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Prazeres futuros (4/11/2014)
Por Jorge Coli

Opéra Magazine é uma revista de grande impacto e importância para o mundo lírico. É mensal, publicada na França, e nas últimas páginas anuncia uma agenda internacional de espetáculos. Eu sempre ficava melancólico quando lia a seção América do Sul, porque ela divulgava apenas as produções do Teatro Municipal de Santiago, no Chile, e as do Colón, em Buenos Aires, Argentina.

Mas no último número, junto a esses dois teatros ilustres, estava lá o Theatro Municipal de São Paulo e a ópera programada para novembro. Excelente coisa: com isso, a importância do Municipal paulista se projeta amplamente e os apaixonados por ópera do mundo inteiro que venham a São Paulo poderão melhor programar seus períodos de visita.

Não sei como essa inserção na agenda da revista se faz; suponho que haja um esforço por parte do teatro para tornar conhecidas suas atividades. Está claro que uma condição prévia é uma programação séria, estabelecida de maneira confiável, o que o Municipal vem fazendo. Não apenas ele, porém. Também o Theatro São Pedro, na capital paulista, tem suas óperas previstas com antecedência, com programa bem agendado. Não seria o caso de comunicar essa programação à revista, com insistência? Seria muito bom ver os dois teatros figurando nessa publicação tão prestigiosa.

O Municipal de São Paulo termina sua temporada de 2014 com a Tosca, de Puccini, que tem estreia no dia 29 de novembro. Completa um percurso composto pelos mais conhecidos e assentados títulos do repertório. Além da temporada oficial, havia um projeto conjugado com a Orquestra Experimental de Repertório demonstrando mais audácia, que anunciava Fome de bola, de Francis Hime, e, sobretudo, Satyagraha, de Philip Glass, produções que infelizmente não se concretizaram.

Mesmo sem essas duas promessas não cumpridas, é evidente que o Theatro Municipal de São Paulo iniciou uma fase áurea. A qualidade dos espetáculos é muito alta. Assim, próxima Tosca conta com uma grande estrela, o tenor argentino Marcelo Álvarez, cuja voz ganhou, nestes últimos anos, corpo e dramaticidade: ele tornou-se um Cavaradossi já histórico.


O tenor argentino Marcelo Álvarez como Cavaradossi, em montagem do La Scala, em 2012 [foto: divulgação]

Sua Floria Tosca será Ainhoa Arteta, sólida soprano espanhola que circula pelos mais importantes teatros internacionais. Muito estimulante será descobrir a Floria da segunda distribuição, a jovem lituana Ausrine Stundyte. Ela já enfrentou papéis pesados como Kundry, de Parsifal, ou Katerina Ismailova, de Lady Macbeth do distrito de Mtzensk. Seu Mario Cavaradossi será o musical Stuart Neill, que nos ofereceu, no começo do ano, um Manrico vocalmente requintado na produção do Trovatore, de Verdi.

Para o ano que vem, as perspectivas são excelentes. Nada que tenha a popularidade estrondosa da Tosca, Cavalleria, Pagliacci, Carmen ou Trovatore.  As óperas mais conhecidas serão Otello, de Verdi, Eugene Onegin, de Tchaikovsky, Manon Lescaut, de Puccini, e Così fan tutte, de Mozart. Mas haverá ainda a descoberta de Ainadamar, do argentino Osvaldo Golijov, e Um homem só, de Camargo Guarnieri, uma dobradinha latino-americana. Ainadamar, composta em 2003-2005, com música intensa, colorida, passional, conheceu gravação em 2006 pela Deutsche Grammophon, com a maravilhosa Dawn Upshaw encabeçando o elenco. Um homem só não teve gravação alguma até hoje, e é ainda menos conhecida. Obra de um dos máximos compositores brasileiros, com libreto de Gianfrancesco Guarnieri, estreou no Rio em 1962, foi retomada pouquíssimas vezes – pelo que sei, apenas duas: uma no Rio (1976), no Teatro João Caetano, outra em Ipatinga, no Centro Cultural Usiminas (2005). Trata-se, portanto, de uma autêntica descoberta. Já era tempo que o Municipal de São Paulo a incluísse em sua programação.


Sibyl Sanderson, Mary Garden e Lina Cavalieri, três divas que encarnaram a bela Thaïs [fotos: reprodução]

Enfim, outro título raro, Thaïs, de Massenet. O interlúdio do segundo ato, a celebérrima Meditação, que todos os violinistas amadores deste mundo já massacraram, e que é incluída em qualquer CD com “música espiritual”, é uma exceção, o único trecho verdadeiramente conhecido da ópera. Algumas sopranos cantam a maravilhosa ária Dis-moi que je suis belle em seus recitais. O resto da ópera, apesar de algumas excelentes gravações integrais, é bastante ignorado, e são raras suas montagens: ela está ausente do Municipal desde 1951. É obra voluptuosa, misturando sensualidade e misticismo em espírito decadentista. Suas primeiras intérpretes, além de grandes vozes, possuíam beleza física: Sibyl Sanderson, criadora do papel na ópera de Paris; Mary Garden, mítica primeira Mélisande, a primeira Thaïs no Metropolitan de Nova York; Lina Cavalieri – “la donna più bella del mondo”, para retomar o título do filme dirigido por Robert Z. Leonard consagrado à biografia (fantasiosa) da grande cantora –, que encarnou o personagem pela primeira vez em Milão. Elas podiam, sem medo, dirigir-se ao espelho para perguntar: “Diga-me se sou bela, se serei bela eternamente”.

[Confira aqui os detalhes da programação 2015 do Theatro Municipal de São Paulo]

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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