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Um memorável "Pierrot lunaire" no Festival de Campos do Jordão (21/7/2011)
Por Camila Frésca

A 42ª edição do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão só termina nesse domingo, dia 24, mas já é possível dizer que um dos mais importantes concertos aconteceu dia 12, no Auditório do Masp, em São Paulo. O conjunto Het Collectief, que já esteve no Brasil em 2009, interpretou duas obras seminais do século XX: Pierrot lunaire, de Arnold Schönberg (1874-1951), e Quarteto para o fim dos tempos, de Olivier Messiaen (1908-1992).

O quinteto belga Het Collectief tem uma formação incomum: piano (Thomas Dieltjens), clarinete (Benjamin Dieltjens), flauta (Toon Fret), violino (Wibert Aerts) e violoncelo (Martijn Vink). Nasceu em Bruxelas em 1998 com o objetivo de interpretar o repertório da Segunda Escola de Viena – ou seja, a música de Arnold Schönberg, Anton Webern e Alban Berg, grupo de compositores que no início do século XX abalou fortemente as estruturas da música tonal. Numa outra vertente, o Het Collectief também apresenta versões “revisitadas” de obras consagradas, como A oferenda musical, de Bach, que eles igualmente apresentaram em outros concertos por aqui.


Het Collectief [Foto: divulgação]

Pois quem esteve no Masp conferiu uma memorável interpretação de Pierrot lunaire – aliás, foi uma forma mais do que adequada de se lembrar os 60 anos de morte de Schönberg, que aconteceu no dia 13 de julho de 1951. Acompanhando o grupo estavam a excelente mezzo soprano Jacqueline Janssen e o regente holandês Reinbert De Leeuw, que desde 1974 está à frente do Ensemble Schönberg.
 
“Sou um conservador que forçaram a se tornar revolucionário”, se definiu Schönberg uma vez. Considerando-se um autêntico herdeiro da tradição clássica e romântica germânica, ele assumiu uma missão histórica consciente: uma vez constatado o esgotamento do sistema tonal, era chegada a hora de acabar com ele, para, em seguida, erguer um novo sistema em seu lugar. Foi assim que o compositor e teórico começou a praticar, primeiro, o atonalismo (a partir de 1908), e, então, tentando estruturar melhor suas propostas, o dodecafonismo serial (a partir de 1923). Pierrot lunaire, de 1912, é música de cena para voz e conjunto de câmara escrito a partir de pequenos textos do poeta belga Albert Giraud traduzidos para o alemão por Otto Erich Hartleben. A obra, com um total de 21 poemas divididos em três seções de sete, nasceu a partir de uma encomenda da atriz vienense Albertine Zehme, especialista em melodrama – na estreia, os instrumentistas ficaram escondidos atrás das cortinas, com Zehme vestida à caráter sozinha no palco. Além da falta de um centro tonal, o Pierrot traz como novidade o sprechgesang, um procedimento que consiste em emitir a voz entre a fala e o canto. Obra típica do período expressionista de Schönberg, Pierrot lunaire mescla ironia com sadomasoquismo macabro e sangrento.

Se algumas obras de Debussy e Stravinsky, que igualmente causaram incompreensão em sua época, hoje estão totalmente integradas ao repertório tradicional, Pierrot lunaire continua causando estranhamento e espanto, ao mesmo tempo em que seduz por seu tom sombrio e sua magia.

Para quem perdeu a interpretação orgânica e tecnicamente acurada do Het Collectief com Jacqueline Janssen, é possível ouvir trechos da gravação que os artistas fizeram da obra no site http://www.hetcollectief.be/.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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