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Fim de ano (22/12/2014)
Por Jorge Coli

O último concerto de 2014 – pelo menos para mim – foi a Sinfonia nº 4, de Mahler, que ofereceu a Orquestra do Theatro São Pedro. A orquestra está fenomenal, em grande progresso. Metais rutilantes, madeiras em grande forma, cordas suntuosas – que notável violinista é seu jovem spalla, Ariel Sanches, 23 anos (ouça aqui sua interpretação como solista no primeiro movimento do Concerto de Kachaturian), sonoridade de mel, precisão, agilidade. Tinha tudo o que é necessário para um excelente Mahler.

Ou melhor, tudo não. É preciso também um maestro de qualidades excepcionais. Lá estava Luiz Malheiro, mahleriano como poucos, capaz de dar sentidos paisagísticos a essa obra tão poética, vienense da gema, derivando do século XVII como fonte de inspiração, com um perfume anunciando o Cavaleiro da rosa, de Richard Strauss, ópera estreada 11 anos depois da sinfonia de Mahler.


O compositor Gustav Mahler, em fotografia de seu compatriota Moritz Nähr [imagem: reprodução]

Foi um concerto requintado, fascinante, um regalo. Apenas a solista, soprano italiano Luisa Giannini, mostrou-se muito aquém da grande qualidade instrumental. O envelhecimento do timbre, o vibrato descontrolado, o timbre sem cor não correspondiam em nada à luminosa voz da infância que o poema – extraído da reunião de poesias populares Des Knaben Wunderhorn – exige.

Mas, enfim, o escrínio sonoro para a voz que intervém no final era tão belo que reduziu bastante o senão infeliz.


Quem gosta da música de Mahler, e na verdade mesmo quem não gosta, deveria ouvir duas gravações históricas, verdadeiramente prodigiosas da Sinfonia nº 4. A de Hidemaro Konoye, maestro japonês, responsável pelo primeiro registro sonoro dessa obra, em 1930, com a New Symphony Orchestra, que depois se tornaria a Japan Symphony Orchestra. Eiko Kitazawa, a solista, é capaz de iluminar sua voz com matizes irisados. Tudo traduz a mais bela poesia.

A outra gravação é de Willem Mengelberg, em 1939. Esse maestro lendário, amigo pessoal de Mahler, selecionou sua cantora favorita, Jo Vincent, soprano de voz calorosa, habitada por uma inocência infantil. Nunca a obra soaria com tanta liberdade inspirada, rapsódica, como aqui.

A primeira interpretação pode ser ouvida aqui; e a segunda, aqui.

Nelas há certos traços estilísticos que são considerados fora de moda – mas o que é a moda? Quem sabe esses traços voltem, em tentativas filológicas de autenticidade, tais como se faz hoje com a música barroca. Está claro que a técnica não tem a limpidez sonora de hoje, mas o que é a técnica, quando a música está lá dentro perfeitamente audível?

Uma interpretação comovente dessa sinfonia é a do próprio Mahler ao piano, numa redução do trecho que comporta a ária do soprano. O compositor não deixou nenhum registro em disco. Mas no início do século XX, a firma M. Welte & Söhne, especializada em instrumentos mecânicos, inventou o piano Welte-Mignon, uma pianola altamente aperfeiçoada. O intérprete, ao tocar, perfurava um rolo de papel. Depois, era possível reproduzir, com exatidão, a dinâmica sonora, os andamentos escolhidos. Perdia-se algumas nuanças do toque, mas muitos dos grandes compositores ficaram entusiasmados com o instrumento, entre eles Debussy. Saint-Saëns, Grieg e Mahler. Eles puderam nos legar suas visões de algumas obras.

Assim, a interpretação de Mahler mostra uma concepção muito livre se sua sinfonia, que se aproxima bastante da de Mengelberg. Aqui vai o link para essa reprodução mecânica da arte de Mahler.


Nelson Rubens Kunze, diretor da Revista CONCERTO, já escreveu muito bem sobre a Tosca, última ópera apresentada no Theatro Municipal de São Paulo. Gostaria apenas de acrescentar algumas percepções minhas a respeito do espetáculo.

As vozes, como disse Nelson Kunze, foram estupendas. Eu tinha uma lembrança já antiga de Ainhoa Arteta como uma cantora de registro mais leve, intérprete de Mimi, de Violeta. Sua voz evoluiu para uma textura mais dramática, adquiriu uma aspereza poderosa, e com ela, mais caráter e convicção. Lembrou-me a grande arte de Raina Kabaivanska. Ouça-a aqui no Vissi d’arte. No Municipal, ela quase roubou a cena, inda mais que seu talento teatral se impôs desde o momento em que pisou no palco. Ao contrário, Marcelo Álvarez é medíocre ator mas sua voz abençoada fez esquecer seu desajeitamento.


Ainhoa Arteta no segundo ato de Tosca, no Theatro Municipal de São Paulo [foto: Virginio Levrio/divulgação]

Agora, algo difícil de compreender. Que venham grandes artistas estrangeiros a São Paulo encarnar os protagonistas das óperas, excelente. Mas por que trazer da Itália o jovem e simpático Massimiliano Castellani para interpretar Angelotti, papel curtíssimo com exigência vocal quase nula? Pior: fazer vir outro cantor italiano, Luca Casalin, para o papel ainda mais secundário de Spoletta? Com os custos que isso significa? Só consigo imaginar, como causas, as pressões de empresários (“OK para tal cantor estrela, desde que no pacote vá junto fulano e beltrano”). Seria isso?

Quanto à montagem: Marco Gandini decidiu situar a Tosca em torno de 1960. Aposta difícil, já que sua história se inscreve numa trama bem situada no tempo.

O primeiro ato foi o mais desastrado. Sant’Andrea della Valle virou uma igreja em concreto, brutalista, em que os personagens se movimentavam sem efetiva direção de atores.

O mais engraçado foi a substituição do quadro que Cavaradossi deve terminar por um nu feminino... em escultura! Primeiro que, nem depois do Concílio Vaticano II uma figura tão erótica entraria numa igreja. Depois, era divertido ver o pobre artista tentando pintar uma estátua! Essa modificação atesta a força de uma lei não escrita dos diretores de cena atuais: sobretudo, não fazer como diz o libreto, e buscar, a qualquer custo, a originalidade, mesmo que ela seja absurda e fácil.

O segundo ato foi mais convincente. A transposição da cena para uma sinistra repartição de militares torturadores sublinhava a formidável atualidade política de Tosca: até hoje, e há poucas décadas mais precisamente no Brasil, ocorriam essas violências abjetas. No entanto, revelar o porão em que Cavaradossi era submetido ao suplício foi uma falsa boa ideia. O terror é muito mais violento quando imaginado, e a cena mimada fazia com que se dissipasse a concentração necessária do espectador, que deve estar focada no episódio (e que foi regrada por Puccini como o mecanismo de um relógio preciso). Quando, porém, o porão desapareceu, a força da concepção cênica se impôs.

O último ato introduziu também alguns derivativos para a violenta concentração do episódio, mas com menos perturbação.

Atravessava tudo a maravilhosa encarnação de Arteta como sixties diva, em figurinos deliciosos.

Apelo desesperado: de uma vez por todas seria preciso dar um jeito nas traduções das legendas. Os libretos das óperas eram belamente escritos, poéticos, e necessitariam de traduções que lhes fizesse jus.

Ocorre que as traduções não apenas banalizam tudo, como incorrem em erros escancarados. Alguns são menos importantes (traduzir scagnozzo [padre pobre] por coroinha; fiuta due prese di tabacco [toma duas pitadas de rapé] por sente cheiro de cigarro; fruscio [farfalhar] por movimento; civetta [assanhada] por devassa etc.). Mas quando se chega a occhi cilestrini – olhos azul celeste – e se traduz por olhos celestiais, está se tocando num ponto crucial: os olhos azuis da pintura desencadeiam os ciúmes de Tosca, que os tem negros. Transformá-los em celestiais – adjetivo genérico – é impreciso e errôneo.

Paro por aqui, mas não há quase página do libreto traduzido no programa em que não se possa fazer algum reparo.


Nelson Rubens Kunze também escreveu muito bem sobre As bodas de Fígaro no Theatro São Pedro. Além disso, avisou-me que, como eu redigira um pequeno texto de apresentação publicado no programa do teatro, havia conflito de interesse, e seria melhor que eu não comentasse o espetáculo.

Não comento. Estou de acordo com ele em tudo, sobre a regência inspirada de Luiz Malheiro, sobre o ótimo elenco, sobre o belo cenário e a montagem dinâmica.


Por fim: ótimas festas, um 2015 feliz e musical para todos nós!

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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