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Para que serve a música? (18/6/2013)
Por João Marcos Coelho

Confesso que saí de casa focado apenas em conseguir chegar a Sala São Paulo na quinta-feira, dia 13 passado, a tempo e hora de assistir ao concerto do pianista inglês Paul Lewis e a Osesp regida por Frank Shipway. Só me dei conta de que a história acontecia nas minhas barbas quando vi a Sala meio vazia. Todos os ingressos haviam sido vendidos, ela deveria estar superlotada, com muita gente disputando ingressos dos que eventualmente faltariam. Em vez disso, vi muitas pessoas ainda com medo, contando como tiveram de conviver/driblar com manifestantes e/ou a polícia para alcançar seu oásis (a Sala) particular.


Café na Sala São Paulo e manifestantes na Avenida Paulista [fotos: internet] 

Lembrei do comício no Anhangabaú das Diretas-Já em 1984. Eu estava lá. E agora, de certo modo, senti-me omisso; eu simplesmente queria me livrar dos contratempos da manifestação para “desfrutar” da “grande música”. O que aconteceu comigo? O que aconteceu com todos nós, que gostamos de música clássica e/ou vivemos profissionalmente no seu universo? Será que ela não tem nada a ver com a bela, maravilhosa explosão popular que movimentou quase 300.000 pessoas em várias capitais brasileiras nesta segunda-feira, dia 17?

“Do coração para o coração”, dizia Beethoven a respeito do modo como sua música nascia e chegava às pessoas. Como estas manifestações. Elas nasceram com uma reivindicação precisa – a revogação do aumento no preço das passagens de ônibus – e rapidamente evoluíram para um sentimento mais difuso, e por isso mesmo mais universal, de que no fundo estamos todos sendo desrespeitados diariamente em nossos direitos fundamentais a educação, transporte público e saúde de qualidade. Estes são, afinal, os objetivos básicos do Estado. Em vez disso, bilhões são (mal) gastos em monumentais estádios de futebol moderníssimos, “de primeiro mundo”, que depois ficarão às moscas. Este sentimento, a gente percebe que vem “do coração” dos manifestantes para os “nossos corações”, como a música de Beethoven.



Faixa levantada por manifestantes do Movimento Passe Livre [foto: internet]

Então, por que colocamos um cordão sanitário a nos proteger destas manifestações? A resposta é simples: perdemos o senso de participação política, como cidadãos. Só queremos manter nossos quintaizinhos privados intocados.

No ano passado, houve as várias primaveras árabes no Oriente Médio. E agora mesmo, a Turquia vive um movimento que nasceu sob pretexto de proteger as árvores do parque Gezi, na Praça Taksim, em Istambul, que o governo queria derrubar para construir um shopping center. Mirem-se no exemplo, como cantava Chico Buarque, de músicos como o pianista turco Fazil Say, que postou um vídeo no youtube onde improvisa ao piano sobre imagens que começam mostrando os manifestantes e terminam com belíssimos flagrantes das árvores do parque e as crianças brincando... Se as grandes instituições oficiais, como as orquestras sinfônicas, estão atreladas ao poder público e não podem promover manifestações de solidariedade como estas, os músicos independentes, que fazem recitais e concertos de câmara em seu dia-a-dia, bem podem marcar posição, dedicando performances às manifestações. Até onde se viu, não há partidos políticos ligados a elas, até porque todos eles perdem com estes eventos, que já são destaque nas manchetes e primeiras páginas na imprensa internacional.


Davide Martello tocando no Parque Gezi, na Praça Taksim, em Istambul [foto: divulgação]

Ainda na Turquia, outro pianista, o ítalo-alemão Davide Martello, levou seu piano de concerto para o parque Gezi no ultimo dia 12 e, ao lado do músico turco Yigit Ozatalay, tem tocado muitas horas diariamente, entrando noite adentro, encrustado na multidão que ocupa o local.  Repertório? Peças isoladas e sonatas, de Bach ao século 20, imaginem. Na noite do dia 17, seu piano foi confiscado pela polícia turca. Martello tem levado seu piano a várias cidades, no mundo inteiro, para tocar em locais ao ar livre. [Clique para ver o site de Davide Martello]

E a nossa comunidade, continuará passando ao largo da história que se constrói embaixo de nossos narizes? 





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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