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Outros relacionamentos geniais (II) (30/5/2011)
Por Camila Frésca

Tratei de como Mário de Andrade procurava influenciar compositores seus contemporâneos, como Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, na intenção de que estes realizassem na prática os pressupostos de seu projeto de formação de uma música brasileira.

Se Camargo Guarnieri foi o mais fiel seguidor de Mário e tinha verdadeira adoração por ele – o que fazia com que a afinidade entre os dois se aproximasse com a de um pai e filho, com Francisco Mignone (1897-1986), dez anos mais velho que Guarnieri, a relação era um pouco mais complexa. Mário e Mignone tinham quase a mesma idade, e foram companheiros de classe no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Além disso, Mignone permaneceu estudando na Europa de 1920 a 29. Quando retornou, já com 32 anos, retomou a amizade com Mário, mas já era um homem feito. Ainda assim, foi alvo de intenso assédio musical de Mário, que o queria militante nacionalista.


Francisco Mignone [Foto: divulgação]

Num texto de 1939, publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", Mário fala sobre Mignone: “Muitos compositores americanos, principalmente brasileiros, têm passado por mim, e de todas as casas. Cabotinos deslavados, ingênuos quase analfabetos, técnicos honestos mas cheios de falhas, gênios geniosos admiráveis [...] Jamais encontrei entre eles quem demonstrasse, como Francisco Mignone, um conhecimento mais íntimo, mais profundo e mais vasto da música”. Falando sobre sua fase de formação, Mário comenta os “perigos” que rondaram Mignone: “percorre ambiciosamente todas as Europas musicais, adquire técnica, mas divaga tanto em sua funcionalidade que quase se naturaliza franco-espanhol com a Suíte asturiana. Mas tudo tem valor de relação nos artistas verdadeiros; e as suas tentativas italianizantes de ópera, a sua atração permanente por Debussy e Ravel, a sua noite nos jardins de Espanha traziam o paulista de novo para o Brasil com uma forte riqueza de experiência e a saciedade europeia”.

Na verdade, o artigo trata de uma fase crítica na vida do compositor, de crise composicional, e o texto de Mário é, ao mesmo tempo, uma injeção de ânimo e um conselho, ou ao menos uma sugestão – feita de forma sutil – ao caminho que ele deveria seguir: “Esta situação atual de Francisco Mignone eu não denunciaria se o artista não tivesse aquela importância dos grandes [...] e se principalmente não apresentasse imensas possibilidades futuras. Pelo já realizado, sem a menor fraqueza da camaradagem, considero este brasileiro uma das expressões mais representativas da música americana. [...] Confiou-me recentíssimamente o compositor que pretende iniciar um novo ciclo de obras sinfônicas. Finda a fase negra [‘caracterizada pela utilização do nosso fundo africano’] é provável que se abra agora uma outra menos particularizada no caráter e de muito maior alcance nacional. Quanto ao artista em si mesmo, estou plenamente sossegado. Com a sua musicalidade e os seus conhecimentos técnicos, Francisco Mignone está naquele estágio de recompensa dos que não podem mais criar o ruim”.

Ainda que em geral Mignone se mostrasse favorável ao esforço do amigo, alguns depoimentos, feitos após a morte de Mário, relativizam essa total adesão ao projeto nacionalista. Em 1968, o compositor afirmou: “amparado pela cordial e espontânea amizade de Mário de Andrade, embrenhei-me no cipoal da música nacionalista e, também, pra não ser considerado [...] uma ‘reverendíssima besta’ [...] compus, compelido, Quatro fantasias brasileiras, para piano e orquestra, Maracatú do Chico rei, Festa das igrejas e Sinfonia do trabalho [...] Mas, voltando à minha fase nacionalista, devo declarar que não andava contente com o que produzia. Dediquei-me, para esconder-me de mim mesmo, a acompanhar ao piano, reger orquestras [...] Depois de dobrar o cabo das boas resoluções, aos sessenta e mais anos, entreguei-me a escrever música pela música. Agrado a mim mesmo e é quanto basta. Aceito e emprego todos os processos de composição conhecidos. Transformo-os à minha maneira.”

Seja pela excepcional produção musical, pelos grandes compositores ou pelo embate intelectual, as primeiras décadas do século XX estão entre as mais férteis de nossa história musical. Obras e ideias surgidas naquele momento seriam muitas vezes motivo de acirradas discussões, sendo ora combatidas, ora louvadas ou ainda julgadas superadas. Movimentos surgidos nas décadas seguintes como o Música Viva e o Música Nova (e até mesmo manifestações posteriores) dialogaram diretamente com este período, que ainda precisa ser objeto de estudos mais aprofundados – o que certamente nos ajudará numa melhor compreensão dos caminhos da música brasileira.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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