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Modernos e antigos: quais são os melhores? (7/5/2013)
Por Camila Frésca

No último artigo, tratei da recente venda milionária de um violino Stradivarius e de como esses instrumentos têm se tornado peças para investidores, dado seu valor cada vez mais fora da realidade dos músicos. No final, comentei que, curiosamente (ou ironicamente), cada vez que se faz um teste cego, com especialistas avaliando as mesmas qualidades em instrumentos modernos e antigos, os modernos costumam ganhar.

Os instrumentos sem dúvida maravilhosos dos construtores antigos de Cremona, como Guarneri, Amati e Stradivarius, nunca deixaram de ser cobiçados. Porém, ao longo do século XX, com o estabelecimento do chamado “movimento da música antiga” – inicialmente procurando reproduzir a música da renascença e do barroco com a máxima fidelidade – passou a haver uma verdadeira corrida para se adquirir um deles. Hoje, poucos dentre os principais instrumentistas de corda (sejam eles dedicados ou não à prática da música antiga) se apresentam com instrumentos feitos por luthiers contemporâneos. A maioria opta por instrumentos antigos, feitos a partir do século XVII, que ainda hoje possuiriam qualidade superior devido a fatores como o verniz e a madeira utilizados, além é claro da destreza de seus artífices.


Pintura que supostamente retrata Antonio Stradivari em seu ateliê em Cremona [imagem: divulgação]

Essa obsessão pelos instrumentos antigos, no entanto, despertou o interesse de colecionadores e especuladores, fazendo com que eles passassem a valer verdadeiras fortunas. Além disso, estimulou a falsificação de instrumentos. Segundo a pesquisadora Marena Salles, alguns falsificadores se utilizavam da técnica de fazer dois instrumentos a partir de um autenticamente antigo, dividindo as peças: um possuía apenas o tampo antigo e o outro apenas o fundo, por exemplo. Ela ainda conta que, em 1937, uma exposição na Europa reuniu nada menos do que 2 mil instrumentos Stradivarius aparentemente autênticos. Contudo, a análise de peritos chegou à onclusão de que apenas quarenta, ou seja dois por cento, eram autênticas peças do mestre de Cremona. É claro que as discussões e polêmicas não têm fim, já que ninguém aceita admitir que possui um falso Stradivarius.

Estudo polêmico

De tempos em tempos, temos notícias de testes cegos de instrumentos que trazem resultados surpreendentes. Em setembro de 2010, durante o Concurso de Violino de Indianapolis, violinistas profissionais foram submetidos a um teste no qual, vendados, tocavam 10 pares de violinos e davam suas opiniões sobre características como projeção, gama de cores (ou seja, riqueza do som) e resposta sonora. Deveriam também dizer se o instrumento que tocavam era moderno ou antigo. Ao final, escolhiam qual dos violinos “levariam para casa” se pudessem. Além de não saber que violinos estavam tocando, os músicos também eram confundidos com um perfume passado nos instrumentos, para que não pudessem sentir o cheiro da madeira. Encerrada a experiência, foi revelado que eles tocavam em seis violinos diferentes: três modernos, dois Stradivarius e um Guarneri del Gesù – que, sabe-se hoje, era justamente o Guarneri “Vieuxtemps”, recentemente vendido a preço recorde.

A cada vez, estes violinos eram arranjados em diferentes pares, sempre tendo um instrumento novo e outro antigo. Para resumir a história, a soma das opiniões mostrou que dois terços dos violinistas levariam para casa um dos instrumentos modernos. E que o instrumento pior avaliado foi um dos dois Stradivarius. Quando os resultados da pesquisa vieram à tona, houve celeuma no meio musical, com questões do tipo: “como violinistas profissionais não conseguem distinguir um Stradivarius de um violino moderno?” ou “como fica então a tão proclamada superioridade dos instrumentos antigos? Por que eles valem tanto?”.

Nadando contra a corrente

Christian Tetzlaff é um renomado violinista alemão e um apaixonado por música contemporânea que motivou muitas novas composições para violino – estreou pelo menos um novo concerto para o instrumento nos últimos 10 anos.

Essa música nova – e também a velha que ele gosta de tocar – é defendida por Tetzlaff num violino moderno, do prestigiado luthier alemão Stefan-Peter Greiner (Tetzlaff possui três violinos desse autor). “Fico feliz cada vez que tiro ele da caixa”, afirmou numa entrevista recente. “É um instrumento forte, abundante em doçura e cores. Em comparação com outros instrumentos, é masculino, mas tem todas as outras coisas que eu vinha procurando.” Ele acredita que exista preconceito em relação aos instrumentos modernos: “se as pessoas preferem ir a um concerto porque pensam que estão ouvindo um Strad, tudo bem. O importante é que elas tenham uma boa experiência. Mas no momento em que não sabem qual o instrumento está sendo tocado, elas não sentem a diferença.”


O violinista Christian Tetzlaff [foto: divulgação]

O que então justificaria essa valorização e esse ardor pelos instrumentos antigos? Laurie Niles, uma das violinistas que participou do teste em Indianápolis, conta em detalhes a experiência (que dá pra ler em inglês aqui) e, ao final, faz uma bela analogia, que não deixa de ser uma resposta: “Ontem estava com minha filha em frente a uma pintura de 250 anos, The blue boy, de Thomas Gainsborough. Nenhuma replica na internet pode dar uma pista de quão maravilhosa é a pintura (...) Nenhuma foto poderia parecer tão real, não posso explicar totalmente o que nos cativou tão profundamente. Esta pintura foi feita antes de qualquer ser humano vivo hoje no planeta. Como ela poderia ter sobrevivido tão bem, e por tanto tempo? Tive a mesma sensação quando segurei o Vieuxtemps del Gesù – como poderia este belo objeto permanecer tão imaculado, intacto, depois de tantos anos? A madeira deve ter estado numa floresta provavelmente por 200 anos ainda antes que fosse esculpida pelo mestre num objeto. Mas há uma dimensão adicional: ali estava o violino tocado por Vieuxtemps e tantos artistas depois dele – que música ele produziu! E não é apenas a música: eu o ajeitei em meu ombro e o toquei – que resposta rápida e satisfatória – e ele reviveu. Este objeto feito por um artista de séculos passados não sobreviveu apenas em corpo, mas também em alma.”


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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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