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Elixir da juventude (11/11/2014)
Por Jorge Coli

A música conserva os seus intérpretes. São tantos os velhinhos muito velhinhos que vivem em plena forma e plena atividade tocando ou regendo com as forças da juventude. Senão, vejamos:

- Mieczyslaw Horszowski, falecido aos 101 anos, seu último recital foi em 1991, com 99;
- Arturo Toscanini, nascido em 1867, deu o último concerto com 87 anos e morreu com 90;
- Vlado Perlemuter, 98 anos no momento de sua morte, tocou até os 90;
- Magda Tagliaferro deu recitais lendários até pouco antes de morrer, com 93 anos;
- Mesma coisa para Arthur Rubinstein, falecido aos 95;
- Os cantores perdem a voz mais cedo, embora haja o caso excepcional de Magda Olivero – 104 anos no momento de sua morte – cantou até os 90;
- Georges Prêtre continua regendo com 90 anos;
- Entre nós, Olivier Toni é um jovem em plena criação, animando seu Festival de Prados com 88 anos de idade.

Esta lista foi composta arbitrariamente, com os nomes que me vinham à lembrança. Deve haver certamente muitos outros – Nadia Boulanger, Leopold Stokowski – que os leitores poderão completar por si mesmos. Não é uma regra, mas essa energia vital que habitou e habita a longevidade de tantos músicos faz pensar. Talvez a música conserve mesmo.

Nas últimas duas semanas os concertos da Osesp trouxeram um desses casos, o do maestro Stanislaw Skrowaczewski, hoje com 91 anos. Pude assistir ao concerto do dia 6, na Sala São Paulo.


Skrowaczewski em ensaio recente na Sala São Paulo com a Osesp e Akiko Suwanai [foto: divulgação]

Skrowaczewski avançou com dificuldade, atravessando a orquestra com passos curtos, hesitantes, corpo retorcido. Pensei na frase de Winckelmann: “a velhice é o momento no qual a natureza desfaz sua obra”. Lembrei-me de um derradeiro recital de Perlemuter em Roma, em que chegou ao piano de maneira trôpega e não pode se abaixar para pegar uma rosa que lhe fora atirada. Mas tocou divinamente: seus dedos, seu coração, sua mente não haviam envelhecido.

Foi a mesma coisa com Skrowaczewski. Quando subiu ao pódio, a velhice o abandonou. Ele deu um Brahms tão preciso, tão lírico e enérgico que arrebatou o público.

Skrowaczewski regeu de memória, sem falhas, com uma gestualidade admirável de nitidez e justeza.  Não era um velhinho regendo, admirável porque velhinho. Era um grande maestro, em plena posse de todos os seus meios.


Stanislaw Skrowaczewski recebe os cumprimentos da Sala São Paulo após o concerto do dia 6 de novembro

O Concerto nº 27 de Mozart, cujo solista foi Lars Vogt, jovem de 44 anos, acrescentou à noite um incomparável momento de sutilezas, tanto no piano quanto na orquestra.

O maestro trouxe também uma obra rara, a Abertura trágica do compositor polonês Andrzej Panufnik, expressão das angústias criadas pela segunda guerra mundial.

Skrowaczewski diz que sua saúde é fraca, mas seu espírito é forte, de onde tira suas energias. O mais espantoso é que ele foi adquirindo o estatuto de estrela internacional há menos de 20 anos, quando gravou as sinfonias de Bruckner com extremo cuidado filológico e foi aclamado pela crítica. Skrowaczewski declarou recentemente a um repórter: “De repente, parece que começou uma nova era para mim. As críticas que tenho obtido nos últimos cinco ou seis anos são incríveis. Isso faz com que eu avance.”

Durante sua vida, ficou numa relativa obscuridade porque sempre foi avesso à autopromoção. Demorou para ser de fato descoberto. Antes tarde do que nunca. Viva a longevidade musical!

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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