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O talismã Villa-Lobos e os pés no chão (24/2/2011)
Por João Marcos Coelho

No dia 15 de fevereiro passado, o jornal norte-americano “The Baltimore Sun” deu matéria com foto da entrevista coletiva realizada na Sala São Paulo onde se anunciou a contratação de Marin Alsop como nova titular da Osesp a partir de 2012. Algumas coisinhas me chamaram a atenção:

1 - aqui ela fará dez programas diferentes por ano, ou seja, trabalhará aqui durante dez semanas; lá seu contrato, segundo o “Baltimore”, prevê um mínimo de 14 e um máximo de 16 semanas de trabalho. Isso significa entre 40 e 60% mais lá do que aqui.


Marin Alsop [Foto: divulgação/Alessandra Fratus]

2 - O jornal cita que, na coletiva, Marin declarou que sua meta é fazer da Osesp “a melhor orquestra do mundo”. O leitor Henry Cohen, em comentário feito na edição digital do Baltimore Sun logo abaixo da matéria, diz que espera que ela não tenha sido literal, já que não é logicamente possível fazer da Baltimore Symphony Orchestra e da Osesp a melhor orquestra do mundo, “apesar de que elas poderiam dividir o primeiro lugar”. E especula que seria interessante ouvir alguém que tenha assistido aos dois concertos – um em Baltimore, outro em São Paulo – em que Marin regeu a Sétima de Mahler, só para comparar.

3 - Outro leitor, Harold Lewis, dá os parabéns a Marin e espera que ela supere as intrigas políticas que provocaram a saída de John Neschling (curioso como alguém lá em Baltimore pode estar tão por dentro das coisas daqui; santa internet).

4 - Mas Lewis faz um comentário final que, confesso, foi o que mais me chamou a atenção: ele diz que a expectativa de que Marin “nos proporcione execuções das grandes obras sinfônicas de Villa-Lobos é emocionante”.

Há muito que comentar sobre estes itens.

Nem Baltimore nem Osesp podem sonhar em ser a melhor orquestra do mundo, se aqui e lá as pessoas tiverem os pés bem fincados na realidade. Só pode ter sido mera expressão retórica de Marin. Nem por isso são orquestra ruins; ao contrário, são excelentes, em franco desenvolvimento – Baltimore vários corpos à frente da Osesp neste momento –,  e podem ocupar, sim, posições expressivas na cena internacional. Mas daí a ser a melhor do mundo soa tão irreal quanto Neschling, durante seu período, afirmar que a Osesp era uma das cinco melhores do mundo.

O melômano Harold Lewis pode ficar sossegado: Marin jamais sofrerá as pressões que Neschling suportou, pois seu cargo tem pouco a ver com o que Neschling ocupou por doze anos. Ela virá trabalhar por dez semanas, Neschling ficava lá 18 horas por dia. O dia-a-dia da orquestra não estará em suas mãos. Nem os problemas, espera-se.

Seria, sim, muito interessante se um privilegiado pudesse ter assistido aos dois concertos, aqui e lá, em que Marin regeu a dificílima Sétima sinfonia de Mahler. A daqui foi muito boa. Espera-se, claro, que ela não transforme a médio prazo a Osesp em sessão de “warm up” para os concertos de Baltimore – ou vice-versa, claro, pode acontecer o contrário, e daí nós seremos os beneficiados.

Mas o trecho mais significativo é o da expectativa do assinante de Baltimore de assistir a concertos com as obra sinfônicas de Villa-Lobos. A Osesp não precisa ter como horizonte ser a maior orquestra da América Latina. Basta ser a melhor em Villa-Lobos – e ela tem tudo para isso – e, desse modo, já terá assegurado seu lugar entre as grandes na cena internacional.

 





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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