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Na esteira dos instrumentos: madeiras para poucos! (24/6/2013)
Por Camila Frésca

Já faz tempo que os instrumentos antigos de cordas sofrem um aumento exponencial de valor. Agora, parece que essa galopada de valores atingiu outro componente da cadeia: as madeiras ‘vintage’ para a construção de novos instrumentos têm atingido valores cada vez mais elevados.

René Alfred Morel era considerado um dos maiores restauradores de violinos raros. Seu estúdio em Nova York era frequentado por gente como Itzhak Perlman, Pinchas Zukerman e Yo-Yo Ma, que confiavam a ele qualquer ajuste ou restauração em seus preciosos instrumentos. No final de 2011, aos 79 anos, Morel faleceu em decorrência de um câncer. Por conta disso, em março desse ano, um leilão da empresa Tarisio vendeu madeiras da coleção de René Morel. O lote 240 chamou especial atenção: era composto por dois pedaços de madeira destinados a fazer fundos (o tampo traseiro) de violoncelo e datados de cerca de 1920. Mas não foi a qualidade excepcional do produto que despertou o maior interesse, e sim o preço de venda: estimava-se que elas atingissem entre 250 e 400 dólares, mas foram arrematadas por incríveis 21 mil dólares!


Madeiras da coleção de René Morel vendidas no leilão da Tarisio [fotos: divulgação]

Logo começou-se a especular quem as teria comprado e por que atingira tal valor. Quem arrematou as peças foi Christophe Landon, um renomado luthier e negociante de instrumentos, também situado em Nova York. Sua explicação foi simples: “Coloco todo o dinheiro que posso na compra de excelentes madeiras porque quero fazer os melhores instrumentos possíveis.”

Claro que o preço astronômico logo acendeu a discussão do valor de uma boa madeira “vintage”, tanto em termos musicais quanto financeiros. Outro ponto levantado foi quanto desse valor devia-se às qualidades intrínsecas da madeira e quanto era devido a sua proveniência e reputação. Para Landon, o valor crescente dessas madeiras se justifica pelo fato de que “restam muito pouco delas”. Mas seu colega, o também luthier Sam Zygmuntowicz, lembra que o simples fato de uma madeira ser antiga não significa que seja necessariamente de boa qualidade. “Algumas madeiras antigas que ainda não foram usadas podem simplesmente ter sido dispensadas por outros luthiers porque havia problemas com elas. É como com os violinos: um bom instrumento novo é melhor que um medíocre antigo”.


Violoncelo de Christopher Landon, cópia de um Goffriller, feito em 2006  [foto: divulgação]

À guisa de curiosidade: 1. parece que um violino feito por Christophe Landon não sai por menos do que 60 mil dólares. 2. O leilão da Tarisio tinha peças de outras coleções, e entre elas estavam lotes de pau-brasil – ou, na linguagem da luteria internacional, “pernambuco”. Essas peças, com mais de 60 anos de idade, foram especialmente disputadas, pois essa madeira brasileira é unanimidade na fabricação de arcos e, por estar em extinção, é relativamente difícil de ser obtida legalmente.

Leia mais sobre esse assunto na edição de julho da Revista CONCERTO, que logo mais estará circulando.


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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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