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Os números da música clássica em 2014; ou “The winner is... Beethoven!” (12/2/2015)
Por João Marcos Coelho

Talvez porque os números jamais sejam favoráveis à música clássica, erudita ou de concerto há muitos anos, o fato é que não gostamos de usar o critério da quantidade para julgar uma criação ou uma performance. Ela continua, como sempre, ocupando em torno de 2 a 3%, na melhor das hipóteses, da música gravada (em streaming via taxa fixa mensal de pagamento, download ou até na versão física, também conhecida como CD).

Os números que pesquei num portal no comecinho de janeiro passado, no entanto, referem-se ao nível assustadoramente passadista das “internas” do universo clássico.

São os tais rankings pelos quais a maioria também tem urticária. Mas que eles são interessantes e curiosos, isso lá são. Mais: são indicadores seguros de como a música clássica é recebida do lado de lá do palco, ou seja, pelas distintas plateias.

Pego ao acaso alguns desses números para atiçar a curiosidade de vocês. Quem quiser pode ir ao www.bachtrack.com, um portal que coleta e indica “os melhores espetáculos de ópera, concertos e dança no mundo inteiro”, assim prometem eles.

Primeira constatação até que positiva: os maestros estão ficando mais jovens. Isto é, estão assumindo posições mais importantes com menos idade. Na lista dos 10 primeiros, há três abaixo dos 40 (Andriss Nelsons e Yannick Nézet-Séguin e, claro, Dudamel). Dois estão na casa dos 40: Alan Gilbert, que acaba de divulgar que não renovará seu contrato atual com a Filarmônica de Nova York, que vai até 2017, e Vladimir Jurowski. Três já são cinqüentões: Simon Rattle, Andrey Boreyko e Jaap van Zweden. Apenas um já é sexagenário: Kent Nagano. E o decano, imaginem, é Michael Tilson Thomas, com seus 70 aninhos.

Segunda revelação: três das dez sinfônicas pesquisadas são as campeãs em volume de concertos por temporada. Todas são norte-americanas (São Francisco, Filarmônica de Nova York e Chicago), e isso se deve ao esquema de três repetições de cada programa, como faz a Osesp por aqui.

Terceira notícia: os compositores mais executados estão ficando mais jovens, isto é, cronologicamente mais perto de nós. Em vez de gritar “Oba!”, dê uma olhadela na lista dos dez mais: Beethoven, o eterno campeão; Mozart; Bach; Brahms; Schubert; Richard Strauss; Tchaikovsky; Händel; Ravel; e Dvorák. O site quase celebra que Haydn saiu da lista dos mais tocados…


Beethoven, o eterno campeão, foi o mais interpretado em 2014 [imagem: Joseph Karl Stieler/reprodução]

Último ranking, o das obras mais tocadas nas salas de concerto no mundo inteiro em 2014. Veja quantas delas você assistiu ao vivo: O Messias de Händel; a Sétima de Beethoven; o concerto Imperador, também de Beethoven; a Eroica... de Beethoven; a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorák; o Don Juan de Richard Strauss; A oitava de Schubert, a Inacabada; a Quinta de Beethoven; e até certo ponto uma surpresa no décimo lugar: o Concerto nº 3... de Beethoven.

Caramba. Beethoven emplacou metade das dez mais em 2014. Está explicado por que nenhuma obra do século XX teria a menor chance de frequentar esta lista: os ouvidos do público querem mais do mesmo. Puxa, mas não há sequer uma beiradinha pro Bolero de Ravel... É assustador.

Clássicos Editorial Ltda. © 2015 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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