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Ótimo começo de ano musical em São Paulo (12/2/2015)
Por Jorge Coli

O ano musical começou forte em São Paulo. Neste início de fevereiro pude ouvir quatro formidáveis concertos.

O primeiro foi no Theatro Municipal, dia 1º: Pedro Halffter, espanhol, 44 anos, magro, testa alta, rosto anguloso e inspirado, compositor e maestro, diretor artístico da Real Orquestra Sinfônica de Sevilha, do Teatro de la Maestranza de Sevilha e da Orquestra Filarmônica de Gran Canaria, que em abril deve reger a Filarmônica de Berlim, estava à frente da Sinfônica Municipal de São Paulo.

O programa foi aberto com o interlúdio e dança da ópera La vida breve. Halffter vem de uma família ilustre de músicos espanhóis, e seu tio Ernesto Halffter foi discípulo de Manuel de Falla: a primeira obra brotou do modo mais idiomático e fervoroso, com entusiasmo dionisíaco.


O espanhol Pedro Halffter em ensaio com a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo [foto: divulgação]

Em seguida, Sayaka Shoji interpretou o Concerto para violino de Sibelius. Sakaya Shoji, com 32 anos, é uma estrela que se eleva, firme, no céu da música. Pequenina, magrinha, num vestido azul em que serpenteavam meandros prateados, tímida, aderiu imediatamente às delicadas sonoridades da orquestra. Seu violino canta com delicadeza, mas impõe os mais belos fraseados. O público imediatamente foi tomado pela música, cativado por uma apresentação que se revelava extraordinária. Para ter uma ideia da força artística dessa admirável artista, clique aqui, e ouvirá sua interpretação da Chaconne de Max Reger.

Enfim, o poema sinfônico Uma vida de herói, monumento musical auto-celebrativo de Richard Strauss: que maravilhosas cores Pedro Halffter soube extrair da orquestra! E que orquestra! Soou divinamente, levada pela brilhante direção. A obra contém um solo, longo e difícil: o spalla da orquestra, Pablo de Leon, tocou como poucos, com sua sonoridade rica de uma espessura corpórea, do melhor e mais capitoso vinho.

Clique aqui para ouvir a arte de Pedro Halffter, numa interpretação de Brahms-Schönberg, e aqui para ouvir Pablo de Leon tocando Bach.

*

O segundo concerto, dia 5, foi no teatro de Paulínia: a Osesp inaugurava sua itinerância pelo estado, sob regência de Isaac Karabtchevsky. Bela e muito brilhante noitada: um prelúdio da Bachianas nº 4 de uma intensidade inaudita; a rara Sinfonia nº 8, também de Villa-Lobos, revelação para muitos, interpretada com sentimento de premência: a Osesp correspondendo ao grande nível que sempre se espera dela, anunciou assim a gravação que deve fazer dessa obra sob a regência de Karabtchevsky. O concerto se concluiu com o Pássaro de fogo, de Stravinsky, que fez o público saltar nas cadeiras.

*

Um momento prodigioso em sentido próprio foi o do recital dado por Paulo Szot no Theatro São Pedro de São Paulo. Amigos e cúmplices de longa data, Szot e Malheiro, que dirigia a orquestra do teatro, demonstraram uma afinidade sem falhas, apresentando um programa particularmente bem escolhido. Começou com cinco canções de Des Knaben Wunderhorn: todos sentimos, de imediato, que estávamos diante de uma interpretação de altíssima categoria. Houve como que uma corrente elétrica que passou pela sala.

Szot fez prova de sua versatilidade: da violência autoritária que exprime no Conde Almaviva, das Bodas de Fígaro, passou à interioridade torturada de Onegin e à imensa dilatação lírica no Colombo, de Carlos Gomes. Concluiu magistralmente pela cena do adeus de Wotan, na Valquíria. A Orquestra do Theatro São Pedro, cada vez melhor, demonstrou sua sutileza no prelúdio do primeiro ato de La traviata, e sua rutilância no prelúdio do ato 3 de Lohengrin. Ao término do concerto era evidente a euforia feliz do público, carregado por tão belas emoções.

*

Enfim, de novo, no Municipal de São Paulo, no dia 8, domingo, John Neschling regeu a Nona de Mahler. Antes, teve a excelente ideia de trazer a obra (breve, 13 minutos) de um jovem compositor italiano, Cristian Carrara, 38 anos, intitulada Tales From Underground. Procurei na internet sobre o compositor: alguns críticos o associaram a Arvo Pärt, e é verdade que ele desenvolve longas frases lentas sobre as quais por vezes cai um polvilho de sons delicados. Mas a semelhança para aí. Carrara demonstra em sua música algo de italiano, uma expressão lírica prenhe de belos sentimentos. Há alguma coisa de pucciniano nessa bela composição: ela poderia ser enxertada sem destoar como um interlúdio de La rondine, por exemplo. Aqui, a obra gravada pela Filarmônica Arturo Toscanini.

Depois, o grande momento, a imensa Nona, de Mahler. Uma hora e meia de música sublime, em que a Orquestra Sinfônica Municipal e o maestro Neschling fizeram jus ao fantástico monumento sonoro, tão difícil, tanto nas tempestades mais veementes quanto nas exigências de sutilezas: o final, feito dos mais tênues murmúrios, foi conduzido e executado do modo comovente e perfeito.

Assim, compensando tantas notícias ruins que vão pelo mundo e pelo Brasil deste 2015, que começou tão cheio de tristes acontecimentos e apreensões, a música em São Paulo já soube, se não compensar, ao menos consolar. Que seja o prenúncio de muita coisa boa por acontecer.

Clássicos Editorial Ltda. © 2015 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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