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Charles Rosen se foi (16/12/2012)
Por João Marcos Coelho

Jamais acreditei no papo de que o mundo acaba no próximo dia 21. Mas confesso que estou ficando meio preocupado com a sequência de mortos dos últimos dias. Primeiro, Hans Werner Henze; em seguida, Elliot Carter; e agora o pianista e pensador da música Charles Rosen.

A música perde demais com a saída de cena deste trio notável de artistas que pensaram, privilegiaram, viveram intensamente a música do seu tempo. De Henze e Carter já se falou bastante. Por isso, fico com Rosen por hoje.

Em “Música e Sentimento”, lançado em 2011 e agora traduzido para o espanhol em edição da Alianza, ele começa citando o que mais se ouve nas salas de concerto e mesmo nas conversas em geral ao pé do sofá ou ao redor da mesa: “Gosto, mas não entendo”. Esta é uma resposta recorrente quando pergunto a alguém se curte música clássica. O sujeito ergue de imediato uma muralha preconceituosa que, no entanto, não foi criada nem é cultivada por ele. O gueto da música clássica perversamente isola qualquer recém-chegado à sala de concertos, ergue uma hostil floresta de rituais esotéricos e palavras estrangeiras indigestas. E reforça a impressão de que “explicadores” e muita leitura/pesquisa/cursos são necessários para se “entender um pouquinho que seja” a chamada “grande música de concerto”.


Charles Rosen [foto: divulgação]

O pianista norte-americano Charles Rosen já estreou mundialmente obras de Igor Stravinsky, Elliott Carter e Pierre Boulez a pedido dos próprios compositores. Escreveu de 1970 para cá muitos livros, mas ao menos três seminais para a compreensão da música: “O Estilo Clássico”, “Formas-Sonata” e “A Geração Romântica” (este último lançado no Brasil pela Edusp num volume de 950 páginas acompanhado por um CD). E tem uma opinião firme sobre a questão. A tal ponto que escreveu o livro “Music and Sentiment” em 2011 só para enterrar esta verdadeira propaganda enganosa que cerca a música clássica. “Entender a música não é resultado da memorização de um código esotérico. Vários aspectos da música, é claro, beneficiam-se de um longo estudo, mas capturar o seu significado emocional ou dramático ou é imediato, ou requer apenas que a gente se familiarize com ela. Entender a música no sentido mais básico significa simplesmente gostar dela quando você a ouve. É verdade que a música não-familiar e que parece estranha na primeira audição precisa ser ouvida algumas vezes e de fato requer certa dose de boa vontade para arriscar-se em novas sensações”.

Em enxutas e densas 140 páginas, Rosen extermina o preconceito e nos convida para uma maravilhosa viagem pela música entre os séculos 18 e 20. “É raro que seja necessário um conhecimento especializado para a fruição espontânea, que é a razão da existência da música”. Junto o prefácio à conclusão, onde ele cita o poeta italiano Giacomo Leopardi afirmando, nos anos 1820, que “o princípio da música e de seus efeitos não pertence à teoria do belo, mas é assunto de cheiros, gostos e cores, e assim por diante... por isso não surpreende que selvagens e até animais tenham tanto prazer quando ouvem música”. Esta identificação da arte da música com a arte de cozinhar e a alquimia dos perfumes, diz Rosen, “implica que a música atende aos mais básicos e menos intelectuais instintos humanos”.

Outro livro, disponível em português, “Poetas românticos, críticos e outros loucos”, lançado pela Ateliê Editorial em 2004, traz uma de suas resenhas mais interessantes para nós, críticos musicais. Ele analisava, em 1981, para a “The New York Review of Books”, a edição de “Shaw’s Music: the complete music criticism” em três volumes, extensa coletânea da crítica musical do autor de “Pigmaleão”. Rosen deplora a ausência de um artigo longo que considera “a página talvez mais brilhante que escreveu sobre música” (por feliz coincidência, o artigo está disponível em português, com o título “Uma Visão Degenerada de Nordau” na coletânea “O Teatro das Ideias – prosa crítica de Bernard Shaw”, seleção de Daniel Piza, Companhia das Letras, 1996). De qualquer maneira, inclui o ensaio ausente na edição em inglês para desossar os pressupostos da crítica de Shaw com imensa propriedade no ensaio “O crítico jornalista, um herói”. De cara, reconhece que Shaw foi “talvez o maior de todos os críticos de música (...) só E.T.A. Hoffmann e Berlioz chegam perto dele, e Berlioz não escrevia tão bem”. Fazer justiça não é o objetivo do crítico – esta foi a profissão de fé várias vezes repetida por Shaw. “Não há fingimento mais desonesto e intolerável na crítica do que esse ar impessoal, abstrato, oficialmente judicativo”, escreveu Shaw. Ele apostou nos cavalos certos 90% das vezes, mas ter razão não importa muito em crítica de música: qualquer um pode ter razão. “O que conta é a base do julgamento. Sem dúvida”, alerta Rosen, “se as ideias que entram na feitura de uma avaliação, o ponto de vista que a ilumina e o raciocínio que a justifica são persuasivos e intensos, a crítica permanece válida mesmo quando o julgamento final é rejeitado”. Tanto que qualifica como “uma nódoa em seu currículo” o fato de Shaw não ter encontrado nada de interessante na música de câmara e nas sinfonias de Schubert – em todo caso, nódoa bem maior do que os esculachos em cima de Brahms (afinal, este era o grande inimigo em sua cruzada pelo wagnerismo). A violência dos ataques a Brahms “é um reconhecimento tácito da estatura do compositor”.

A justeza da apreciação, diz ele, “não causa dano e é, sem dúvida, até uma boa coisa, mas tem menos importância do que se poderia imaginar. Um crítico com um ouvido de lata mas com um detalhado conhecimento da reputação e do status dos executantes é mais informativo e menos desorientador do que um crítico que pode ouvir e relatar corretamente o que houve mas nada sabe sobre o executante e o compositor ou sobre a importância do evento”.

Rosen é o crítico que ele mesmo acaba de descrever. E com a vantagem de possuir não só um ouvido de ouro como ser ótimo pianista. Pena que o livro não traga um CD a tiracolo. Não faria nenhum sentido prático, mas provaria essa tese a quem vai conhecê-lo nestes “Poetas Românticos, Críticos e Outros Loucos”. Aos que se interessarem, há vários outros livros dele, cada um mais inteligente e interessante que o outro: “Piano Notes – the world of the Pianist” (Free Press, 2002) e “Beethoven’s Piano Sonatas – a short companion” (Yale University Press, 2002), na verdade, notas do curso sobre as 32 sonatas no Festival de Pontina, na Itália (acompanha CD com exemplos musicais). Outros indispensáveis: “The Frontiers of Meaning”, três palestras feitas em Nova York em 1993 e “Plaisir de Jouer, Plaisir de Penser”, entrevistas com Catherine Temerson (Eshel, Paris, 1993).

Desculpem o texto longo demais. Mas eu precisava tentar seduzir vocês com a inteligência, talento e genialidade de Charles Rosen. Suas gravações e seus livros/artigos jamais poderão ser esquecidos. São clássicos aos quais todas as gerações futuras voltarão sempre. Descanse em paz, querido Charles Rosen. Sentiremos muito sua falta.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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