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Duas princesas (22/9/2014)
Por Jorge Coli

Os programas que acompanham o espetáculo do Theatro Municipal de São Paulo estão cada vez melhores. Para a apresentação da Salomé de Richard Strauss, entre outros bons textos, Theo Hotz fez uma ótima apresentação situando Herodes na Antiguidade.

Foi um regalo musical, o espetáculo. Duas grandes cantoras assumiram o papel. A primeira encarnando a princesinha que Oscar Wilde transformou numa criança baudelairiana, cruel, viciosa e sanguinária; que Gustave Moreau vestiu das joias mais rutilantes, foi Nadja Michael. Salomé é seu papel fetiche, que ela canta pelo mundo afora. Nadja Michael tornou-se hoje sua intérprete por excelência.


A soprano alemã Nadja Michael como Salomé, no Municipal de SP [fotos: Desirée Furoni/divulgação]

Sua encarnação mais impressiona: ela faz vibrar a verdade dramática do personagem, e o público vibra com ela. Sua voz é perfeita para o papel: se as notas intermediárias nem sempre são perfeitamente justas, sua embriaguez dionisíaca justifica tudo, e que o purismo vá para o diabo. Os agudos preenchiam a sala, e cada espectador os sentia dentro de si. Sua Salomé, decidida e forte, apesar do olhar alucinado, surgia traçando seu destino: ouça aqui a cena final da ópera, tal como ela foi dada no Theatro Municipal.

A outra princesinha foi interpretada por Annemarie Kramer. Muito diferente de Nadja Michael: menina miúda, mimada, cheia de caprichos, arrastada por forças que a ultrapassam. Sua voz é menos implacável, e a vibração que transmite possui outra natureza, mais íntima e delicada. João Batista era, para ela, um brinquedo erótico e desejado. Sua silhueta frágil, banhada de sangue, possuía alguma coisa de pesadelo. Compare com Nadja Michael, ouvindo a cena final, tal como ela cantou no Theatro Municipal.

O resto da distribuição tinha a qualidade que qualquer grande teatro internacional pode sonhar. Assinalo, em particular, o fabuloso Jochanaan de Mark Steven Doss e o excelente Narraboth, do tenor Stanislas de Barbeyrac.

A Orquestra Sinfônica Municipal mostrou que sua qualidade não cessa de crescer, e John Neschling valorizou as rutilâncias da orquestração, conferindo-lhes sentido dramático profundo e verdadeiro.

A montagem me decepcionou, porque eu esperava que Livia Sabag atingisse a poesia que demonstrou no maravilhoso O rouxinol, de Stravinsky, apresentado no Municipal de São Paulo em 2012, e de The Turn of the Screw, no Theatro São Pedro, de São Paulo, em 2013.


A famosa Dança dos sete véus: o cenário se abre e revela uma piscina e vitrais coloridos

Não que fosse uma catástrofe. Mas os cenários significavam um terraço no palácio de Herodes bem desenxabido, descolorido. Os trajes também nem se fundiam, nem eram ressaltados; despareciam numa insignificância inexistente. Tudo sugeria uma montagem semicênica, sem grande cuidado na direção de atores. Toda essa neutralidade se animava um pouco no momento da célebre dança: o cenário revelava uma piscina e vitrais coloridos. A dança, no primeiro espetáculo que vi (dia 9 de setembro), pareceu-me desencontrada, e mais convincente no segundo (dia 16).

Mas enfim, como dizia minha avó, muito ajuda quem não atrapalha. Se a montagem não era nem inventiva, nem poética, era neutra e não cedeu aos delírios megalomaníacos de certos diretores cênicos, que por vezes perturbam o sentido da obra com invenções aberrantes. Coube ao maestro, à orquestra e aos intérpretes elevar-nos ao mundo perverso, sanguinário e luxuoso concebido por Strauss e Wilde. Foi sublime.

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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