Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Sexta-Feira, 20 de Abril de 2018.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 

 
 
 
A música clássica, quem diria?, embala até romances pornôs (12/3/2013)
Por João Marcos Coelho

Não duvidem do poder da música clássica. De uns tempos para cá, a mais recente prova desta qualidade da música de Bach a Shostakovich, de Monteverdi a Philip Glass, vem sendo exposta num gênero surpreendente: o da pornografia elegante, emoldurada com toques sofisticados, para soar como ‘erotismo chic’ (assim mesmo, com ‘c’).

O primeiro sintoma explodiu num dos maiores êxitos editoriais da primeira década do século 21, “Cinquenta tons de cinza”, de  E. L. James, que vendeu mais de 31 milhões de exemplares no mundo inteiro, e uns 300.000 no Brasil. A escritora britânica não apenas usou música clássica convencional, como inovou corajosamente na confecção de suas trilhas sonoras para os acalorados embates sexuais entre Anastasia Steele e Christian Grey. Sabem o que embalou as quentes noitadas? Simplesmente um compositor inglês do século 16 que se dedicou basicamente à música religiosa. Thomas Tallis viveu entre 1505 e 1585. Sua especialidade são os motetos polifônicos. Nada combina menos com sadomasoquismo do que as muitas vozes de seus corais sacros. Klaus Heymann, o capo da Naxos, gravadora que hoje domina quase metade do mercado planetário de música clássica gravada (em CDs físicos, streaming ou download), nunca vendeu tanto Spem in alium quanto nos últimos meses. A expressão em latim quer dizer esperança no outro, o que de certo modo bate com o espírito de “50 tons de cinza”; mas o texto é calcado na Bíblia e cantado por oito vozes em latim. Ou seja, ninguém entende nada – e por isso mesmo, quem sabe, ouve-se naqueles sons somente o que se deseja ouvir. Tá certo que de repente trechos do Tristão e Isolda, entre tantas outras opões, poderiam funcionar melhor, no espírito da “trama”.

Mas vá lá, tudo bem, Thomas Tallis teve o seu público multiplicado por milhões de repente, num passe de mágica. Mas, você e eu sabemos, tudo que se imita acaba sendo uma pálida e medíocre cópia do original.

Não que “50 tons de cinza” valha alguma coisa – merece o cesto de lixo, óbvio. Mas a sua mais recente clonagem acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Record. Trata-se de “80 dias – a cor da luxúria”, de Vina Jackson. Na contracapa, a provocação para tentar seduzir leitoras de “50 tons”: “O desejo tem mais tons que apenas o cinza...”

Vina parece ter se encantado com o uso da música clássica por E. L. James. E vai fundo nesta direção. Sua personagem principal é Summer Zahova, que se muda para Londres perseguindo o sonho de se tornar uma grande violinista clássica.

Entre uma e outra batalha na cama com o parceiro, ela dedica-se à música. Só que Vina é, digamos, pouco apetrechada para lidar com a música clássica. Escolheu a mais óbvia das trilhas, As quatro estações, de Antonio Vivaldi. E, claro, o nome da personagem, summer, é retirado de um dos quatro concertos do prete rosso.

Por que perder tempo com uma porcaria dessas? Simples: fuja desse tipo de literatura barata que usa a música clássica como quem acrescenta uma cebola ou pimenta malagueta numa receita culinária.  Música e literatura têm, sim, amplos e maravilhosos pontos de contato. Quer mergulhar nisso?  Comece com “Contraponto”, de Aldous Huxley; continue com “O náufrago”, de Thomas Bernhard; depois volte para o século 19 e se encante com os contos satírico-musicais de E. T. A. Hoffmann, um dublê de crítico musical (foi o primeiro a recensear as sinfonias de Beethoven, por exemplo, na Viena do início do século 19) e novelista de primeira. Você não vai se arrepender.


Clássicos Editorial Ltda. © 2013 - Todos os direitos reservados.
A reprodução deste conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para esta página.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

Oito olhos azuis e muita música Por Jorge Coli (19/4/2018)
‘Missa’ de Bernstein é destaque no Theatro Municipal de São Paulo Por Nelson Rubens Kunze (10/4/2018)
“O Corego” e os primórdios da representação operística Por Camila Frésca (6/4/2018)
Natalie Dessay: uma expressão que transcende as palavras Por Irineu Franco Perpetuo (5/4/2018)
Os Músicos de Capella fazem primorosa ‘Paixão’ de Bach Por Nelson Rubens Kunze (29/3/2018)
A música não mente Por João Marcos Coelho (27/3/2018)
Enfim, uma sede para a Ospa! Por Nelson Rubens Kunze (26/3/2018)
A Osesp, Villa-Lobos e o “voo de galinha” Por João Marcos Coelho (23/3/2018)
Jan Lisiecki: para uma temporada de austeridade, um pianista nada austero Por Irineu Franco Perpetuo (14/3/2018)
“Lo Schiavo” em Campinas: encantamento e melancolia Por Jorge Coli (12/3/2018)
Villa-Lobos, a Semana de Arte Moderna e o Brasil Por Camila Frésca (8/3/2018)
“Sexta” de Mahler coroa trabalho artístico do Instituto Baccarelli Por Nelson Rubens Kunze (5/3/2018)
Hvorostovsky e um “Rigoletto” excepcional Por Jorge Coli (26/2/2018)
10 anos de Filarmônica de Minas Gerais: muito a comemorar Por Nelson Rubens Kunze (26/2/2018)
Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 2 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 1 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Relativizações, realidades e transformações: um olhar sobre “A flauta mágica” do Theatro Municipal Por João Luiz Sampaio (23/12/2017)
A produção é boa, mas faltou mágica na “Flauta” do Municipal Por Nelson Rubens Kunze (23/12/2017)
O prazer de ouvir Neymar Dias – muito bachiano e muito brasileiro Por Irineu Franco Perpetuo (20/12/2017)
Uma temporada inclusiva, feita com inteligência Por João Marcos Coelho (19/12/2017)
Uma grande e despretensiosa sátira Por João Luiz Sampaio (8/12/2017)
A goleada da Argentina (e nem precisaram do Messi) Por Nelson Rubens Kunze (8/12/2017)
Museu virtual reúne milhares de instrumentos de coleções britânicas Por Camila Frésca (4/12/2017)
Karnal, a Osesp e o governador Por Nelson Rubens Kunze (24/11/2017)
Quem não trafega nas redes sociais se trumbica Por João Marcos Coelho (24/11/2017)
Budu e Hilsdorf: nasce um duo Por Irineu Franco Perpetuo (14/11/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Abril 2018 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30 1 2 3 4 5
 

 
São Paulo:

21/4/2018 - Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo

Rio de Janeiro:
29/4/2018 - Orquestra Petrobras Sinfônica

Outras Cidades:
24/4/2018 - Brasília, DF - Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2018 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046