Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Quarta-Feira, 28 de Junho de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes


 
 
 
Paixão em primeiro lugar (10/9/2009)
Por João Marcos Coelho

“Você só toca bem a música pela qual está verdadeiramente apaixonado.” A frase singela é dita pelo pianista polonês Piotr Anderszewski no excepcional documentário realizado pelo dublê de violinista e cineasta Bruno Monsaingeon que acaba de ser lançado no mercado internacional pela Médici Arts em DVD.

De fato, assim como tudo na vida, a gente só faz bem aquilo que gosta. Já convivi bastante com músicos de orquestras brasileiras – e vocês nem podem imaginar como a maioria deles torce o nariz quando o maestro programa qualquer coisa além da música do século 19. Música serial ou do século 20, então, nem pensar. A hostilidade é geral e irrestrita.

Não só é possível, como certo, que a Osesp mudou um pouco esta mentalidade tão retrógrada. Em todo caso, é dolorido constatar que foi preciso chegarmos ao século 21 para colocarmos ao menos a primeira metade do século anterior na nossa programação sinfônica.

Voltando, porém, ao pianista polonês. Sua musicalidade é fantástica. Em boa parte do DVD, Monsaingeon – que se notabilizou como o grande documentador de Glenn Gould em uma série de vídeos hoje disponíveis em DVDs – capta Anderszewski numa viagem de trem pelo leste europeu. Ele ocupa um vagão transformado numa pequena casa, incluindo um estúdio de trabalho com um Steinway que parece ser de cauda inteira, modelo de concerto daqueles grandões.

Enquanto a paisagem característica do inverno polonês corre pela janela, o pianista fala de como Chopin é tudo em seu país: de estação ferroviária a cartazes nas ruas e música de todas as horas para os seus compatriotas. Toca um noturno e uma valsinha, e mostra como Chopin combina em sua música a genialidade com “o pior da música de variedade francesa”, diz rindo, e de repente constrói quatro compassos absolutamente geniais (repete várias vezes a sequência e confessa que poderia tocá-la durante horas, dias...). Monsaingeon lhe sugere a quarta balada com obra-chave do compositor polonês, mas Anderszewski, com quem concordo, contrapõe a bela, maravilhosa terceira balada – e executa de modo encantador o início.

Mas, na hora de revelar quais foram as suas primeiras e mais marcantes influências, ele não titubeia. Começa com Bach e toca uma de suas partitas numa velocidade delirante (mas não estamos diante de um show de pirotecnia, e sim de alta sensibilidade musical); depois fala do concerto para violino de Beethoven enquanto toca uma redução de modo comovente. Mas o que nos deixa perplexos mesmo é a sua paixão por Mozart – e o Mozart da Flauta Mágica. Ele toca a ária inteirinha de Papageno, ora cantarolando, ora apontando sacadas geniais de Mozart, um compositor particularmente amado no leste europeu, sobretudo em Praga, desde que estreou seu Don Giovanni lá.

Uma das maiores qualidades de Bruno Monsaingeon é saber colocar o entrevistado à vontade. A ponto de fazê-lo esquecer que está sendo filmado. A sequência do Papageno é formidável. Assim como outra onde ensaia solando e regendo um dos primeiros concertos para piano de Beethoven com a Orquestra de Câmara de Bremen. Em seguida, trechos de um ensaio iluminado do primeiro de Brahms com a Philharmonia inglesa regida por Gustavo Dudamel.

Amor, paixão pelo que faz – este é o primeiro sentimento que passa Anderszewski. Procure um CD duplo recém-lançado pela Virgin Records que registra seu antológico recital de estreia no Carnegie Hall, que começa com uma partita de Bach, passa por Schumann e Janácek, concluindo com uma leitura eletrizante da sonata opus 110 de Beethoven.

Qual a razão do tremendo êxito de Anderszewski, de um Gustavo Dudamel? Ou dos documentários do francês Bruno Monsaingeon? Eles gostam, amam o que fazem. Paixão, portanto, é sempre o primeiro e mais importante impulsionador de uma carreira bem-sucedida. Em termos de mercado, mas primeiro, e sobretudo, em termos pessoais, claro. Afinal, de nada adianta ganhar caminhões de dinheiro e prestígio se você está pessoalmente infeliz com o que faz. Pense nisso.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

Fórum apresenta importantes orientações para “endowments” culturais no Brasil Por Nelson Rubens Kunze (10/6/2017)
Filme “Filhos de Bach” marca por sua sensibilidade e delicadeza Por Nelson Rubens Kunze (9/6/2017)
Transformação social e o futuro da música clássica Por Anahi Ravagnani e Leonardo Martinelli (30/5/2017)
Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo Por João Marcos Coelho (25/5/2017)
Festival Amazonas de Ópera encena ‘Tannhäuser’ e comemora 20ª edição Por Nelson Rubens Kunze (23/5/2017)
Noites memoráveis com Isabelle Faust e Alexander Melnikov Por Camila Frésca (18/5/2017)
Com Faust e Volmer, a Osesp chega à excelência Por Irineu Franco Perpetuo (16/5/2017)
Foi um esplendor, mas... Por Jorge Coli (16/5/2017)
Perdas e danos (Santa Marcelina incorpora Theatro São Pedro) Por Nelson Rubens Kunze (9/5/2017)
Pesquisa do Projeto Guri mostra resultados importantes Por Camila Frésca (3/5/2017)
Diana Damrau, uma artista de mais de 50 tons Por Irineu Franco Perpetuo (2/5/2017)
E Cristian Budu, finalmente, tocou com a Osesp! Por Irineu Franco Perpetuo (21/4/2017)
Olivier Toni Por João Marcos Coelho (20/4/2017)
“Uirapuru”, de Villa-Lobos: algumas considerações no centenário da obra Por Camila Frésca (12/4/2017)
Nasce uma estrela Por Jorge Coli (11/4/2017)
A festa do Concurso Maria Callas: competência e amor à música Por Jorge Coli (4/4/2017)
Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta “Jenufa”, de Janácek Por Nelson Rubens Kunze (4/4/2017)
“Risco” é vibrante imagem artística da cidade de São Paulo Por Jorge Coli (29/3/2017)
Quanto custa uma orquestra sinfônica? Por Nelson Rubens Kunze (28/3/2017)
De palmeiras e pinheirinhos nórdicos Por João Marcos Coelho (24/3/2017)
Opes abre temporada clássica no Theatro Municipal do Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (23/3/2017)
Sombra de sombra – a estreia da ópera “O espelho” Por João Luiz Sampaio (22/3/2017)
Helder Parente, talento infinito Por Rosana Lanzelotte (21/3/2017)
Trio Villani-Côrtes faz uma ótima estreia com “Três tons brasileiros” Por Camila Frésca (14/3/2017)
O valor da música (e a responsabilidade do Estado) Por Nelson Rubens Kunze (5/3/2017)
Um Brasil diferente ainda é possível Por João Marcos Coelho (22/2/2017)
Em clima de festa, Theatro Municipal de São Paulo abre ano com bom concerto Por Nelson Rubens Kunze (22/2/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Junho 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
28 29 30 31 1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 1
 

 
São Paulo:

30/6/2017 - Orquestra de Câmara da ECA/USP - OCAM (CANCELADO)

Rio de Janeiro:
29/6/2017 - Ensemble San Carlino (Itália)

Outras Cidades:
28/6/2017 - Natal, RN - Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046