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Cosmopolitismo ou jequice? (24/7/2014)
Por João Luiz Sampaio

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo fará em agosto uma turnê por cinco capitais do país. À frente do grupo, estará a maestrina Marin Alsop, que vai reger um programa composto pela Alvorada de Lo schiavo, de Carlos Gomes; o Concerto para piano e orquestra de Grieg; e a Sinfonia nº 5 de Tchaikovsky.

No Grieg, o solista será o pianista russo Dmitry Mayboroda, de 21 anos. É um talento indiscutível da nova geração – e o público brasileiro já teve chance de confirmar isso em pessoa, em 2012, quando ele foi solista da Orquestra Experimental de Repertório em São Paulo e Campos do Jordão, interpretando a Rapsódia sobre um tema de Paganini, de Rachmaninov.

No ano passado, ele foi também um dos finalistas do Concurso Clara Haskil, um dos mais importantes do mundo, outro testemunho de sua qualidade. Ficou em segundo lugar. O primeiro? Foi para um brasileiro, Cristian Budu, ex-aluno de Eduardo Monteiro em São Paulo, de onde partiu para se aperfeiçoar em Boston, nos EUA – Irineu Franco Perpetuo escreveu sobre ele aqui mesmo no Site CONCERTO na ocasião de sua vitória na Suíça.


Mayboroda e Budu em ensaios do Clara Haskil de 2013, na Suíça [fotos: Céline Michel/divulgação]

Mais de uma vez ouvi, nos últimos tempos, uma pergunta franca por parte de pessoas que acompanham a temporada musical paulistana: por que a Osesp resolveu levar o cara que perdeu para Budu – e não o próprio – em sua turnê? De passagem pelo Festival de Inverno de Campos do Jordão no último sábado, repassei a pergunta à Fundação Osesp. E a resposta chegou ontem, por e-mail: o concurso foi realizado no segundo semestre do ano passado; e Mayboroda já havia sido contratado dois anos antes para a turnê.

Resolvido? Apenas em parte. Não se discute, de forma alguma, a importância e necessidade de ter solistas de diversas partes do mundo nas temporadas de nossas orquestras. E é louvável que, há dois anos, a Fundação Osesp tenha demonstrado interesse em trazer para cá um jovem promissor, que começava a despontar no cenário. Prestar atenção ao que se passa lá fora, em especial entre os talentos que surgem, é obrigação de quem programa nossas orquestras, claro. Mas será que olhamos aqui para dentro com a mesma atenção e curiosidade?

A sensação é de que não. E não dá para colocar essa responsabilidade apenas sobre a Osesp. Afinal, para citar mais um exemplo, foi preciso que o violinista Luiz Filíp passasse a integrar o naipe de primeiros-violinos da Filarmônica de Berlim para que chamasse atenção de nossas orquestras – em agosto, ele vai se apresentar com algumas delas país afora.

Na divisão entre solistas brasileiros e estrangeiros, no final das contas, a cota nacional costuma ser preenchida com nomes consagrados, já celebrados mundo afora. E não se busca nas pequenas séries de concertos, nas universidades ou nos conservatórios talentos excepcionais em condição de atuar em nossos principais palcos. É mais fácil, afinal, esperar que, contra todas as adversidades, eles ganhem o mundo e por lá sejam chancelados.

Às vezes, o cosmopolitismo esconde a mesma jequice de sempre...

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João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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