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Música e cinema (15/5/2015)
Por Jorge Coli

O concerto oferecido pela Osesp, na Sala São Paulo, no dia 14 de maio, foi, no sentido mais preciso da palavra, extraordinário.

Tão fora do comum, que teve uma apresentação especial e seu anúncio pela Osesp incorreu num erro.

A questão é a seguinte. As composições contemporâneas têm grande dificuldade para se manter no repertório das grandes orquestras. Lembro-me de uma – dupla – ironia de sir Thomas Beecham, referindo-se à acústica problemática, cheia de ecos, do Albert Hall e ao destino efêmero das obras recentes. Ele dizia “O Albert Hall é o único lugar em que se ouve seis vezes a música contemporânea”.

Além disso, é verdade que maestros menos convencionais, mais inventivos, são raros. Escolhem quase sempre obras de autores consagrados: Beethoven, Brahms, Debussy, Tchaikovsky e companhia bela. São autores e obras absolutamente necessários, e seria absurdo imaginar o mundo e a vida sem eles.

Mas há outros compositores, outras composições a serem explorados, além dos grandes gênios muito conhecidos. A inércia, a vontade de não incomodar a preguiça do público, transformam os nomes desses supremos criadores em rotina.

Sempre pensei que tesouros sinfônicos jazem esquecidos. São as partituras escritas para filmes, as trilhas sonoras.

Elas já existiam, na verdade, antes do cinema. No século XIX, muitas montagens prestigiosas de peças eram acompanhadas por música orquestral. Do fosso do teatro emanava música que acompanhava a ação, exatamente como fazem as trilhas sonoras. Eram chamadas de “música de cena”.

Algumas se incorporaram ao repertório dos concertos: Egmont, de Beethoven, para a peça de Goethe; Sonho de uma noite de verão, de Mendelssohn, para a comédia feérica de Shakespeare; A arlesiana (duas suítes) de Bizet, para o drama de Alphonse Daudet.


Prokofiev: sua trilha de Aleksandr Nevsky foi bem aceita também nas salas de concerto [fotos: divulgação]

Só sei, porém, de uma composição destinada ao cinema que se transformou em obra prezada pelo público e pelos intérpretes. É a trilha sonora de Aleksandr Nevsky, para o filme de Eisenstein, composta por Prokofiev, que a transformou em cantata.

Mais nada. Ora, quantas composições notáveis para o cinema não poderiam entrar num programa de concerto. Há grandes compositores, muito importantes para a história da música que foram para Hollywood ou que compuseram para as produções de seus países. Korngold, com Em cada coração um pecado, de Sam Wood, O Gavião do mar, de Michael Curtis, ou O príncipe e o mendigo, de William Dieterle; Nino Rota e toda sua colaboração com Fellini; Georges Auric, com Lola Montès, de Max Ophüls, entre tantos; Arthur Honegger e o Napoleão, de Abel Gance, Mayerling, de Litvak; Shostakovich, com o Hamlet (da qual Lev Atovmyan extraiu uma suíte), dirigido por Grigori Kozintsev.


John Williams é autor de grandes peças do cinema, mas suas obras ainda sofrem rejeição do público clássico

Além desses, há grandes gênios, conhecidos do público, mas que não entraram ainda nas salas de concerto pela porta da frente, por assim dizer: John Williams, Bernard Herrmann, Max Steiner, Dimitri Tiomkin, Miklós Rózsa, Franz Waxman, Henry Mancini, Ennio Morricone, entre vários outros.

Acrescento também que alguns nomes menos conhecidos compuseram para filmes B magníficas partituras, dentre os quais se destaca Leo Erdody, colega de Max Bruch na Academia de Música de Berlim, aluno do grande Joseph Joachim, e colaborador de Edgar G. Ulmer, fabuloso cineasta que só dirigiu filmes série B (entre eles a obra-prima A curva do destino).

Todo esse enorme introito para dizer o quanto lamento que tal patrimônio inestimável não seja mais explorado.


O francês Stéphane Denève à frente da Osesp, na Sala São Paulo: amável e competente maestro

Ora, o maestro francês Stéphane Denève é um dos raros que também está convencido da alta qualidade da música composta para cinema. Organizou um excelente programa para seu concerto, no qual não isolou essas composições num gueto exclusivo, mas as associou à Sinfonia fantástica, de Berlioz.

Na primeira parte, incluiu suítes extraídas de trilhas sonoras escritas por John Williams e Bernard Hermann.

Ouvidas por si só, ficou evidente o quanto são grandes obras. Talvez, apenas, elas pudessem ser mais longas, incorporando mais passagens. Não importa: como foi, foi um regalo.

Mas a raridade da inclusão dessas músicas no programa de uma grande orquestra acarretou um erro, como já disse. A Osesp anunciou: “Denève rege temas de filmes”. Não foi isso, felizmente.

Dizer que são obras a partir de temas de filmes pressupõe que alguém pegou um tema conhecido e fez um arranjo. Isso ocorre, é verdade, no mais das vezes, porém, com resultados desastrosos. Seria o mesmo que anunciar “temas de Carmen”, ou “temas de Chopin”.

Nada disso. Eram verdadeiras obras de William e Herrmann, tal como eles as escreveram. Não seus temas apenas, suas melodias. Denève chegou mesmo a se encontrar com Williams, que reviu para ele a partitura de A menina que roubava livros.

A exceção denunciou-se também na prudência amável do maestro. Ele fez uma apresentação geral do concerto em português, para depois passar a palavra a alguns músicos, que comentaram de modo muito simpático as obras a serem tocadas. Um modo de seduzir e alertar o público para o repertório cinematográfico.

Que intenso prazer ouvir uma bela orquestra como a Osesp interpretar com seriedade uma suíte extraída de Um corpo que cai ou de Encontros de terceiro grau.

O maestro Denève obteve nuanças, rubatos, numa força do discurso musical que se mostrou também na sua formidável interpretação da Sinfonia fantástica.

Quem sabe outros maestros não seguirão seu exemplo? A Orquestra Jazz Sinfônica já havia prestado um tributo a John Williams no ano passado, que não pude ouvir.

Seria grande pena que essas escolhas reaparecessem somente de modo raro e que a inteligência curiosa de Denève permanecesse como uma exceção.

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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