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Ninguém é perfeito! (13/6/2012)
Por João Marcos Coelho

Senti bastante a morte do jornalista Ivan Lessa, autoexilado em Londres há mais de três décadas. Tanto quanto outra morte recente, a de Millôr Fernandes. Eram duas raras inteligências bem-sucedidas no dia-a-dia no trato com as palavras – um atributo que olho, olho em volta, olho de novo... e não vejo ninguém por perto deles.

Falou-se muito sobre Millôr quando ele morreu, em março passado. Não tanto agora, a propósito de Lessa. Ambos faziam da fúria santa contra a burrice, os clichês e os lugares-comuns uma batalha diária. Fugiam deles como o diabo da cruz, diria um conselheiro Acácio de plantão.

É uma regrinha que deveria estar num cartaz imenso na frente do nosso nariz cada vez que um de nós, jornalistas, posta-se em frente ao computador para escrever um texto. Ai de nós, quase sempre a gente esquece esta lição tão básica. Mas juramos persegui-la o tempo todo.


Ivan Lessa [foto: divulgação]

Já os músicos não parecem se preocupar nadica de nada com isso. Os perfis, biografias e currículos são um atentado à inteligência. Empilham, como se fossem listas telefônicas, os nomes de todos os músicos ilustres com os quais conviveram – nem que tenha sido por meros segundos. Não posso dar os nomes aos bois, mas existe um compositor nascido na América do Sul que coloca em seu currículo que deu aulas numa das mais famosas escolas de música do planeta – mas acontece que ele só foi convidado a falar por meia hora, numa visita de cortesia de um grupo de músicos e compositores cucarachas àquela... afamada, prestigiada instituição de ensino, eu já ia dizer, viajando na maionese.

Vocês percebem como essa praga pega fácil? No mundo da música, pega-se o prestígio do outro emprestado – sem ter a decência de pedir ao próprio –, só para se legitimar. Como o papel – ou a tela do computador – aceita tudo, tasca-se lá que fulano já tocou com o ilustríssimo maestro fulano de tal (mesmo que tenha sido depois de um porre pós-concerto).

Ou seja, vale-tudo. O modo como os músicos fazem um corte cirúrgico nas críticas e adicionam os fragmentos em seus perfis, então, é uma graça. Não importa que 90% do texto faça restrições à performance. Nosso músico promissor (epa!) cata o raro elogio e o coloca em corpo 36 em seu perfil.

Bem, cá estou eu a me desviar feito burro idiota de meu caminho. O que cá estava a fazer era uma autocrítica como escriba musical. Volto ao autoaçoite. Meu Deus, quanto clichê já botei no papel. Quantas expressões idiotas.

Ah, acabo de me lembrar de um texto maravilhoso do poeta Olavo Bilac – sim, gente, ele também escrevia prosa interessante, é só conferir num calhamaço que a Edusp lançou há alguns anos – sobre o besteirol que todo jornalista faz diariamente. Vejam que autocrítica feroz? Ninguém – absolutamente ninguém – que viva de escrever está livre disso:

“Qual de vós, irmãos, não escreve todos os dias quatro ou cinco tolices,
que desejaria ver apagadas ou extintas? Mas, ai de todos nós!
Não há morte para as nossas tolices! Nas bibliotecas e nos
 escritórios dos jornais, elas ficam – as pérfidas! – catalogadas;
e lá vem um dia em que um perverso qualquer,
abrindo um daqueles abomináveis cartapácios, exuma as
malditas e arroja-as à face apalermada de quem as escreveu...” 

Atualíssimo, não é verdade? Pois o querido autor daqueles versos tão conhecidos sobre a nossa língua, última flor do Lácio inculta e bela, teve este ataque de sinceridade em artigo no jornal “Gazeta de Notícias” de 13 de janeiro de 1901.

O que me consola, de verdade, é que ninguém é perfeito. Cultivo a certeza dos ingênuos & idiotas a respeito deste dogma, que pra mim ficou superprovado depois que li este quadradíssimo soneto superparnasiano, que Bilac assinaria com frêmitos de gozo. Ele se intitula “Mozart”. Deliciem-se:

“Morrer como Mozart!... Deixando a face
Da Terra presa a um fúnebre lamento...
Aguaceiros, trovões nêsse momento
Como a si, à dor, o próprio Deus chorasse...

Sem ter quem visse, ao lampejar fugace
Do raio onde o coveiro hirto, praguento,
Nessa vala-comum do esquecimento
Meu inútil cadáver atirasse...

Si, como a dele, em prantos, no outro dia
Uma mulher me fosse levar flores,
Ninguém o meu lugar lhe indicaria!...

Morrer como ele, inteiramente ao mundo!
- Mas, por ter perpetuado as minhas dores,
Surgir na glória, como um Sol fecundo!...”

“Fúnebre lamento”; “Sol fecundo”; “lampejar fugace”. É demais. Tudo bem rimadinho. E o autor é Mário de Andrade. Foi Lutero Rodrigues, em seu livro recente sobre Carlos Gomes, que “exumou” esta idiotice do grande Mário de Andrade publicada em junho de 1921. Lutero inclusive estranha que Mário tenha publicado, menos de dois meses depois, em agosto, a famosa série “Mestres do Passado” criticando furiosamente... os poetas parnasianos.

Querem saber? Jogo-me na vala comum dos maus escribas, porém na companhia honorável de Bilac e Mário. Ou devo me sentir absolvido de todas as cretinices que escrevi nesses anos todos? E os poucos acessos de inteligência que de vez em quando me acometem sem que eu perceba, agradeço-os em nome de São Millôr e São Ivan Lessa. Amém!





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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