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Paz, amor, música e literatura (26/2/2013)
Por João Marcos Coelho

Fui contaminado pela fase “Johnnynho paz e amor” do novo capo do Teatro Municipal de São Paulo e decidi fazer agora, de público, minha declaração de amor... às paixões cruzadas entre música e literatura. Como uma canção, uma sonata ou um compositor, nós, os fanáticos por música, também temos nossos escritores preferidos, aqueles que fizeram e fazem da música alimento preferencial de sua criação literária. O checo Milan Kundera, por exemplo, é um apaixonado pela música de Leos Janacek e Iannis Xenakis, temas de seu último livro “Encontro”, originalmente lançado em 2010 na Europa e que chega este mês às livrarias brasileiras em edição da Companhia das Letras. Ou então o cubano-francês Alejo Carpentier, grande amigo de Villa-Lobos, crítico musical excepcional e produtor de discos clássicos nas décadas de 30 e 40. Experimente “Concerto Barroco” e “Sagração da Primavera” – são sensacionais.

Há muitos outros, mas um me toca especialmente. Roberto Cotroneo, nascido em Alexandria, de pais calabreses, 52 anos. Jornalista da revista semanal italiana Espresso por 28 anos, entre 1985 e 2003, estreou no romance com “Presto con fuoco”, um retrato de corpo inteiro do mítico pianista italiano Arturo Benedetti Michelangeli, professor de Martha Argerich, às voltas com as variações sobre a quarta balada de Chopin, editado aqui pela Record. Em 2004, a Rocco lançou aqui o delicioso “Carta a meu filho sobre o amor aos livros” onde a música tem lugar de honra. E, no ano seguinte, a mesma editora lançou no Brasil “Por um longo instante, esqueci o meu nome”, onde Beethoven e o xadrez terçam lanças para ocupar o centro da narrativa. Afinal, que pode haver de melhor do que tocar Beethoven? Esta é a pergunta que frequenta, sorrateira e determinante, cada uma das 294 páginas do romance. Cotroneo estudou música e foi um dos jornalistas mais destacados na cena italiana, ao lado, aliás, de Alessandro Baricco, outro escritor que está entre as minhas preferências, também com sólida formação musical. E é curioso que ambos, além de jornalistas, tenham a música como núcleo central de sua ficção.


Roberto Cotroneo [foto: divulgação]

“Por um longo instante” me marcou particularmente. Nele, Cotroneo fixa-se na Grande Fuga de Beethoven. Inicialmente concebida pelo compositor como último movimento do quarteto opus 130, foi rechaçada pelos contemporâneos (“difícil demais”). Mas Beethoven recusou-se a mexer nela; em vez disso, compôs um outro final mais palatável para o opus 130 e deixou-a como peça isolada. Chamou-a de “Grande Fuga, ora livre, ora rebuscada”. Nela, dois temas de perfil quase idêntico esgrimem durante 741 compassos e terminam empatados – uma surpresa formal que Cotroneo aproveita para tecer uma enorme fábula. Ele entrelaça o destino de Luiz, violinista, e seus parceiros de quarteto, às voltas com a Grande Fuga. Luiz trocou Tempestad, cidade imaginária onde todos jogam xadrez e tocam violino, e foi para Milão concluir os estudos. Lá conhece Chiara, que lhe oferece um lugar num quarteto de cordas. Os quatro fazem então uma fascinante autoanálise a partir do árduo trabalho de decifrar e penetrar no âmago desta obra-prima.

As alegorias percorrem todo o livro, numa espécie de realismo mágico à italiana. A maior delas fica com o xadrez, ao que tudo indica a outra paixão de Cotroneo (ele chega a minúcias de lances de grandes partidas e anota que o mestre russo Taimanov também era pianista). O curioso é que, como os dois temas da Grande Fuga, as partidas naquela cidade imaginária terminam sempre empatadas. “O mais antigo jogo de simulação de guerra tornava-se um jogo de equilíbrio, num mundo que desde o primeiro momento me parecia fundado em contínuo desequilíbrio e em contínuas contradições (...) Aquele modo de jogar xadrez que eu via em Tempestad liberava o rei do medo e do poder, porque ninguém procurava molesta-lo, ninguém o ameaçava, mas todos tentavam obter uma harmonia impossível”.

A palavra harmonia não surge aqui ao acaso. Vejam este trecho revelador: “Em Tempestad as partidas não eram ganhas nem perdidas: empatavam porque a partida perfeita, aquela que não tem erros de nenhuma das partes, termina empatada (...) Não se vence sacrificando uma rainha. Do mesmo modo que não se compõe a maior obra musical do século 19, e provavelmente de toda a história da música, sendo completamente surdo (...) Penso naquele Beethoven, penso nele, resignado ao mundo. Penso no seu infortúnio, o de não poder ouvir a música que escrevia, sabendo perfeitamente que compunha a melhor música do mundo”.


Capas de livros de Roberto Cotroneo [foto: divulgação]

Pena que Cotroneo insista demais nas analogias entre xadrez, mundo, música e navio. É bonito ler que “a Grande Fuga é energia, uma dissonância contínua, uma explosão de dissonâncias; eu compreendera isso como nunca antes. Energia que levava a destruir, mas que era o exemplo mais forte das contradições que nascem de todas as coisas”. Mas subestimam um pouco a inteligência do leitor frases como “o navio é como um tabuleiro de xadrez”, “esta vida nada mais é do que uma partida de xadrez que ninguém pode vencer” ou “vendemos a eternidade em forma de palavras”. Além disso, é excessiva – mais do que recomendável – a semelhança da longa digressão sobre o navio Scirocco onde o violinista passa meses tocando num grupo de música ligeira com outro romance italiano famoso de Alessandro Baricco, “Novecento”, que virou o filme “O Pianista do Mar” de Giuseppe Tornatore. Num como outro, o navio é metáfora do mundo, com todas as deduções, ilações e delírios a que se tem direito. Só que Baricco já fez isso muitos anos atrás.

Mas Cotroneo não se reduz a este deslize. O livro é apaixonante em primeiro lugar porque ele é de fato um grande escritor. E também pela adequação de tudo que se diz sobre música (e sobre xadrez também). “Os músicos têm o mesmo poder que têm os espelhos. Refletem tudo dos outros. Espelham os sentimentos das pessoas. A música não é nada sem isso, meu rapaz. A música não existe se não lhe passa através do corpo, se não lhe recorda aquilo que você foi e aquilo que será”. Mesmo que, como no caso da Grande Fuga, ela tenha demorado um século para ser corretamente entendida.

É uma pena que os editores brasileiros tenham parado de lançar os livros de Cotroneo no Brasil. Bem que poderiam quebrar este perverso jejum lançando por aqui a obra-prima “Carta a meu filho sobre o amor à música”. O título inteiro do livro em italiano é “Chiedimi chi erano i Beatles – Lettera a mio figlio sull’amore per la musica”, e foi lançado em 2005 pela Mondadori. Já em “Carta a meu filho [Francesco] sobre o amor pelos livros”, lançado pela Rocco em 2004, a música ocupava lugar de destaque no  capítulo “Talento”, sobre Glenn Gould. Agora, é ao outro filho, Andrea, que ele compôs uma emocionada declaração de amor à música em “Chiedimi chi erano i Beatles”. São 119 preciosas páginas onde desfilam Mozart, Beethoven, Chopin e Brahms, mas também Lennon, Nino Rota e Keith Jarrett.

Cotroneo lançou, em 2009, “Adagio infinito e altri racconti sospesi”, pela Aliberti, e em 2011 “E nemmeno un rimpianto. Il sgreto di Chet Baker”, pela Mondadori, um tributo emocionado ao trompetista de jazz Chet Baker que influenciou decisivamente toda a família sagrada da bossa nova e do tropicalismo, Caetano Veloso incluído.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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