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A luta de Schoenberg e da música nova: poucos, raros sorrisos (11/9/2008)
Por João Marcos Coelho

No Brasil, e sobretudo em São Paulo, agosto e setembro  são, sem dúvida, os meses em que a música nova, contemporânea, sai do gueto e vê a luz do dia. Concertos espalhados por várias cidades do Estado, com artistas e grupos brasileiros e internacionais, distribuem-se por festivais importantes, como a Bienal de Música Eletroacústica, o Encontro de Percussão realizado na USP e agora o 43º Festival Música Nova.

E pensar que tudo começou com Schoenberg, no início do século passado. Boa ocasião, portanto, para nos reciclarmos, arejarmos os ouvidos... e dar os parabéns a Arnold Schoenberg, que, afinal de contas, foi o responsável pela grande ruptura com as estruturas da música tonal (também chamada de "skol", já que  desce redonda, mas tomada em excesso provoca sono excessivo).

Sem dúvida, Schoenberg abriu um novo e inesperado mundo a todos os que criaram e pensaram a música nos últimos cem anos. Por isso, vale a pena comemorarmos junto com a violinista Hillary Hahn seu aniversário, que transcorre no dia 13 de setembro. Hahn, que só tem 28 aninhos, gravou há pouco um CD com os concertos de Schoenberg e Sibelius. E vai responder a perguntas  sobre o compositor e sobre sua gravação. Mas apenas vinte perguntas serão selecionadas e postadas no site http://www.youtube.com/hilaryhahnvideos   A violinista vai respondê-las no dia 13. Se você quiser, faça sua pergunta pelo email questions@firstchairpromo.com. Na verdade, Hahn está lançando um canal próprio no YouTube que incluirá conteúdo em vídeo criado por ela. Assim será possível comentar os vídeos, fazer perguntas, enfim, conversar com Hillary quase como se ela estivesse sentada com a gente, no sofá da sala.

Querem saber a verdade verdadeira deste gesto? É uma maneira criativa de tentar atrair mais compradores para o CD. Lançado há três meses pela Deutsche Grammophon no mercado internacional, ele utiliza uma fórmula batida porém eficiente de divulgar a música do século 20: junta o concerto de Sibelius, extremamente popular nos Estados Unidos, com o de Schoenberg, composto por ele no final da década de 30, nos Estados Unidos. Unir o fácil com o difícil nem sempre dá certo. Neste caso, porém, além do talento formidável de Hahn, ela conta com o rigor do compositor e maestro finlandês Esa-Pekka Salonen e a Orquestra Sinfônica da Rádio Sueca. O resultado é artisticamente arrebatador.

E - pasmem - atingiu o primeiro lugar de vendas em CDs clássicos nos Estados Unidos há pouco mais de um mês. A gravadora alardeou o fato como sintoma de saúde da indústria fonográfica. Será que as gravadoras saíram da UTI? Ledo e ivo engano, como costuma dizer Carlos Heitor Cony. Um funcionário da Deutsche Grammophon entregou o ouro para o jornalista inglês Norman Lebrecht. Revelou números de vendagem do CD: média de 500 cópias por semana, absolutamente pífio para o mercado norte-americano. "Nesse ritmo de vendas", escreveu Lebrecht, "a DG vai precisar de dez anos só para cobrir os custos de produção". (Lebrecht teve seu livro "A morte da música clássica" lançado há pouco no Brasil pela Record com o título "Maestros, obras-primas e loucura".)

Em todo caso, o fato é positivo. Schoenberg nunca deve ter imaginado que um dia chegaria ao primeiro lugar em vendas de qualquer ranking no mundo. A seqüência de pauladas que levou em Viena nas duas primeiras décadas do século 20 por causa de sua música atonal e em seguida dodecafônica o deixou vacinado. Sabia que sua música era para poucos. Acontece que, ouvido hoje, o concerto para violino, tido como incompreensível na época de sua estréia, em 6 de dezembro de 1940, na Filadélfia, soa até bem. Bem, no caso, quer dizer música não tão espinhuda, mais redonda, quase uma "skol". Trata-se de música serial, mas palatável. Ou seja, é música que não machuca os ouvidos. E tem seqüências melódicas e orquestrais atraentes a todos os ouvidos.

Além disso, a interpretação de Hilary Hahn e da Orquestra da Rádio Sueca sob regência de Esa-Pekka Salonen é rigorosa sem ser chata, adequada e cheia de vitalidade. Preste atenção nas imensas dificuldades técnicas que enfrenta o solista. "É preciso ter seis dedos para tocar isso", repetiu mais de um violinista nas últimas décadas. A obra permanece injustamente marginalizada.

Um anonimato contra o qual lutam nestas semanas compositores daqui e de fora. Eles só querem chegar até o público. E este é um justo direito deles ou dos abnegados músicos que se empenham em tocar esta música nova com talento e muito suor/estudo. Uma estrada trilhada em primeiro lugar  por Arnold Schoenberg.

Existe um livro primoroso, em francês, intitulado "Le Cas Schoenberg", do argentino radicado em Paris Estebán Buch. Ele faz um estudo rigoroso da recepção das obras do compositor pela imprensa vienense. Foi paulada pra todo lado. Até os que o incentivaram, diziam que gostavam de sua música pelos motivos errados. É por isso que temos de Schoenberg a imagem de um homem mal-humorado, de mal com o mundo. Provavelmente o único dia no ano em que sorria era nos 13 de setembro, seu aniversário. Observe a foto dele com sua mulher e a filha Nuria, que se casaria bem mais tarde com o compositor italiano Luigi Nono. Com certeza, vale um brinde. Parabéns, Schoenberg, no seu 134º aniversário. A música nova não é hegemônica, como você previu. Mas conquistou seu direito de cidadania.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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