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Nem sempre é bom improvisar (16/11/2010)
Por João Marcos Coelho

Assisti a alguns concertos do recente Festival de Música Nova e fiquei assustado com a bagunça generalizada do evento. Músicos no palco que sequer foram anunciados; peças que não constavam dos programas nem foram comunicadas às diminutas porém sempre distintas plateias; pianos desafinados até o ponto em que era impossível tocar qualquer coisa neles.

Enfim, a 45ª edição do mais antigo e tradicional evento da América Latina dedicado à música contemporânea aconteceu aos trancos e barrancos, sob o signo do improviso. O público variou entre 12 e 30 pessoas, em média (nada contra, aliás; música nova, como repete sempre Gilberto, não atrai mesmo multidões; mas sempre contou com o entusiasmo e a presença da tribo contemporânea). Apenas o concerto de lançamento do CD com obras de Gilberto Mendes – fundador do Festival – no SESC Vila Mariana teve excelente público. E foi lá que uns e outros murmuravam que a própria tribo da música contemporânea parece ter dado as costas ao evento.

Por quê?, fiquei me perguntando. Será que foi a (des)organização a responsável pela debandada? É possível que tenha contribuído. Afinal, nem a imprensa especializada ficou sabendo com antecedência mínima do calendário dos concertos. Eu mesmo. Precisava escrever uma matéria de apresentação do Festival e só obtive os dados fundamentais – tipo local, hora, músicos e obras – pouco mais de 24 horas antes do primeiro concerto. Assim mesmo, programas repetidos em Santos e São Paulo não especificavam o repertório correto.

E o programa geral? Bem, foi outra piada. Se para ter chance de melhor curtir o que está rolando no palco até mesmo a dita música convencional, aquela do passado, o público leigo precisa de textos que expliquem minimamente as obras, a necessidade fica urgente, urgentíssima no caso da música contemporânea. Pois não se deu explicação alguma. Nem comentários verbais pelos músicos – o que seria uma boa.

Enfoque errado
Que o festival precisa de uma correção de rota, isso é patente. Por que, por exemplo, não recuperar os antigos enfoques, quando Gilberto Mendes trazia para o Brasil os chamados “compositores da hora”, os que estavam fazendo barulho na Europa e Estados Unidos naquele momento? Com certeza, muitos se lembrarão das participações de nomes decisivos como Jorge Peixinho, Luca Lombardi, Dieter Schnebel e tantos outros; dos concertos centrados nas obras destes criadores; e das polêmicas em torno de suas obras.

Pois, e que não haja dúvida sobre isso, o festival de música nova precisa focar nos compositores. Aos 88 anos, Gilberto logicamente não pode nem quer mais pegar o touro à unha, colocar o festival de novo nos trilhos.

Que alguém se apresente, por favor. Caso contrário, o mais importante evento dedicado às músicas vivas, contemporâneas, minguará rapidamente, até a extinção. Porque a agonia já foi a tônica desta 45ª. edição.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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