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O instigante violino da metrópole (20/3/2012)
Por Camila Frésca

O que de mais recente se tem produzido no campo da composição para violino no Brasil pode ser conferido no CD “O violino na metrópole”, de Simona Cavuoto. É um disco extremamente interessante para quem estiver disposto a mergulhar numa linguagem musical contemporânea sólida e inventiva, que se utiliza de técnicas expandidas do instrumento. Por isso mesmo, não é música para ouvidos que procurem o confortável ou o já conhecido.

“O violino na metrópole” foi idealizado pelo compositor Marcus Siqueira e a violinista Simona Cavuoto. Natural de Rimini, na Itália, Simona vive no Brasil há menos de dez anos e integra a Osesp desde 2005. Paralelamente, foi colaborando em projetos voltados à música contemporânea, trabalhando com grupos como o Percorso Ensemble e a Camerata Aberta. Com esse CD, consolida seu envolvimento com a música dos nossos dias, demonstrando todo seu entendimento das linguagens contemporâneas ao mesmo tempo em que nos revela sua sólida técnica – a escrita virtuosística para violino solo é o maior desafio que um instrumentista pode enfrentar, já que nela não há como esconder pequenas falhas ou imprecisões.


Simona Cavuoto [foto: divulgação / Julio Kohl]

As 23 faixas apresentam oito obras de cinco compositores brasileiros. São, na verdade, quatro nomes de uma geração que ainda não chegou aos 40 anos – Marcus Siqueira, Marcus Bittencourt, Mauricio De Bonis e Rodrigo Lima – e que giram em torno da figura emblemática de Willy Corrêa de Oliveira, espécie de mentor ou “guru” da turma. De qualquer forma, a audição das peças revela que são todos autores talentosos, com trabalhos consistentes e que têm algo a dizer. Três Capricci urbani de Marcus Siqueira abrem o disco. De um lado, há a clara referência aos Caprichos de Paganini, representando toda a bagagem técnica tradicional do instrumento. E, de outro, há o intuito de se adicionar “uma nova profusão de sons”, conforme explica o autor. “A palavra ‘urbano’ se relaciona com a poética da cidade grande que, de tão devastada em sua dimensão geológica natural, estabeleceu novos paradigmas sobre o lírico e o belo. Desta forma, intentamos aqui extrair timbres que aparentemente seriam débeis ou inadequados para um discurso musical tradicional”, explica Siqueira (um dos Capricci pode ser ouvido na página do autor, em http://www.marcussiqueira.com/#!para-ouvir). Esta mesma ideia de trazer a tradição para dialogar com a contemporaneidade está presente em sua outra obra do disco: Quase barrocas, que tem como base três compositores desse período (Bach, Tartini e Vivaldi). Completam o CD Um móbile, dez pequenas peças de Marcus Bittencourt; Paulistinha (imaginária) de Mauricio De Bonis; Recitare de Rodrigo Lima; Arya per Yara, Oh, este viejo y roto violin! e Allgemeine periodik, de Willy Corrêa de Oliveira.

Realmente, trata-se da novíssima produção brasileira para violino solo, já que a obra mais antiga data de 2001 e seis das oito presentes no disco foram escritas especialmente para o projeto. E, se a música não faz concessões a uma audição cômoda ou superficial, os textos do CD dão elementos para os ouvintes se situarem e compreenderem melhor o discurso musical. A par das informações ali contidas, uma “reaudição” é uma nova viagem a um novo e rico universo.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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