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Competições são para cavalos, não para artistas... (15/7/2013)
Por João Marcos Coelho

O pianista Boris Giltburg, de 29 anos, conquistou o primeiro lugar, medalha de ouro, no Concurso Rainha Elisabeth da Bélgica em junho passado. Mais um prodígio russo-israelense num mercado já saturado de jovens prodígios, em geral oriundos da Rússia ou da Ásia. Nascido em Moscou, viveu com a família em Israel desde os 6 anos. Estudou na Academia de Música Buchmann-Mehta, em Telavive. Tem mais de 80 concertos já agendados para esta temporada, após o feito.

Mas Boris teria ficado nas notinhas de rodapé se sua reação logo após a vitória fosse convencional. Em vez disso, ganhou destaque na mídia internacional justamente porque renegou uma fórmula hoje muito desgastada. Meio século atrás com certeza lhe concederia o passaporte para a fama; atualmente, sequer os regulamentares 15 minutos efêmeros de fama lhe são atribuídos. Como disse, seu nome ficaria restrito às notinhas das agências noticiosas e na imprensa internacional. No máximo, mencionariam um fato inusitado: nas semifinais, ele teve um branco no meio de uma execução de uma peça de Mozart; parou e retomou em seguida. Ainda assim, motivo só para uma notinha.


Boris Giltburg [foto: divulgação]

Mas o cara deu uma de Rambo: sacou uma metralhadora giratória e mandou "balas" em profusão. Disse que concorda inteiramente com o compositor e pianista húngaro Bela Bartók, autor da frase “competições são para cavalos, e não para artistas”.  De fato, os 12 finalistas ficaram confinados por uma semana num local inteiramente vedado ao mundo exterior, estudando como loucos. Boris oscilou entre a raiva e o desespero naqueles dias (“foi uma das semanas mais difíceis da minha vida”). Conquistado o primeiro lugar, o desespero passou, mas a raiva da tortura anterior só fez aumentar.  “Estou p... com o mundo por não haver outra fórmula de se descobrir talentos além dos concursos”. Jura que jamais participará de qualquer júri de concurso no futuro.

Antigamente, eles eram vistos como mal necessário. O pianista canadense Glenn Gould, por exemplo, considerava que os coitados que se submetem a essa tortura voluntariamente estão, na verdade, submetendo-se a “uma lobotomia espiritual”.

Cá entre nós, quantos músicos venceram grandes concursos e depois não fizeram a fulgurante carreira que seus júris prognosticavam? A única grande exceção é Van Cliburn – e, se teve méritos artísticos, de um lado, de outro foi “usado e abusado” pelos EUA como peça de propaganda. Outro que vocês lembram, claro, é o episódio rumoroso do Concurso Chopin em que Martha Argerich retirou-se do júri porque não premiaram Ivo Pogorelich (aliás, vale a pergunta de Wally: onde anda Pogorelich?).

A razão é simples. Em geral, escolhem-se grandes músicos veteranos para este tipo de júri. E eles são, na grande maioria, conservadores. Ou seja, premiam justamente o convencional, o “déja vu”, como diria um pernóstico francês. Não estão em busca do diferente, do músico que tem DNA próprio. Este tipo de engrenagem estimula apenas as clonagens – reproduzem-se às dezenas, centenas, milhares músicos que são só cópias de seus ídolos (de preferência, os ídolos membros do júri, lógico).

Esta é a iniquidade inata dos concursos. O sujeito tem ideias próprias quando toca piano, violino ou violoncelo, mas é obrigado a se anular para agradar ao especialista de plantão.

Mas todo esse papo já era. Hoje em dia, os músicos jovens utilizam as ferramentas da web para se expor e mostrar seus trabalhos. Se tiverem mesmo talento, sem dúvida alguém os assistirá e conduzirá a uma carreira profissional. É uma democratização arriscada, sei. No entanto, é bem mais democrático do que depender do julgamento de um bando de músicos veteranos emedalhados com cabeça-século 19.

Você, que é um jovem músico, com certeza já sabe que hoje há uma série de ferramentas poderosas para alavancar o seu talento. Sei que muitos já utilizam isso. Mas, para quem não está atento à mudança de padrão, vale o alerta. Faça seus vídeos, coloque no youtube; construa uma mailing list na web; poste áudios de suas performances e os envie regularmente para sua lista; mantenha seu público-alvo informado sobre suas atividades e sobretudo suas performances no twitter.

Liberte-se de instituições e fórmulas meio rançosas. Concordo inteiramente com Bartók: competições, concursos e assemelhados são para cavalos, não para artistas.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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