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Claudia Toni fala sobre o Festival Sesc de Música de Câmara (25/11/2014)
Por Camila Frésca

Nesta semana, o Sesc dá início a um evento que tem tudo pra se tornar memorável: entre 26 de novembro e 7 de dezembro acontece a primeira edição do Festival Sesc de Música de Câmara, com 45 concertos em dez unidades, entre a capital o interior do estado. A ideia é trazer a música de câmara para o centro da atividade musical e mostrar ao público as sonoridades camerísticas como o lugar do frescor musical, da experimentação e da ousadia. Para tanto, foram selecionadas doze atrações que têm em comum a excelência musical e uma performance que procura ir além do trivial.


Quinteto Calefax Reed, uma das principais atrações do Festival Sesc [foto: Marco Borggreve/divulgação]

A curadoria do evento é de Claudia Toni, especialista em políticas públicas para a cultura, que deu uma entrevista exclusiva para o Site e Revista CONCERTO. Leia abaixo.


Por que um festival de música de câmara?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que ao Sesc e a mim ocorreu que é necessário ampliar e mudar a oferta de música clássica, construindo alternativas e formando novos públicos. Afinal, o Brasil assiste ao crescimento ininterrupto do contingente de jovens estudantes de música – e esse crescimento é ainda mais visível no Sudeste – e que querem se profissionalizar. Todos sabemos que o universo de orquestras é finito, não só aqui mas no mundo todo.

De outro lado, é fácil observar que a vida musical das pequenas e médias cidades fora do Brasil se dá em espaços menores, para os quais a música de câmara é a grande estrela. Às vezes, nos iludimos pensando que nos EUA e Europa todas as cidades mantêm orquestras e grandes salas. E isso não é verdade. Lá, há algumas dezenas de anos, construiu-se um mercado enorme para os artistas que praticam a música de câmara. Ela se constituiu no ganha-pão da grande maioria dos profissionais da música clássica. Com um ou dois programas diferentes, um quarteto gira em turnês e acaba por fazer 30, 40 concertos – e às vezes bem mais que isso – ao longo do ano.

Essa, portanto, deveria ser a alternativa para ver ampliada a programação musical das cidades brasileiras e, mais que isso, a grande oportunidade de carreira para várias centenas de jovens brasileiros. Acrescente-se a isso que programações organizadas com grupos menores cabem nos orçamentos municipais.

Tradicionalmente, a música de câmara ocupa um reduzido espaço em nossas programações. A que você atribui isso?
Eu tenho observado que, no Brasil, mais e mais a música clássica é identificada com a música sinfônica. Para o espectador médio, não especializado, a associação é imediata. E, sabemos todos, o repertório para a música de câmara é vastíssimo, imensamente maior que o sinfônico. Como o público depende daquilo que lhe é oferecido como alternativas culturais, ele acaba consumindo e identificando a música clássica com as sinfônicas, já que elas predominam.

Poderia explicar qual o critério de escolha dos artistas dessa edição?
Desde minhas primeiras conversas com Danilo Miranda, diretor do Sesc, sugeri que o festival deveria ser plural... Minha intenção era mostrar que uma das grandes qualidades da música de câmara era a intimidade da escuta, mais concentrada, mais abstrata, que pede do ouvinte-espectador uma atenção de outra ordem. Mais ainda, eu queria que conseguíssemos mostrar como ela pode ser diversa, como ela pode proporcionar a descoberta de um sem número de possibilidades de vivências musicais. Ele acatou de pronto e identificou no festival um projeto à feição do Sesc. Eu também queria que a programação incluísse intérpretes que nunca ou raramente se apresentaram para as plateias do Sesc e pretendia que o público pudesse conhecer uma das mais típicas formações da música de câmara – o quarteto de cordas – sob abordagens completamente distintas.

Havia ainda algo bastante particular a explorar. Em 2013, tive a oportunidade de visitar uma cidade polonesa, Wroclaw, onde há instigante e vasta produção musical de diferentes gêneros, mas com qualidade altíssima. Foi lá que conheci o Song of the Goat Theatre, uma extraordinária companhia teatral que produz espetáculos impressionantes, sempre construídos com a música. De lá vêm também o Quarteto Lutoslawski, dedicado ao repertório para cordas, e o conjunto Karbido, com uma trajetória cheia de experiências ligadas ao rock, à poesia, à criação de trilhas para filmes.

Eu sempre associei a música popular brasileira à música ‘de câmara’. É claro que todos sabemos que a música popular do Brasil, no fundo, era nossa música de câmara... Aquela que se fazia nos saraus, nas casas de família, exatamente como na Europa a família se juntava para tocar um trio de Brahms... Portanto, sempre pensei que o festival deveria ter pelo menos um grande músico popular, que desse ao ouvinte exatamente essa medida. Toninho Ferragutti, para mim, está hoje entre os melhores solistas da música. Eu também não queria que a voz não estivesse presente no festival. Mas eu pretendia que viesse da forma menos usual possível. Foi daí que pensei no Anonymous 4, que nunca veio ao Brasil, apesar do excelente trabalho que faz e do repertório interessantíssimo que reuniu.

Estava presente também desde o início a premissa de que os intérpretes deveriam pertencer a diferentes gerações, não só para que o público pudesse apreciar o que vem a ser a interpretação nas mãos de quem começa a construir seu universo sonoro, mas também pudesse entender o que vem a ser a consolidação de um estilo de interpretação, uma marca registrada. Fica bem fácil entender lembrando que Cristian Budu e Cristina Ortiz são dois dos brasileiros a integrarem o festival. Cabe, a ela, aliás, a abertura em São Paulo, maneira que encontramos de homenageá-la e reconhecer a excelência de sua arte.

Há grupos no festival que fogem às classificações tradicionais ou que apresentam repertórios tradicionais de forma mais arejada. Acha que essa é uma forma de atrair um público mais amplo e/ou jovem para a música de concerto?
Da mesma maneira que queríamos ter diferentes gerações de intérpretes, não abrimos mão de incluir músicos que estejam produzindo música escrita recentemente e, certamente, bem distante dos padrões tradicionais. O Quarteto Lutoslawski, por exemplo, faz um programa só de autores dos séculos XX e XXI, incluindo obra escrita por um de seus integrantes. Já o Kronos, veterano e provavelmente mais famoso quarteto do mundo, fará três programas diferentes, repletos de compositores que, certamente, nunca foram executados entre nós. Eu desconfio que nossos programadores, especialistas, músicos não percebem que a escuta dos jovens mudou. Ela é muito mais ampla e receptiva, muito menos preconceituosa e muito inclusiva. Ao ignorar esse fato, eles desprezam um contingente enorme de pessoas que podem ser ganhas para a sofisticação, variedade e exuberância da música de câmara.

Outro diferencial é o número de concertos: a ideia é aproveitar ao máximo um grupo estrangeiro que aporta por aqui, exibindo-o para diferentes públicos?
Certamente queríamos que os conjuntos visitantes se apresentassem muitas vezes para fazer valer o investimento na viagem e permitir que mais gente conhecesse o trabalho que fazem. O quinteto holandês Calefax Reed, por exemplo, além de quatro concertos para adultos, fará dois concertos para crianças. E esses concertos para crianças – Fábrica de Música – merecem ser vistos. Eles não proferem uma única palavra e fazem um dos mais bonitos concertos que já vi, encantando a plateia. Mas a nossa preocupação não era tanto o número de concertos de estrangeiros... Era o número de concertos dos brasileiros!

Preparar um concerto de música de câmara é um processo trabalhoso, que demanda não só ensaios exaustivos, mas também uma prática sólida de convivência e compartilhamento. Assim, encomendar a um grupo um determinado repertório e fazê-lo tocar uma só vez é um completo desperdício de energia, um desserviço para a música, quase um crime... E eu volto lá para a sua primeira pergunta: é preciso construir uma estrutura que dê oportunidades para que novos conjuntos de câmara surjam, para que enfrentem repertório inexplorado e o executem dezenas de vezes.

É isso, aliás, que dá maturidade ao conjunto, coesão à sua interpretação, amadurece sua arte. Eu gostaria que o Quarteto Carlos Gomes e o Brasil Guitar Duo, ambos no festival, tivessem assegurados, anualmente, mais de 50 concertos só no Brasil. E, claro, não só eles!

Quais são suas expectativas em relação ao festival? Ele deve passar a fazer parte da agenda do Sesc?
Por diferentes razões, desde a primeira vez que pensei nesse festival, eu mirava nos jovens. Lá em casa, há dois sobrinhos que se encaminham para a música. Mas ao meu redor há os milhares de integrantes do Guri Santa Marcelina, do Neojiba, da Emesp, da Escola Municipal de Música, para citar só alguns. Porém, há milhões de jovens hoje que só consomem musica péssima e a quem não é permitido o contato com “outras músicas”. Note bem que não falo somente dos jovens pobres de nossas periferias. Numa certa medida, acredito que os jovens das classes médias e abastadas consomem música ainda pior.

O festival, portanto, é dedicado a eles e eu sonho que eles acorram aos concertos, pois terão experiências incríveis. Eu imagino que experiência extraordinária será para um jovem ouvir os Músicos de Capella num programa inteiro dedicado a Bach! Mas que os mais velhos não se sintam alijados! De certa maneira, a abstração e o cuidado em ouvir uma música tão densa e bem escrita é privilégio dos maduros... Eles têm mais tempo para dedicar à música, pois já criaram os filhos e trabalham um pouco menos... e eles serão muito bem vindos porque lhes preparamos várias surpresas, muito além do óbvio a que estão acostumados por nossas orquestras e sociedades de concerto.

E como tenho certeza que o festival vai proporcionar grandes momentos a todos, espero que ele integre a agenda do Sesc para sempre e cresça, invadindo outras unidades e cidades próximas a elas.

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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