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Uchida, Decca e o “jus esperneandi” (20/9/2010)
Por João Marcos Coelho

Agonias nunca transcorrem placidamente. Sobretudo quando se fala de indústria cultural. Aí o chamado “jus esperneandi” chega às raias da histeria. As mudanças de paradigmas da indústria fonográfica vêm provocando uma desgastante agonia nas gravadoras. Acostumadas por décadas a comprar por 1 e vender por 10, teimam em não reconhecer que seu negócio simplesmente não existe mais – ao menos do jeito antigo. A gente sabe o fim deste filme, mas elas teimam em querer alterar o inevitável curso da trama.

Calma, não estou falando que o suporte físico das gravações morreu. O CD continuará existindo. Como, aliás, o vinil, que vem voltando com alguma força no mercado. Mas daqui para a frente ambos os suportes somente ocuparão nichos, não serão mais os veículos hegemônicos da distribuição e consumo de música.

Como vocês, também vivo garimpando na internet as informações em tempo real. É um vício do qual ninguém mais se livra, com certeza. Duas notícias me chamaram a atenção, neste início de semana. Uma dá conta de que as gravadoras Sony e Deutsche Grammophon decidiram que querem participar dos ganhos de seus músicos clássicos em seus concertos e recitais. Os novos contratos para gravações apresentados aos artistas, diz o jornalista inglês Norman Lebrecht, estipulam a comissão em torno de 15% do ganho líquido (ou seja, a comissão recai sobre os 80% que vão para o bolso dos músicos, descontados os 20% que o empresário abocanha). Esperto, o contrato acrescenta que esta comissão incidirá sobre toda e qualquer renda aferida pelo artista durante o período de venda do CD.

Claro, eles não são bobinhos – perceberam que a parte do leão não está mais com eles. Enquanto eles estrebucham em déficits, os artistas faturam nos concertos e apresentações ao vivo. Justíssimo, não é mesmo? Mas para as gravadoras está tudo errado. Afinal, em troca do prestígio de gravar para um selo tão nobre quanto a Deutsche Grammophon, o músico tem por obrigação dividir com ela todos os seus ganhos, mesmo aqueles que nada têm a ver com o CD. Haja sacanagem.

A segunda notícia é igualmente interessante. Um site internacional de venda de CDs  acaba de oferecer aos internautas o tão esperado CD onde a celebrada pianista Mitsuko Uchida interpreta Robert Schumann: Davidsbündlertänze, opus 6 e Fantasia em dó maior, opus 17. Você lê o descritivo do CD e fica com água na boca pra comprá-lo e ouvi-lo. Mas, antes de saber o preço, você topa com uma advertência do site: “Em nossa opinião, este CD simples com um CD bônus é ridiculamente caro, mas os dirigentes da Decca presumem que os fãs de Mitsuko Uchida pagarão qualquer preço por uma gravação dela. Portanto, aceite nossas desculpas pelo preço deste item. Esperamos que a gravadora repense com urgência esta questão”. Que bela e sadia rebelião.

O fato é que o CD com Davidsbundler e a Fantasia tem 72 minutos, mas o CD-bônus traz, em curtíssimos 29 minutos, um bate-papo da diva nipônica do teclado sobre sua relação com Schumann. É claramente apenas um bônus, e deveria servir como mero chamariz da gravadora para atrair compradores para o CD físico, numa era em que baixá-lo via Internet e queimar o CD em casa sai muito mais em conta. Tem total razão o site em seu puxão de orelhas na Decca. Até a Amazon, que adora praticar um dumping, anuncia este CD a estratosféricos 42,99 dólares.

Estendo à Decca o que diz Norman Lebrecht a propósito da atitude da Sony e da DG com seus contratados. Tais posturas são “moral, artística e comercialmente inaceitáveis”. Vão todas morrer estrebuchando. Merecem.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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