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Mirem-se no exemplo de Fazil Say (21/5/2013)
Por João Marcos Coelho

A estrela da musical clássica à europeia em Istambul é o pianista Fazil Say, 43 anos, nascido em Ancara. Além do repertório tradicional, que o levou a tocar com as mais reluzentes sinfônicas do planeta, já gravou jazz, improvisos e composições próprias, que misturam a tradição da música europeia, músicas improvisadas e o solo folclórico de Istambul. Opositor do governo autoritário de Erdogan, foi formalmente acusado em outubro de 2012 de ofender o islamismo em tuítadas, com piadas sobre a convocação à prece dos muçulmanos. São estas as tuitadas que geraram o processo: 1) Say transcreveu este verso de Omar Khayyám (poeta, século 11): “Você diz que rios de vinho fluem no céu/ o céu é uma taverna para você?/ Você diz que duas virgens esperam cada crente lá/, o céu então é um bordel para você?”; 2) comentou a brevidade de 22 segundos de uma oração em uma mesquita. “Qual era a pressa [do sacerdote]?”. “Uma amante? Uma bebedeira?”; e 3) "Não sei se já repararam, mas se existe um arrogante, um medíocre, um ladrão, um palhaço, é sempre um islamita".

Condenado a 10 meses de prisão, teve a sentença convertida em censura: nos próximos cinco anos (acho que foi este o tempo que li em algum lugar) ele não poderá fazer nenhuma ofensa ao Islã. Ao comentar o cancelamento da sentença, Say reafirmou não ter cometido crime algum e disse estar preocupado, mais do que com ele próprio, com a “liberdade de convicções e de expressão na Turquia”.


Fazil Say [foto: divulgação]

Cabra porreta, este Say. Não recuou. No Brasil, ao contrário, não se tem notícia, até onde tenho conhecimento, de compositor ou músico erudito/clássico que tenha confrontado o poder oficial. Mais do que acaso, é sem dúvida sintoma da própria engrenagem da música clássica no país – totalmente dependente do Estado em suas várias instâncias. Daí o sabujismo atávico, o puxa-saquismo sistemático dos donos do poder por parte dos músicos. Quanto mais dependentes do Estado – como os maestros e as orquestras sinfônicas –, maior o nível de lambe-botas.

Ora, dirão vocês, mas em todo o mundo a música clássica depende do Estado, diretamente com verbas, ou indiretamente por mecanismos de incentivo fiscal. Concordo. Mas por lá existe uma noção de cidadania dentro de cada músico que por aqui é uma completa ficção. Tudo lembra, aqui, aquele personagem do Luís Fernando Veríssimo, o “Queromeu”.


Fazil Say [foto: divulgação]

Talvez por já serem mesmo abandonados e marginalizados por qualquer tipo de governo, os compositores contemporâneos vêm tendo atitude mais firme de oposição a regimes totalitários e discricionários desde a ditadura militar de 1964-1986, alinhando-se com os chamados intelectuais públicos oriundos das ciências humanas. Nesse sentido, a música popular, até porque sobrevive comercialmente sem auxílio governamental, dá de goleada no mundo erudito e peita o establishment desde os tempos de Vandré, Chico e Milton. Os clássicos estão encolhidinhos, sempre enrolados em rapapés e mesuras aos poderosos de plantão. Um quadrado pequenininho, onde o vocabulário é só este mesmo, o das espinhas amplamente flexíveis, prontas a se curvarem a quem lhes acene com a realização de seu sonho artístico. Um pouco de dignidade não faz mal a ninguém.

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João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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