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Dois momentos: Theatro São Pedro e Municipal de São Paulo (30/6/2014)
Por Jorge Coli

O que dá sentido a um concerto? O que faz com que ele seja uma fonte de prazer intenso, de transformação do espírito? Não é forçosamente a qualidade da grande orquestra, nem o renome do maestro ou do solista prestigioso.

Com frequência, a grande orquestra, o grande maestro, o grande solista tendem a cair numa rotina que, se não altera as elevadas qualidades técnicas de cada um, terminam minimizando, ou destruindo, a alma viva da música que interpretam. Eles têm um público cativo, disposto a cumprir um ritual de cultura mesmo que se entedie muito ou um pouco. Estão garantidos pelo nome que adquiriram, e debitam música como um magnífico realejo.

Durante um período de minha vida, morei em Nova York, bem perto do Lincoln Center. Creio que nunca fui a tantos concertos, óperas, recitais e balés como nessa época. Mas quantas vezes, ouvindo os mais célebres intérpretes, sentia despontar o espírito de rotina.

Havia um lugar, no entanto, onde isso nunca ocorria: era na Juilliard School, formidável escola de formação musical, de dança e de teatro. A Juilliard mantém um programa intenso de recitais e concertos, em sua maioria gratuitos, dados por seus alunos. Alunos de diversos níveis que se apresentam como solistas ou em formações, das quais The Juilliard Orchestra é uma das mais prestigiosas.

O vigor de tais interpretações era eletrizante, porque significavam um momento excepcional na existência daqueles músicos em formação. A eletricidade espiritual que engendravam sobrepunha-se às raras falhas que porventura ocorressem. E, ao término da apresentação, no frio do inverno, a alma de cada ouvinte saía da sala revigorada e aquecida.

Theatro São Pedro, dia 21 de junho
Essas lembranças me vieram à mente depois de um concerto oferecido pela Orquestra do Theatro São Pedro, no dia 21 de junho. Regia o maestro argentino Carlos Vieu e o solista era o notável trompetista venezuelano Pacho Flores.


São Pedro fez um concerto latino-americano com Carlos Vieu e Pacho Flores [foto: divulgação]

Foi uma pura felicidade. A Orquestra do Theatro São Pedro é composta por músicos jovens, entusiasmados e talentosos. Vem assegurando excelente desempenho nas óperas programadas naquele teatro (ouça aqui, por exemplo, o impressionante início da Ifigênia em Táuris, de Gluck, interpretada no dia 1º de junho). E demonstrou magnificamente seu brilho no concerto ao qual me referi.

Era um programa consagrado à música latino-americana: Piazzolla, Ginastera, Oscher e Carreño. Constate aqui a força espantosa desses músicos no excerto da suíte Estancia de Ginastera.

As estantes efetivas da Orquestra do Theatro São Pedro são em número menor do que deveriam ser, e a Secretaria de Cultura do Estado teria tudo a ganhar aumentando seus músicos estáveis, evitando assim as contratações ad hoc.

De qualquer modo, os espetáculos do São Pedro têm sido uma fonte de descobertas e de momentos fortes.

O programa desse concerto latino-americano permitiu escapar dos repertórios batidos. Incluiu Mestizo como prato principal, do uruguaio/venezuelano Efrain Oscher, poema sinfônico com solo para trompetista, brilhante e poético, estreado no Barbican Centre de Londres em janeiro deste ano.

A questão do repertório traz de volta o problema da rotina, tão fatídica para as orquestras. A rotina, causada em grande parte pela autossatisfação preguiçosa, é acentuada graças ao caráter convencional dos programas.

“Vamos lá”, pensa o maestro, o diretor artístico, os músicos, “mais uma vez a Primeira de Mahler, a Pastoral, a Quinta de Shostakovich, a Terceira de Brahms...” Está claro que tais obras-primas não podem faltar, mas o repertório das orquestras também não pode se limitar a elas. Ocorre, muitas vezes, que a ausência de curiosidade, a tranquilidade que asseguram essas composições ilustres perante o público, faz com que o repertório gire à volta dos mesmos títulos. Para se darem boa consciência, os programadores podem fazer, às vezes, com que a apresentação se abra com um aperitivo um pouco mais original, ou mesmo com a estreia de uma pequena obra. Isso não assegura um verdadeiro ânimo curioso, voltado para descobertas e para riscos.

São antes sintomas de confortável inércia.

PS: A Orquestra do Theatro São Pedro, por felicidade, não assumiu até agora uma sigla (que seria bem difícil de pronunciar: OTSP!). É uma tristeza que nossas orquestras, exceto a Amazonas Filarmônica, e alguma outra talvez que não lembro agora, sejam denominadas por esses conjuntos de letras tão feios: Osesp, Ospa, Osusp, etc. ! Por que não apenas Sinfônica do Estado; Sinfônica de Porto Alegre, Sinfônica da Usp? Além de feias, essas siglas possuem algo de burocrático, nada musical.

 

Theatro Municipal de São Paulo, dia 27 de junho
Como é linda a música de Carlos Gomes! Inda mais tocada como foi pela Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, regida por Cláudio Cruz (apresentação do dia 27 de junho). Faz tempo que não temos uma ópera de Carlos Gomes nos teatros: esse concerto consagrado ao grande compositor campineiro foi, assim, muito bem vindo.
Excelentes solistas: Taís Bandeira, Marcelo Vannucci, Saulo Javan. Mas a grande protagonista foi a orquestra, elevando as composições ao nível altíssimo que presidiu à sua inspiração.


Cláudio Cruz comandou peças de Carlos Gomes no Municipal [foto: divulgação/Sylvia Masini]

Como brilharam, cristalinas, as cordas! Como as madeiras, que Carlos Gomes trata de modo tão novo e tão pessoal, imediatamente reconhecível, mostraram-se requintadas e transparentes!

Por falar em madeiras: no final do concerto, o maestro Cláudio Cruz anunciou que aquele seria o último concerto em que o clarinetista Luís Afonso “Montanha” participaria junto à Orquestra Sinfônica Municipal. Montanha deixa essa formação para se consagrar exclusivamente ao ensino. Grande pena, porque Montanha é um maravilhoso instrumentista (ouça-o no episódio Aquário da obra de Karlheinz Stockhausen, Zodíaco) Por outro lado, grande alegria em saber que um professor de tal qualidade estará preparando músicos de amanhã.

A abertura de O guarani, que todos conhecem de cor e salteado, brotou como a música mais linda do mundo. (Ouça aqui a gravação ao vivo da interpretação dessa abertura). Todas as peças orquestrais – aberturas de Fosca, Salvator Rosa, Maria Tudor, a Alvorada do Schiavo, revelaram suas plenas qualidades sinfônicas, demonstrando o quanto Carlos Gomes foi um orquestrador fora do comum.

Cláudio Cruz, capaz dos mais belos fraseados (não seria ele o admirável violinista que é), foi magistral em suas concepções e execuções das diversas peças deixadas por um dos máximos compositores brasileiros.

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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