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Redescobrindo Marcelo Tupinambá (24/4/2014)
Por Camila Frésca

Quando pensamos em compositores que, no final do século XIX e início do século XX, fundiram a tradição brasileira com a música de salão e a erudita e foram fundamentais na criação de uma música popular urbana no Brasil, logo vem à mente Ernesto Nazareth e, num segundo momento, Chiquinha Gonzaga. Mas, ao lado deles, há outros nomes que tiveram papel de destaque neste processo. Um desses, tão importante quanto os já citados, é Marcelo Tupinambá (1889-1953) – originalmente grafado Marcello Tupynambá. Hoje nome quase esquecido, Tupinambá foi um músico bastante popular e de intensa atividade que escreveu mais de 300 peças. Entre estas se encontram operetas, canções de câmara, maxixes, tangos, valsas e trilhas para o cinema.

Analisando o perfil do artista, Mário de Andrade escreveu, em 1924: “O que exalta a música de Marcello Tupynambá é a linha melódica. Muito pura e variada. O compositor encerra nela a indecisão heterogênea de nossa formação racial... É atualmente, entre os nossos melodistas de nome conhecido, o mais original e perfeito”. Depois de sua morte, no entanto, suas peças deixaram de ser publicadas e ele acabou por cair num grande esquecimento. Essa obscuridade promete ser interrompida agora, com o lançamento do site www.marcellotupynamba.com, pelos pesquisadores Alexandre Dias e Marcelo Tupinambá (bisneto do compositor).

Segundo Alexandre Dias, Tupinambá já foi chamado de “Schubert brasileiro”, pela qualidade de suas canções e, além de Mário de Andrade, era admirado por músicos como Villa-Lobos (que compôs uma sinfonia sobre tema dele), Darius Milhaud (que o classificou de “uma das glórias e joias da arte brasileira”), Ernesto Nazareth (que era seu amigo e compôs para ele a música Tupynambá), Souza Lima (que compôs duas improvisações sobre seus temas) e Eleazar de Carvalho.


Compositor Marcelo Tupinambá ao piano [foto: divulgação]

Marcelo Tupinambá foi o pseudônimo mais famoso usado por Fernando Álvares Lobo, nascido em Tietê, São Paulo, e filho de músicos portugueses. Seu tio era Elias Álvares Lobo, autor da primeira ópera escrita em português no Brasil, A noite de São João. Já seu pai, Eduardo Lobo, regeu a orquestra que recepcionou D. Pedro II no interior paulista. Tupinambá era também engenheiro, radialista, crítico musical e poeta, e teve ativa participação durante a Semana de Arte Moderna.

A música de Tupinambá exerceu enorme influência no gosto popular entre as décadas de 1910 e 1930, e os foliões, durante o período de Carnaval, saiam às ruas entoando as melodias do autor. As peças de Marcelo Tupinambá eram ouvidas nos teatros, cinemas, discos e mais tarde também no rádio e na TV. Essa enorme popularidade garantiu uma boa venda de partituras e a gravação de suas composições mais de 200 vezes, por artistas como Pixinguinha, Francisco Alves, Inezita Barroso, Eudóxia de Barros e Guiomar Novaes.

Toda essa história poderá ser mais bem conhecida e passada a limpo por meio do site, idealizado e coordenado por Alexandre Dias – que já realizou um trabalho semelhante com a obra de Ernesto Nazareth (www.ernestonazareth150anos.com.br). O carro chefe de www.marcellotupynamba.com é a disponibilização gratuita de 238 partituras de Marcelo Tupinambá (que correspondem a toda sua obra publicada). Mas, além disso, os navegantes encontram uma biografia do músico, cerca de 200 letras de canções, discografia, filmografia, vídeos, fotos, documentos e uma extensa bibliografia. As partituras podem ser baixadas em sua edição original (fac-símiles) ou em nova editoração, e, numa segunda etapa, devem ser incluídos também manuscritos do compositor.

Segundo revela Alexandre Dias, esse esforço hercúleo foi feito com recursos próprios e só se tornou possível por meio de parcerias com o arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que mantém o acervo pessoal de Marcelo Tupinambá e forneceu as imagens escaneadas; a editora Irmãos Vitale, que autorizou a disponibilização de 136 partituras até fevereiro de 2015; e a família do compositor, que apoiou a empreitada e autorizou a disponibilização das demais partituras. Resta aos amantes da música brasileira dar sentido aos esforços de Dias aproveitando esta oportunidade única de conhecer um nome de referência da música brasileira do século XX.

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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