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Violinos para milionários (1/4/2013)
Por Camila Frésca

Deu na última edição da revista britânica especializada em cordas The Strad: o violino Guarneri del Gesù “Vieuxtemps” tornou-se o instrumento musical mais caro do mundo ao ser vendido, no final de 2012, por uma soma superior ao Stradivarius “Lady Blunt”, que, em 2011, atingiu o valor de 15,9 milhões de dólares.

Guarneri del Gesù foi, tal como Antonio Stradivari, um célebre luthier de Cremona que construiu alguns dos instrumentos de cordas hoje considerados o ápice da toda a história da luteria. O instrumento em questão, de 1741, foi um dos últimos construídos por del Gesù, que morreu em 1744. Leva o nome de um de seus mais célebres donos, o violinista belga Henri Vieuxtemps (1820-1881) – um dos maiores virtuoses de sua época. O Guarneri “Vieuxtemps” passou por várias mãos até ser adquirido por Ian Stoutzer, banqueiro britânico aposentado, em meados da década de 1960. Em 2010, ele já havia colocado o instrumento a venda por US$ 18 milhões. Dessa vez, em que a transação foi finalmente concluída, o valor não foi divulgado. Tudo o que se sabe é que um comprador anônimo o arrematou por uma soma “expressivamente” mais alta que o “Lady Blunt”.


Anne Akiko Meyers [foto: divulgação]

Além de Henri Vieuxtemps, esse Guarneri del Gesù já foi tocado por gigantes como Eugène Ysaÿe, Yehudi Menuhin e Itzhak Perlman. O comprador anônimo deu à violinista norte-americana Anne Akiko Meyers uso exclusivo do instrumento até o final de sua carreira. Esse tipo de atitude é razoavelmente corriqueira: uma vez que estes instrumentos são cada vez mais tratados como obras de arte e têm seu preço valorizado no mercado, deixam de ser comprados por músicos para serem adquiridos por investidores, bancos ou fundações. Estes, por sua vez, emprestam os instrumentos a um artista por um determinado tempo. “Tive muitos violinos emprestados, e é como perder uma parte de sua alma quando você tem que devolver o instrumento”, afirmou Anne Akiko Meyers, revelando uma preocupação comum aos solistas que usam instrumentos emprestados. Esse mesmo temor, por exemplo, também acomete o jovem violinista norte-americano Giora Schmidt, que usa um violino Giovanni Battista Guadagnini de 1753 que foi emprestado a ele. “Possuir um é quase impossível, mesmo fazendo uma carreira de muito sucesso como concertista”, afirma. E completa: “cada vez que o telefone toca temo que seja o proprietário pedindo o violino de volta”.

“Por esse motivo negociei um acordo com o comprador que me dá paz de espírito em saber que este será meu instrumento de concerto até o final da minha carreira”, explica Anne Akiko Meyers sobre as condições em que passa a usar seu “Vieuxtemps”. Ela ressalta as qualidades desse cobiçado instrumento, considerado por muitos o violino mais perfeito já construído: “O que é realmente extraordinário nesse violino é que ele não tem sequer uma rachadura, como qualquer instrumento dessa idade teria. É como se ele tivesse sido feito ontem! Está perfeitamente preservado, e é esta saúde que lhe dá qualidades tonais de outro mundo. Ele tem um som profundo e rico, mais colorido que qualquer outro violino que eu já tenha ouvido.”

Além de curiosa, esta é uma história cada vez mais corriqueira no mundo dos instrumentos de corda. Eles deixam de ser exatamente aquilo que seu nome significa: um “instrumento” para realização da música, tornando-se um objeto de culto e de valor próprio no mercado; portanto, longe do alcance dos pobres músicos, mesmo sendo estes os únicos capazes de realizar aquilo à que o instrumento foi destinado.

Mas antes de acabar a história vale acrescentar duas informações ainda mais curiosas:

1. Anne Akiko Meyers é uma exceção nesse universo, pois além do Guarneri Vieuxtemps, do qual poderá desfrutar pelo resto da vida, ela é a feliz possuidora de dois violinos Stradivarius! Anne agora diz que está considerando a venda de pelo menos um deles;

2. Apesar de todo esse culto e disputa pelos instrumentos antigos – especialmente os da escola de Cremona do século XVIII – cada vez que se faz um teste cego, com especialistas avaliando as mesmas qualidades em instrumentos modernos e antigos, os modernos costumam ganhar com larga folga. Mas isso já é assunto para um outro texto...

[Clique aqui para assistir ao vídeo com Anne Akiko Meyers falando sobre o Guarneri “Vieuxtemps” e trechos de sua estreia com ele, tocando o Concerto para violino de Samuel Barber no Carnegie Hall em dezembro de 2012]





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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