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A resistência da música nova nos anos de chumbo (31/7/2008)
Por João Marcos Coelho

A história da resistência às ditaduras latino-americanas entre as décadas de 60 e 80 costuma ser contada como um dos momentos mais heróicos das músicas populares em vários países do continente. Esquece-se, porém, que também a música contemporânea lutou bravamente nesta trincheira. Uma história praticamente desconhecida, que só agora começa a ser melhor conhecida, graças à excelente tese "A Utopia no Horizonte da Música Nova", defendida há dois anos na Universidade de São Paulo por Teresinha Prada. Este é, com certeza, um estudo que exige publicação urgente em livro.

"Há muitos textos sobre a atuação da música", diz ela, "via canção de protesto, frente às ditaduras militares na década de 70 no Brasil e na América Latina, mas esquece-se de que a música erudita também enfrentou problemas sérios e apresentou um tipo de resistência ao establishment. Houve significativo relacionamento e trânsito de músicos eruditos, irmanados numa mesma luta, estética e política, no Festival Música Nova de Santos e nos Cursos Latino-americanos de Música Contemporânea".

O Festival teve sua primeira edição em 1962. Interrompeu-se de 65 a 67 por causa do golpe, e retornou em 68, mantendo-se até hoje (em setembro, teremos, em São Paulo e Santos, a 43ª edição). Gilberto Mendes reconhece que "o aperto da repressão de 68 motivou a guinada mais à esquerda, primeiro por nossas próprias convicções políticas de esquerda, e logo depois pela ligação com o Curso Latino-americano". Este sim, teve inspiração direta nos conturbados e importantíssimos acontecimentos de maio de 68 em todo o mundo.

Teresinha mostra como o Festival, a partir do surgimento dos Cursos, em 1971, forma uma linha de frente onde a estética de vanguarda – até então o critério básico – é substituída pela exigência ideológica: "A partir de certo momento, a programação não seria mais feita por uma opção estética, mas também como alternativa ideológica".

Amor & Revolução

O compositor italiano Luigi Nono (1924-1990) foi o primeiro a vir para os Cursos Latino-americanos, em Piriápolis, em 1971. Como Cohn-Bendit, Nono seguiu à risca, em sua estada no Uruguai, os famosos versos pichados na Sorbonne em maio de 68: "Quanto mais faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução/quando mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor." A ponto de, segundo Gilberto Mendes, ter sido "chamado às falas para o assunto principal, a música. Afinal, ele vivia correndo atrás das belas e jovens instrumentistas, compositoras e participantes do curso."

Entre aventuras amorosas casuais e discussões políticas, Nono encontrou tempo para escrever um artigo de quatro páginas sobre o evento (disponível no livro "Ecrits Complets", Ed. Contrechamps, Paris, 2008). Ele elogia o que chama de "discussões antiacadêmicas e antiautoritárias" e denuncia os cursos de música europeus, "que têm caráter acadêmico e autoritário, e baseiam-se na ‘personalidade’ individual e unilateral de músicos, e cujo pior exemplo são os cursos de verão de Darmstadt, que se limitam a impor sua própria visão estético-técnica, segundo o ‘mito da tecnificação como progresso’, o que corresponde à posição da música oficial e governamental, européia e norte-americana, verdadeiro instrumento cultural que dá sustentação à dominação capitalista e imperialista atual".

Nono considera "populismo turístico tentar repetir hoje as experiências de Villa-Lobos ou Chávez" e aponta Bartok como modelo a ser seguido: "Ele pratica uma linguagem musical contemporânea que penetra na essência da estrutura interna da linguagem musical popular e não se limita a citações como Stravinsky." Lista o dever de casa de todo músico latino-americano: "Necessidade de analisar, ultrapassar e romper a dominação cultural européia e norte-americana; instituir uma prática criativa própria e original; destruir a superestrutura cultural imposta há séculos pela dominação estrangeira; reconhecer a matriz autóctone e reconhecer-se a si mesmo nela, em sua própria origem; romper a hegemonia eurocentrista; inventar novas técnicas, novos instrumentos expressivos, novos meios de comunicação e novas formas que correspondam às exigências do momento de luta atual na América Latina."

Uma cartilha mais do que nunca válida ainda hoje.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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