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“Las horas vacías” no Theatro São Pedro de São Paulo (18/8/2014)
Por Jorge Coli

O Theatro São Pedro de São Paulo vem apresentando óperas raras, ou estreias – em parte graças ao estímulo de Bea Esteves. A presença constante de espectadores numerosos nesses espetáculos e nos de outros teatros também demonstra que houve mudança considerável na relação de amor que o público mantém com a ópera.

Existe decerto grandes apaixonados pelo repertório mais conhecido, e que é magnífico. Conhecedores que sabem de cor a Tosca ou O barbeiro de Sevilha, que aguardam com ansiedade tal ou qual ária para saborear as qualidades vocais e musicais dos intérpretes. Mas a eles acrescenta-se um público renovado, que vem descobrindo o universo da ópera, e que se maravilha ao assistir pela primeira vez Pagliacci, sem ter ouvido antes a ária Vesti la giubba.

Talvez seja otimismo meu, mas parece-me que ambos, conhecedores e neófitos, sem preconceitos de nenhuma espécie, interessam-se bastante pelas novas composições que lhes são apresentadas. É fato que muitos criadores buscam desenvolver a veia propriamente teatral da música, veia que não se adequava bem com o universo experimental das modernidades.

Las horas vacías, do espanhol Ricardo Llorca, de estreia brasileira recente no Theatro São Pedro, tem como tema a solidão feminina nos dias de hoje. Pode ser posta em paralelo com A voz humana, de Poulenc, obra também da solidão e do abandono. Mas, em vez de uma única intérprete, como na obra de Poulenc, Las horas vacías divide o personagem em dois, ora interpretado por um soprano (a porto-riquenha Laura Rey), ora por uma atriz (Angelica de la Riva). Inclui também um coro, que amplia, poeticamente, as circunstâncias das situações. A montagem foi feliz, econômica, semicênica, com a orquestra no palco e incorporando as legendas num vídeo cujas imagens se articulavam muito bem com a música e os episódios.


Cena do ensaio de Las horas vacías, de Ricardo Llorca, no Theatro São Pedro [foto: divulgação]

A partitura de Llorca faz apelo a modos rítmicos obsessivos, inclui tensões e abandonos. A parte falada por vezes se desenrolava sobre a música, por vezes desenhava-se sozinha sobre o silêncio. São antigas tradições retomadas: o melodrama, que significa propriamente fala sobre acompanhamento musical, e a alternância de teatro sem música e de trechos musicais, como no Singspiel, no opéra-comique ou na opereta.

O estilo acenava sem complexo para origens bem diferentes. Ouça aqui a ária dos dias da semana. Ela se inicia com um tema no piano que evoca o do Casanova de Fellini, avança com repetições que remetem ao minimalismo, e soa hispânica de algum modo. Como se Nino Rota e Philip Glass se tivessem dado as mãos para compor uma ária de zarzuela.

Em A esfinge sem segredo e em A janela indiscreta, Wilde e Hitchcock haviam exposto o tema dessa solidão feminina preenchida pelo imaginário (deve haver vários outros exemplos, mas são estes os que me vieram à mente...). Llorca atualiza a situação pondo em cena essa mulher que trabalha, e que só consegue romper seu isolamento na sexta-feira à noite, graças à bebida e a um correspondente na internet (talvez imaginário). O público ficou tocado pelo tema, pela interpretação e montagem: mostrou seu entusiasmo no final.

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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