diferentes estilos musicais. A banda punk Ordinária Hit foi convidada a musicar o filme anarquista “Maudite soit la guerre!” (Maldita seja a guerra!, de 1914), enquanto Marlui Miranda, há anos estudiosa das culturas indígenas brasileira, irá trabalhar com o filme “O rio da dúvida”, a ser exibido pela primeira vez no Brasil e que trata da expedição realizada na Amazônia pelo ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt em companhia de Cândido Rondon.

Improvisações, música erudita previamente escrita ou músicas compostas especialmente para a ocasião irão dialogar com os cerca de 24 títulos que contarão com acompanhamento musical. Na entrevista que deu à Revista CONCERTO e que em breve estará circulando (edição de agosto), Almeida Prado fala um pouco de como foi a verdadeira aventura de compor a música para Études sur Paris, um desafio que levou o experiente compositor, segundo conta, a “entrar em crise”. Vencidas as dificuldades, ele afirma que procurou retratar as diversas faces de Paris: “há a Paris do acordeão tocado nas ruas, a Paris medieval, a barroca. E entrando neste clima decidi fazer diversas homenagens aos compositores parisienses que mais gosto, tais como Machaut, Fauré, Poulenc, Milhaud, Satie, Ravel, Debussy e Messiaen”. Além deste concerto, que certamente será muito especial, toda a programação da III Jornada de Cinema Silencioso (que pode ser conferida no site www.cinemateca.gov.br/jornada/index.php), é um prato cheio não apenas para os cinéfilos como para os amantes da música.

[Imagens do filme “Études sur Paris”, de André Sauvage]


 





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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