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Gabriela Montero e a música política (17/10/2011)
Por João Marcos Coelho

Vivemos numa falsa democracia cultural, escreveu anos atrás o pesquisador e professor inglês Julian Johnson no livro “Who Needs Classical Music?”. Esta falsa democracia “pressupõe que todas as formas de arte têm de nos impactar de modo imediato. Por isso, as tentativas de popularizar a música clássica são anuladas pelo fato de que a música-como-arte se recusa a ser apropriada somente por meio do imediatismo reivindicado pela cultura popular”.

Mais importante. Ele qualifica como “peculiaridade histórica da sociedade contemporânea” o modo como pensamos a música exclusivamente como fonte de prazer imediato, uma atitude igual à que temos com relação a roupas ou sexo. “E esquecemos que estamos lidando com uma das mais sofisticadas formas de discurso humano, pelas quais representamos e negociamos nossa compreensão de nós mesmos e do mundo”.


Gabriela Montero [foto: divulgação]

Negociar nossa compreensão de nós mesmos e do mundo, não custa repetir, é viver politicamente. Que o ser humano é essencialmente político, não temos dúvidas. Agora, que os músicos sejam capazes de tomar atitudes políticas claras, seja em suas criações, seja em suas vidas, esta é outra questão. Músicos, sobretudo os clássicos, possuem uma incrível flexibilidade na sua espinha dorsal. Dobram-se a qualquer poderoso de plantão que lhes seja propí$$io (assim mesmo, com dois cifrões em vez do “c”). Há exceções, claro. Mas, tanto na composição quanto no reino dos intérpretes, elas infelizmente não alcançam os 5%.

Ao contrário, a maioria torce o nariz quando se fala de música e política. Pena. Perdem a chance de se afirmarem enquanto cidadãos, jogam no lixo qualquer ação no sentido de tentar transformar a realidade que nos cerca. Dura realidade, por sinal, de qualidade de ensino péssima, de favorecimentos, compadrios, etc.,etc., em vez da objetiva meritocracia.

Por tudo isso, quando um músico toma publicamente uma atitude clara, é o caso de aplaudirmos. Não exatamente sua opção política, mas o fato, anterior, de ele tomar uma posição, ter consciência de que nenhum ser humano é completo sem assumir uma postura política – mesmo que isso lhe custe, às vezes, a perda de um bom emprego ou de um excelente cachê.

O mais recente exemplo a ser imitado – no gesto de tornar pública sua opção política e tentar fazer música que reflita isso – é a ótima pianista venezuelana Gabriela Montero. Aos 41 anos, ela vive longe de seu país há vários anos, foi protegida de Martha Argerich e hoje é uma pianista autossuficiente, que conquistou um lugar no mundo da música clássica. Mora fora da Venezuela, portanto não teria nenhuma razão para mexer nas feridas políticas de seu país.

No entanto, Gabriela, que sempre misturou o improviso à Liszt em seus recitais – chega a pedir que o público faça sugestões de melodias sobre as quais ela improvisa no ato –, agora assumiu-se como compositora de uma obra mais ambiciosa. Estréia esta semana em Essen, com a Orquestra Saint-Martin-in-the-Fields – sim, aquela mesma figurinha fácil de décadas passadas quando liderada por Sir Neville Marriner –, sua obra para piano e orquestra intitulada ExPatria.

Devo mais esta ao combativo jornalista inglês Norman Lebrecht, que publicou em seu blog o texto do programa do concerto, assinado por Gabriela, onde ela explica o sentido de sua composição. Vale a pena ler. Por isso, transcrevo-o abaixo, numa tradução literal. Que sua leitura sacuda nossos espíritos e nos faça sair da habitual letargia:

“Como uma venezuelana expatriada, é previsível que eu expresse, em música, a saudade que sinto do belo país em que nasci. No entanto, minha estréia como compositora vai além da nostalgia subjetiva e transforma-se num clamor público. ExPatria é o retrato de um país quase irreconhecível em relação ao da minha juventude. É minha resposta emocional a uma Venezuela que se entrega à ilegalidade, corrupção, caos e às taxas de homicídio mais elevadas no mundo.

O acorde de abertura foi pensado para tirar o público do silêncio e apatia. É a exposição imediata de uma tragédia que acelerou graças a um delgado véu da democracia sob um olhar internacional negligente e inconseqüente.

Os motivos introduzidos pela trompa e o piano refletem a lembrança de um momento inocente, uma calma sinistra. O tema é rapidamente brutalizado, corrompido e roubado por uma intervenção percussiva imponente e militarista; a seção ‘martellato’ retrata o dia-a-dia dos venezuelanos, que cresceram com tiroteios diários.

Emergindo da violência, solista e orquestra concordam em fazer um diálogo rapsódico regado a luto, culminando num inconsolável lamento em uníssono. A poética rapsódia logo se submete a uma escala cromática descendente, deixando o público entrever a desordem enlouquecida de uma sociedade reprimida e desmantelada.

Minha ‘declaração musical’ não é política. Não sou política. É a história de meu país. É o meu lamento.

Gabriela Montero”





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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