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A praga da “retromania” (21/6/2011)
Por João Marcos Coelho

Pra qualquer lado que a gente olhe ou ouça, a retromania é uma praga que nos envolve de modo avassalador. Li no domingo (19/6), na coluna de Alexandre Matias no Estadão, algumas observações sobre a retromania, a partir de um livro que acaba de ser lançado nos Estados Unidos: "Retromania - Pop’s Culture's Addiction to Its Own Past", de Simon Reynolds (Faber and Faber, $ 11,99 no kindle da Amazon).

Suas primeiras palavras, na introdução, são diretas. “Vivemos numa era pop enlouquecida pelo 'retrô' e maluca por comemorações”. Daí em diante, Simon coleciona fatos do mundo pop comprovando a tese, tipo grupos dos anos 60, 70 e 80 que se reúnem para tours comemorativas que geram caixas com dezenas de CDs/DVDS misturando os tempos áureos com a dura realidade de hoje. Tá certo, estão caindo aos pedaços fisicamente, são pobres clones de si mesmos, mas ainda arrastam multidões aos estádios para ver estes espectros, que repetem mal o que um dia fizeram razoavelmente e os entronizaram como celebridades pop.

O pop, definitivamente, não é minha praia. Mas Simon Reynolds amplia o conceito de retromania e o estende a toda a arte e cultura. Aí me interessou. Diz que esta é a marca mais distinta da primeira década do século XXI. E não é que ele tem razão?

Afinal, entre 2000 e 2010 tivemos a primeira geração de músicos – de qualquer extrato, segmento ou gênero – nascida, amamentada e amadurecida no mundo do Google, iPod, YouTube, redes sociais etc. Isto é, pela primeira vez músicos cresceram já tendo toda a história da música ao alcance de um click. A conseqüência, diz Simon, é que se tornou obsessivo estocar, colecionar, em pastas digitais pessoais, o passado... a tal ponto que eles se esqueceram do presente. Pergunta nosso autor pop: “Será que o maior perigo para o futuro de nossa cultura musical é... seu passado?”


Carlo Maria Giulini [Foto: divulgação]

Boa pergunta. Dois exemplos fortes dos últimos trinta dias. Primeiro, a versão live do disco “Bitches Brew”, de 1969, do trompetista de jazz Miles Davis. O disco já saiu de todo jeito. Ah, mas agora tem três performances inéditas que estavam nos arquivos da Sony. Não muda nada nem acrescenta nada, mas aguça no “consumidor” a vontade de conhecer estes ‘takes’ que provavelmente foram vetados por Miles. Também acabaram de encontrar quatro gravações inéditas do grande maestro italiano Carlo Maria Giulini. São quatro CDs do selo Testament em que ele rege a Filarmônica de Berlim em concertos ao vivo de 1978: além dos costumeiros Mahler (Canção da Terra e Sinfonia nº 1), Schubert (Sinfonias 8 e 9) e Mussorgsky (Quadros de uma exposição), há uma raridade: as Seis peças para orquestra op. 6 de Anton Webern. Você quer o Webern e leva de cambulhada os outros.

Desrespeitamos Miles e Giulini. Se eles não autorizaram o lançamento comercial destas gravações, é porque tinham lá suas razões. Hoje, em que se grava todo show, concerto e/ou apresentação musical, o volume de música fica quase infinito. Acho que Simon tem razão sim. O maior perigo para o futuro da cultura musical em geral – incluindo a clássica ou erudita – é mesmo o passado. Com uma diferença. Enquanto o mundo pop em geral ataca de 'retrô' em cima de décadas passadas recentes, como a dos 70, 80 ou 90, no mundo erudito a retrômania é ainda mais reacionária, pois “viaja” ao século XIX, quando muito aos começos do século XX. A radicalidade da segunda metade do século XX provocou uma reação virulenta cujos sintomas estamos vivendo agora: a pretexto de ser inclusivo, eclético ou coisa que o valha, começa um vale-tudo tonal em que a banalidade é rainha. Movimentos como o “Bang on a Can”, de Manhattan, liderado pelos compositores David Lang, Michael Gordon e Julia Wolf, mostram que é possível ser inclusivo sem ser banal. Mas são “ilhas” num mar dividido entre esoterismos e obviedades.

É ótimo, fantástico, termos à mão todo o passado musical. Mas não nos deixemos soterrar por ele. O passado tem de ser tratado como memórias à mão, que nos permitem deixar de repetir o que já foi feito. Revoluções estéticas, sabe-se, só se fazem quando se conhece bem o passado.

O resto, vocês sabem, é conversa pra boi dormir. Ou “retromania”, se você quiser ser mais educado e polido.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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