Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Segunda-Feira, 18 de Dezembro de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 

 
 
 
Outros relacionamentos geniais (II) (30/5/2011)
Por Camila Frésca

Tratei de como Mário de Andrade procurava influenciar compositores seus contemporâneos, como Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, na intenção de que estes realizassem na prática os pressupostos de seu projeto de formação de uma música brasileira.

Se Camargo Guarnieri foi o mais fiel seguidor de Mário e tinha verdadeira adoração por ele – o que fazia com que a afinidade entre os dois se aproximasse com a de um pai e filho, com Francisco Mignone (1897-1986), dez anos mais velho que Guarnieri, a relação era um pouco mais complexa. Mário e Mignone tinham quase a mesma idade, e foram companheiros de classe no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Além disso, Mignone permaneceu estudando na Europa de 1920 a 29. Quando retornou, já com 32 anos, retomou a amizade com Mário, mas já era um homem feito. Ainda assim, foi alvo de intenso assédio musical de Mário, que o queria militante nacionalista.


Francisco Mignone [Foto: divulgação]

Num texto de 1939, publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", Mário fala sobre Mignone: “Muitos compositores americanos, principalmente brasileiros, têm passado por mim, e de todas as casas. Cabotinos deslavados, ingênuos quase analfabetos, técnicos honestos mas cheios de falhas, gênios geniosos admiráveis [...] Jamais encontrei entre eles quem demonstrasse, como Francisco Mignone, um conhecimento mais íntimo, mais profundo e mais vasto da música”. Falando sobre sua fase de formação, Mário comenta os “perigos” que rondaram Mignone: “percorre ambiciosamente todas as Europas musicais, adquire técnica, mas divaga tanto em sua funcionalidade que quase se naturaliza franco-espanhol com a Suíte asturiana. Mas tudo tem valor de relação nos artistas verdadeiros; e as suas tentativas italianizantes de ópera, a sua atração permanente por Debussy e Ravel, a sua noite nos jardins de Espanha traziam o paulista de novo para o Brasil com uma forte riqueza de experiência e a saciedade europeia”.

Na verdade, o artigo trata de uma fase crítica na vida do compositor, de crise composicional, e o texto de Mário é, ao mesmo tempo, uma injeção de ânimo e um conselho, ou ao menos uma sugestão – feita de forma sutil – ao caminho que ele deveria seguir: “Esta situação atual de Francisco Mignone eu não denunciaria se o artista não tivesse aquela importância dos grandes [...] e se principalmente não apresentasse imensas possibilidades futuras. Pelo já realizado, sem a menor fraqueza da camaradagem, considero este brasileiro uma das expressões mais representativas da música americana. [...] Confiou-me recentíssimamente o compositor que pretende iniciar um novo ciclo de obras sinfônicas. Finda a fase negra [‘caracterizada pela utilização do nosso fundo africano’] é provável que se abra agora uma outra menos particularizada no caráter e de muito maior alcance nacional. Quanto ao artista em si mesmo, estou plenamente sossegado. Com a sua musicalidade e os seus conhecimentos técnicos, Francisco Mignone está naquele estágio de recompensa dos que não podem mais criar o ruim”.

Ainda que em geral Mignone se mostrasse favorável ao esforço do amigo, alguns depoimentos, feitos após a morte de Mário, relativizam essa total adesão ao projeto nacionalista. Em 1968, o compositor afirmou: “amparado pela cordial e espontânea amizade de Mário de Andrade, embrenhei-me no cipoal da música nacionalista e, também, pra não ser considerado [...] uma ‘reverendíssima besta’ [...] compus, compelido, Quatro fantasias brasileiras, para piano e orquestra, Maracatú do Chico rei, Festa das igrejas e Sinfonia do trabalho [...] Mas, voltando à minha fase nacionalista, devo declarar que não andava contente com o que produzia. Dediquei-me, para esconder-me de mim mesmo, a acompanhar ao piano, reger orquestras [...] Depois de dobrar o cabo das boas resoluções, aos sessenta e mais anos, entreguei-me a escrever música pela música. Agrado a mim mesmo e é quanto basta. Aceito e emprego todos os processos de composição conhecidos. Transformo-os à minha maneira.”

Seja pela excepcional produção musical, pelos grandes compositores ou pelo embate intelectual, as primeiras décadas do século XX estão entre as mais férteis de nossa história musical. Obras e ideias surgidas naquele momento seriam muitas vezes motivo de acirradas discussões, sendo ora combatidas, ora louvadas ou ainda julgadas superadas. Movimentos surgidos nas décadas seguintes como o Música Viva e o Música Nova (e até mesmo manifestações posteriores) dialogaram diretamente com este período, que ainda precisa ser objeto de estudos mais aprofundados – o que certamente nos ajudará numa melhor compreensão dos caminhos da música brasileira.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

Mais Textos

A goleada da Argentina (e nem precisaram do Messi) Por Nelson Rubens Kunze (8/12/2017)
Uma grande e despretensiosa sátira Por João Luiz Sampaio (8/12/2017)
Museu virtual reúne milhares de instrumentos de coleções britânicas Por Camila Frésca (4/12/2017)
Karnal, a Osesp e o governador Por Nelson Rubens Kunze (24/11/2017)
Quem não trafega nas redes sociais se trumbica Por João Marcos Coelho (24/11/2017)
Budu e Hilsdorf: nasce um duo Por Irineu Franco Perpetuo (14/11/2017)
Três óperas Por Jorge Coli (7/11/2017)
Convocação de OSs para Emesp, Guri e Conservatório de Tatuí reforça torniquete financeiro do governo Por Nelson Rubens Kunze (3/11/2017)
Para onde nos levará a onda de censura no país? Por João Marcos Coelho (31/10/2017)
Os quartetos de cordas e a reavaliação da obra de Villa-Lobos Por Camila Frésca (30/10/2017)
O Brahms profundo e espontâneo de Nelson Freire Por Irineu Franco Perpetuo (25/10/2017)
Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
Finalmente Dudamel “suja” mãos e batuta com a “política” Por João Marcos Coelho (24/8/2017)
Dobradinha “Pulcinella & Arlecchino” tem boa realização no Theatro São Pedro Por Nelson Rubens Kunze (23/8/2017)
O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena Por Irineu Franco Perpetuo (10/8/2017)
Osesp faz belo concerto com programa raro Por Jorge Coli (9/8/2017)
Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela Por Camila Frésca (8/8/2017)
Em busca da música Por João Marcos Coelho (28/7/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Dezembro 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
27 28 29 30 31 1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
31 1 2 3 4 5 6
 

 
São Paulo:

21/12/2017 - Ópera A flauta mágica, de Mozart

Rio de Janeiro:
21/12/2017 - Orquestra Johann Sebastian Rio

Outras Cidades:
21/12/2017 - Goiânia, GO - Ópera Carmen, de Bizet
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046