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Desapega, desapega... (21/10/2014)
Por João Marcos Coelho

“A vida moderna é um mar de imagens. Nossos olhos são inundados por figuras reluzentes e blocos de texto explodindo sobre nós por todos os lados”. As duas primeiras frases do novo livro da ensaísta norte-americana Camille Paglia me capturaram. Paglia literalmente explodiu no mundo inteiro como polemista nos anos 1990, com o livro Personas sexuais (Companhia das Letras), por meio de uma leitura arrojada e muito particular das relações entre arte e sexualidade na história. Ela continua assim: “O cérebro, superestimulado, deve se adaptar rapidamente para conseguir processar esse rodopiante bombardeio de dados desconexos. A cultura no mundo desenvolvido é hoje definida, em ampla medida, pela onipresente mídia de massa e pelos aparelhos eletrônicos servilmente monitorados por seus proprietários (...) Como sobreviver nesta era da vertigem? Precisamos reaprender a ver”.

Paglia volta às manchetes por aqui em função do lançamento da versão brasileira de seu livro mais recente, Imagens cintilantes – uma viagem através da arte, desde o Egito a Star Wars (204 p.; R$ 49; Ed. Apicuri). O livro compõe-se de um ótimo texto de abertura e 29 ensaios curtinhos dedicados a obras de arte específicas ao longo da história (ainda bem que as reproduções em quatro cores são de qualidade, porque fundamentais para a leitura dos textos). Uma escolha personalíssima e sempre enriquecedora, inovadora, surpreendente.


Camille Paglia, autora de Personas sexuais e do recém-lançado Imagens cintilantes [foto: divulgação]

Quero chamar a atenção para este dado inicial das palavras dela acima citadas, só que transportando-as para a música. Bombardeios sucessivos, desconexos, quase sempre nos desviam de qualquer tentativa de nos concentrarmos numa audição completa de uma obra musical. É difícil fugir da música como papel de parede sonoro. O telefone toca, sinais de mensagens, novos e-mails, o Facebook... Esta música não cabe mais em nosso vertiginoso século XXI – já ouvi esta frase imbecil repetida muitas vezes. Até a vetusta Deutsche Grammophon tem bancado artistas oportunistas que fazem vinhetas e dão uma de papagaios-de-pirata em cima das obras-primas do passado, reduzindo a 2 ou 3 minutos as Quatro estações, um Brandenburgo ou movimento final da Nona sinfonia. Cabe sim. Mas tente lembrar a última vez em que você ouviu de cabo a rabo uma sinfonia, uma sonata ou um concerto.

A resposta vai estar não no seu dia-a-dia, mas numa sala de concerto. Aquelas duas horas que você passa lá são o único meio, atualmente, de focar toda a sua atenção e sentidos numa música. Mesmo assim, gaiatos e desavisados ainda deixam seus celulares ligados, provocando vexames e desconcentrando o público inteiro. A certa altura do ensaio inicial, Camille Paglia diz que “a arte usa os sentidos e a eles fala”. Por isso a sala de concertos é perfeita para antenarmos os nossos sentidos com os sons produzidos no palco. Sem nenhum intermediário, em linha direta.

Duas outras afirmações dela dão o que pensar. A primeira é que “nada é mais batido do que o dogma liberal de que o valor de choque confere automaticamente importância à obra de arte”. Claro, evidente, mas quase nunca levado em conta. Isso acontece muito na música contemporânea. As obras estreiam e muitas vezes são descartáveis, clonagens do passado, remoto ou recente. Uma ou outra ficarão. Mas qual ficará? É preciso mostrá-las ao público ao menos uma vez. Afinal, merecem ser expostas. Caso contrário, os últimos quartetos de Beethoven, para ficar num exemplo-limite, teriam ido direto para a lixeira.

Última dica preciosa de Camille Paglia: “No século XXI, estamos em busca de significado, não de subvertê-lo”. Ela aproveita e dá uma porrada na velha vanguarda: “O mundo da arte, hipnotizado pelos heroicos anais da velha vanguarda, está vivendo no passado”. Tudo que ela diz refere-se explicitamente às artes visuais. Mas cai como luva no universo musical... Desapegar-se da vanguarda do passado não significa necessariamente amarrar seu jegue na banalidade pós-modernista. Como ela diz, o mote no nosso século pode ser mais simples, já que as cabecinhas bombardeadas pelas mídias digitais estão confusas: precisamos garimpar “o significado”, ou seja, conhecer primeiro, para criar algo novo depois. Lição simples? Talvez. Mas pouco praticada hoje em dia.

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João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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