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“Um homem só” e “Ainadamar” no Municipal de São Paulo (3/5/2015)
Por Jorge Coli

O Theatro Municipal de São Paulo teve a grande e histórica ideia de montar a ópera Um homem só, de Camargo Guarnieri. É uma das obras menos conhecidas desse compositor.

Na grande suma sobre Guarnieri, organizada em 2001 por Flávio Silva, ela é mencionada de raspão apenas duas vezes.

A primeira, por Vasco Mariz ( capítulo “Obras vocais”), em que se lê “Um homem só, tragédia lírica com libreto de Gianfrancesco Guarnieri, de 1960, estreada no Rio de Janeiro com menor êxito [do que Pedro Malasarte], dois anos depois.”

A segunda, por Osvaldo Lacerda, no capítulo “A obra coral”: “A outra ópera de Camargo Guarnieri, Um homem só, foi escrita em 1960, isto é, 28 anos após Pedro Malazarte. O próprio compositor a classifica como “tragédia lírica em um ato”. Gianfrancesco Guarnieri, que apesar do nome não é parente do compositor, é o autor do libreto em português. A ópera foi estreada em 1962 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Mais tarde foi novamente estreada nesse teatro, e cinco vezes em Buenos Aires (mas ainda não o foi em São Paulo, onde reside e trabalha o compositor). Destina-se a meio-soprano e barítono solistas, diversos comprimários, coro e orquestra. Assisti à sua estreia e a achei bela e muito bem construída, tanto do ponto de vista musical, como também do dramático. Causa um grande impacto emotivo e estético. O coro, que, segundo o libreto, representa “homens e mulheres do povo”, tem participação bem maior e mais importante do que em Pedro Malasarte. Ele não só participa da ação, como também a comenta contínua e apropriadamente.”


Coro Lírico com Rodrigo Esteves ao fundo, em Um homem só, de Camargo Guarnieri [fotos: divulgação]

Um homem só foi esquecido. Camargo Guarnieri, Gianfrancesco Guarnieri e seu pai, o maestro Edoardo de Guarnieri, regente da estreia, eram todos os três figuras essenciais da música paulistana: como foi possível que tenha sido necessário esperar 2015 para trazê-la ao Municipal de São Paulo?

Sua inclusão nesta temporada foi, portanto, propriamente histórica.

Acresce o fato de que não se trata, em nada, apenas uma curiosidade de erudição. É uma composição prodigiosa, uma das mais poderosas de Camargo Guarnieri.

O libreto de Gianfrancesco Guarnieri tem o perfume de sua época, emanado por concepções marxistas e existencialistas: a alienação do homem na sociedade capitalista e seu aniquilamento. A trama é alegórica, e depende inteiramente da música para obter eficácia dramática. Ora, é a música que constrói a força intensa: se Um homem só fosse dado como um oratório, sem montagem, a teatralidade sonora seria suficiente.

Cada episódio é caracterizado do ponto de vista musical, com os climas metamorfoseando-se sem perder a desesperada melancolia. A irônica entrevista com o psicanalista, comentada genialmente pelas madeiras, as pulsões rítmicas da cena com os operários, as dilatações líricas do dueto entre José e Rita, todos os momentos se sucediam, diversos, mas sem interromper a coerência do fluxo musical e teatral.

A obra foi formidavelmente servida pelos intérpretes. O maestro suíço-chileno Rodolfo Fischer regeu com vida e clareza uma Sinfônica Municipal perfeita na precisão e nas nuances.

Rodrigo Esteves, soberbo, Luciana Bueno, comovente e tão musical, eram os protagonistas. Uma pequena observação que em nada desmerece as grandes qualidades de Esteves: sua pronúncia colore em italiano algumas vogais e consoantes: Camargo Guarnieri faz sempre pensar em Mario de Andrade, que organizou, em 1937, um Congresso da Música Nacional Cantada. De lá para cá, vários trabalhos foram realizados a respeito, todos muito úteis de se conhecer.

Saulo Javan, Miguel Gerardi e Rubens Medina completaram o elenco de excelente maneira, assim como o Coro Lírico.

A montagem de Caetano Vilela, elegante, discreta, rigorosa, dando lugar à música, com grandes achados e maestria na iluminação, não poderia sem melhor.

Um espetáculo propriamente excepcional, em todos os seus sentidos.


Depois dessa primeira parte, a queda foi muito dura. Porque a comparação piorou muito as coisas.

É preciso ponderar, porém.

Ainadamar, do argentino Osvaldo Golijov, é uma ópera que, desde sua primeira apresentação no festival de Tanglewood, em 2003, tem sido executada em vários teatros do mundo, com intérpretes ilustres.

Reformulada pelo compositor, teve nova estreia em 2005 (Santa Fé), e montada por nada menos que Peter Sellars, um dos mais célebres diretores cênicos de ópera nos nossos dias.

Dawn Upshaw, divina cantora, tornou-se a grande intérprete de Margarita Xirgu.

Acrescente-se que o espetáculo, no Municipal, foi estonteante. A formidável concepção de Caetano Vilela, os maravilhosos figurinos e cenários, os bailarinos fantásticos, tudo reforçava a alta qualidade da produção. Cantores e atores também muito bons.


Cena da ópera Ainadamar, do argentino Osvaldo Golijov: “espetáculo estonteante; música indigente”

O problema é o resto. Ou seja, a música e o texto.

Uma hora e meia de lugares comuns cheios de bons sentimentos políticos. Morrer pela liberdade, sobreviver nos livros, falangistas malvados, republicanos bonzinhos, tudo concebido no didatismo mais simplório que vinha vazado nas palavras mais chochas. Incluindo um momento involuntariamente preconceituoso: Ruiz Alonso acusa García Lorca: “Es maricón!” (É bicha!), Margarita comenta que... o difamaram!

García Lorca era complexo e por vezes contraditório. No palco do Municipal virou um santo mártir de pureza transcendente, ideia reforçada pelos clichês que não cessavam.

A música é indigente. Ideias banais cheias de sentimentalismo. Orquestração pobre. Cores de um hispanismo tão superficial que fazem L’heure espagnole e Carmen parecerem a quintessência autêntica da mais verdadeira Espanha imaginária – o que essas obras de fato são.

Tudo se exauria anemicamente. A amplificação das vozes acentuava a pasteurização musical, tirando a vida que os cantores poderiam de fato oferecer. Amplificação que talvez nem fosse mesmo necessária, dada a leveza da orquestração.

Enfim, uma hora e meia interminável. Hora e meia de perplexidade diante de tão boas intenções tão desastradamente concebidas.

Resta saber as razões do sucesso dessa ópera, de sua aparição frequente em grandes teatros, das boas críticas que tem recebido.

Tenho para mim que seu sucesso vem justamente por causa de seus defeitos. Os bons sentimentos, o martírio do poeta, o maniqueísmo, os estereótipos de liberdade, a música tão easy listening, o exotismo tão fácil, o espírito libertário, os seres poéticos e superiores: tudo falso, mas tudo contribui para uma sedução sem compromissos. Um musical cabeça, intelectual e chic. Para que pedir mais?

Saí pensando como teria sido bom se Um homem só tivesse sido associada a, ou, para ficarmos numa Espanha de carne e sangue, social e apaixonada, a La vida breve, de Manuel de Falla.

Enfim, não se pode ter tudo.
 


Recebo o disco Poemas musicais do Oriente Médio, Musiqa Suryaa, com obras dos compositores sírios Shafi Badreddin e Elias Bachoura.

Os dois compositores têm a mesma idade, nascidos em 1972. Ambos tiveram formação no Instituto Superior de música, em Damasco. Mergulharam nas tradições locais e extraíram delas suas obras.

Não saberia analisá-las com qualquer propriedade – se é que sou capaz de analisar apropriadamente o que quer que seja. As referências me escapam completamente.

Posso dizer, no entanto, que o disco é completamente sedutor, e uma delícia.

Para ter uma ideia da musica do CD, clique aqui para ouvir Macedonia, com Elias Bachoura no oud (espécie de alaúde do Oriente Médio); e aqui para o Concerto para nay (flauta típica), com direção de Shafi Badreddin e solos de Moslem Rahal.


[Veja também]
Theatro Municipal de São Paulo apresenta dobradinha com Um homem só e Ainadamar
Óperas do Theatro Municipal revelam diversidade do gênero, de Nelson Rubens Kunze

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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