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A luteria criativa e ousada de Saulo Dantas-Barreto (24/8/2010)
Por Camila Frésca

Saulo Dantas-Barreto é um artista que não tem medo de arriscar. O luthier [nome francês adotado por aqui para os artesãos que constroem instrumentos de corda], diplomado em 1992 no Instituto Internacional de Luteria Antonio Stradivari, de Cremona, decidiu que tinha que entrar na vida profissional com uma realização de impacto. Assim, saiu da Itália e foi para a Espanha, determinado a colocar uma obra sua na coleção de instrumentos musicais do Palácio Real de Madri. Passou a construir um quarteto de cordas e, com a intermediação de um príncipe brasileiro já falecido (Dom Pedro Gastão, neto da princesa Isabel), conseguiu entrar em contato com a Casa Real Espanhola, que acabou acolhendo seu 'Quarteto da Rainha': “Era uma ideia quase utópica, mas eu queria entrar na vida profissional com algo que chamasse a atenção para o meu trabalho. Acho que se o artista tem certeza da qualidade daquilo que faz ele tem obrigação de mostrar”, afirma.


Imagens do violino 'Floresta do Amazonas', de autoria de Saulo Dantas-Barreto. [Foto: divulgação]

Saulo Dantas-Barreto nasceu no Recife e, embora seus pais não fossem músicos, não apenas ele como o irmão, Raïff Dantas-Barreto, interessaram-se pelo métier. Enquanto Raïff prosseguiu com os estudos de violoncelo, transformando-se num dos principais talentos de sua geração no país, Saulo, já ao se formar em violino na Universidade Federal da Paraíba, sabia que queria mesmo era tornar-se um construtor de instrumentos musicais. Ganhou uma bolsa de estudos e seguiu para a Europa, onde permaneceu por 12 anos, até voltar ao Brasil e se estabelecer em São Paulo, em 2000. Instalou uma oficina no teatro do músico Antonio Nóbrega e lá estava até o ano passado, quando foi convidado pela Santa Marcelina Cultura para ser o luthier da instituição e ministrar um curso, que deve começar a funcionar em 2011.
“O legado de Stradivarius, que é meu ídolo, foi unir a qualidade à originalidade. Critico os luthiers que hoje em dia fazem simplesmente cópias dele. Stradivarius não copiou ninguém”, afirma Dantas-Barreto, que tem opiniões bastante definidas sobre seu ofício. “A luteria hoje em dia vive um momento de falta de criatividade, e em muitos casos também de falta de qualidade. Guarneri, Amati, Stradivarius foram todos gênios, fizeram instrumentos maravilhosos. Mas você achar que aquilo é o máximo e algo intransponível é apequenador. Não quer dizer que você vá ultrapassá-los, nem que deve ser esse o objetivo de sua vida, mas você tem que achar seu caminho, sua maneira de construir o instrumento, e tem que ser criativo. A luteria é uma arte, mas um copista não é um artista, é apenas um copista”.

De sua parte, ele não deixou por menos e, além de procurar constantemente aprimorar detalhes dos instrumentos “tradicionais”, desenvolve um trabalho único com instrumentos “temáticos” ricamente ornamentados. Saulo conta que a técnica em si não tem nada de nova, sendo um antigo procedimento de marchetaria adaptada a instrumentos de corda: faz-se um desenho a lápis no instrumento, que depois é escavado na madeira, formando finíssimas canaletas. Acontece que o luthier pernambucano não parou nas ornamentações tradicionais e avançou para o tampo frontal do instrumento, local onde habitualmente não se faz intervenções sob pena de se alterar sua sonoridade. “Não altera coisa nenhuma, é uma espécie de tatuagem de menos de um milímetro de espessura”, ele explica. Esse trabalho começa após a construção completa do instrumento, antes porém da aplicação do verniz. “Eu tinha essa ideia há muito tempo. Penso num tema e desenvolvo uma ornamentação a partir dele, no papel. Depois do instrumento montado começa esse trabalho de escultura (ou tatuagem) desse desenho no instrumento”. Após o preenchimento do desenho com uma pasta feita de pó de ébano e cola, as diferentes cores com as quais ele é preenchido advêm de variações do verniz.

A série conta com quatro belos instrumentos – dois violinos e dois violoncelos. O violino 'Mata atlântica' foi construído em abeto, ácero e ébano, tendo cores que variam do quase preto ao amarelo-claro. “É uma demonstração do que a arte da luteria pode expressar e produzir sem fugir dos padrões seculares de forma e cor”, esclarece Saulo em seu site (vale a pena a visita: http://luteria.dantasbarreto.com.br ). Há ainda o violoncelo piccolo 'Dom Pedro, o desejável', de propriedade do músico Dimos Goudaroulis, o violino 'Floresta do Amazonas' e o violoncelo 'Aleijadinho', o mais novo da família. O instrumento foi encomenda de um industrial de São Paulo e músico amador, e tem chamado a atenção para o trabalho criativo e criterioso de seu autor. Aliás, Saulo faz questão de frisar que, além da preocupação com a beleza das peças que constrói, há um cuidado ainda maior com sua sonoridade. O resultado, até o momento, tem sido aprovado pelos músicos que têm acesso a seus instrumentos, como os violinistas Daniel Guedes e Martin Tuksa e o violoncelista Antonio Meneses, padrinho do violoncelo 'Aleijadinho'. Todo o meticuloso e sofisticado trabalho de construção e ornamentação do 'Aleijadinho' pode ser acompanhado passo a passo no site www.violonceloaleijadinho.com.br, bem como no recém-lançado livro Aleijadinho, o violoncelo.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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