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O pontapé de Mozart e a embaixadinha de Mário (28/2/2013)
Por Camila Frésca

Nos dois últimos anos de vida, Mário de Andrade assinou a coluna semanal O mundo musical no jornal Folha da Manhã. Nesses escritos – reunidos e comentados no livro Música final, do professor Jorge Coli (Editora da Unicamp, 1998) – se pode acompanhar o pensamento mais maduro e refinado do escritor e musicólogo. São reflexões curtas, nas quais os pensamentos e convicções de Mário são apresentados de forma sucinta e muitas vezes surpreendente.

Em “O pontapé de Mozart”, por exemplo, Mário inicia falando do passo fundamental que Mozart deu para a mudança da situação social do músico. Ao ser despedido pelo arcebispo Coloredo, de Salzburg (demissão que, reza a lenda, teria sido acompanhada de um chute no traseiro), Mozart recebia um pontapé mas, ao mesmo tempo, dava outro. “Era realmente a primeira vez que um músico-funcionário se demitia dum serviço para ir viver de quê! De arte? De arte já viva ele, bem ou mal. O importante pra Mozart era viver sem servir”. Dessa forma, Mozart teria contribuído com o “primeiro gesto da individualização definitiva do músico”. Mário segue com reflexões interessantes em sua linguagem bastante particular: É curioso observar que realmente parece que Mozart carecia dessa liberdade de não servir a ninguém, para criar dentro de um certo gênero de música, a ópera. Na arte pura das sinfonias, dos quartetos, das sonatas, em plena servidão escrava, ele já criara obras-primas genialíssimas. Fora uma vaca-de-leite, produzindo música até diária, pra gozo de um Coloredo e seus convivas coloridos. (...) Porém Mozart parece mesmo que precisava não servir a ninguém pra atingir sua genialidade na expressão psicológica individualista dos heróis teatrais. Até então o máximo que ele alcançara fora o Idomeneo, insustentável, embora cheio de invenções fecundas e passos geniais. Mas agora, nesse mesmo 1781, logo depois da troca de pontapés, Mozart “escolhe” um libreto só por sua vontade, escolhe um libreto esdrúxulo, e cria uma obra-prima imortal, o Rapto no serralho.


Wolfgang A. Mozart e Mário de Andrade [imagens: divulgação]

A leitura é empolgante e parece que Mário vai continuar a narrar os benefícios que tal “pontapé” gerou. Mas aí vem a surpresa, pois o que ele faz é tratar das “consequências funestas” do pontapé que Mozart deu: Eu vejo esses artistas vaca-de-leite dantes, na obrigação de compor música pra servir e não pra publicar. Ficava tudo em manuscrito, enchendo prateleiras de pó. Precisávamos de um papel pra embrulhar um pão, um chinelo? Este papel de música serve. E lá se ia um alegro de sinfonia, uma obra-prima. As vezes não dava tempo pra compor tanta música diária. É o próprio Mozart que o prova. Ele ia na prateleira e recopiava com acertadas correções um rondó velho pra finalizar a sonata nova. E hoje possuímos duas sonatas terminando com o mesmo rondó. (...) O pontapé de Mozart não teria me atirado numa superstição? Eu não posso, eu não devo, eu não tenho o direito de criar uma sinonímia entre ser gênio e fazer arte. Dizer arte é nosso ofício cotidiano porque a arte tem de servir, é necessária à vida como o pão. E ser gênio é... pros outros. E a consequência monstruosa do pontapé de Mozart foi esta, ninguém faz arte mais pra servir, mas pra ser gênio e ser sublime. (...) Depois do pontapé de Mozart, a técnica da música deixou de ter importância, substituída pela técnica do gênio. E hoje os artistas são todos uns habilíssimos técnicos da genialidade, mas a técnica da arte se desvalorizou substituída pela palavra formidolosa: mensagem. Antes do pontapé de Mozart as vacas-de-leite diárias realizavam da mesma forma suas sublimes mensagens, deformavam a missa como Bach ou a madona como Rafael. Haydn chorava porque, como o Jogral de Maria, adorava a seu jeito o seu Deus e o censuravam pelo jeito. E as mensagens aí ficaram sublimes, porque não havia tempo para matutar mensagens, o tempo só dava pra obedecer tecnicamente ao material. E a obra-de-arte aí ficava, musculosa, sadia, defraudando religiões, dando pontapés em reis, mudando o tempo e os homens, porque as mensagens escapavam sempre dos dedos fáceis do operário.

Além de surpreendentes, reflexões tão atuais. Qual a importância do domínio meticuloso da técnica da música num mundo em que ela é maciçamente consumida via meios de reprodução e no qual esses meios se tornam cada vez mais eficazes em simular a experiência ‘real’? Ou num pós-modernismo que se agarra cada vez mais em colagens e referências ao passado? Onde a “mensagem” que se quer transmitir é mais importante do que a elaboração e até o discurso do meio (plástico, sonoro etc.)? Ou ainda, num mundo em que a genialidade – para os mais modestos, basta a “celebridade” – é um fim a ser buscado a qualquer custo?


Wolfgang A. Mozart e Mário de Andrade [imagens: divulgação]

Isso pode, para alguns, parecer um discurso bastante conservador – e quem sabe se não o será? Mas não consigo deixar de esboçar um sorriso com o final da pequena joia que é este texto de Mário de Andrade: Eu não faço como o pai Leopoldo não. Eu não peço a Mozart que volte a Salzburg e vá se escravizar ao Coloredo outra vez, isso é impossível. Mas já é tempo do artista preferir o Mozart cotidiano que serviu, ao Mozart que fez da vida um domingo, bancando estátua prematura do cume do Jaraguá.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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