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Dois momentos de “Manon Lescaut” do Theatro Municipal de São Paulo (31/8/2015)
Por Jorge Coli

A ópera, é engraçado, às vezes pega, às vezes não. Grande elenco, grande orquestra, teatro internacional, e o resultado pode desandar no tédio. Ao contrário, montagem modesta, artistas menos renomados, montagens sem brilho, e a centelha, inesperada, parte.

A estreia de Manon Lescaut de Puccini, no último sábado, dia 30, no Municipal de São Paulo, era um espetáculo que não pegava.

No primeiro ato, Marcello Giordani, como Des Grieux, cantou um Donna non vidi mai constrangedor de tão ruim. O timbre se mantinha, mas a afinação era aproximativa, o vibrato muito descontrolado e a emissão bem pouco capaz de nuanças. Faltava-lhe também o carisma teatral capaz de fazê-lo passar por um adolescente 17 anos, ele que completou 52 em janeiro passado.

A entrada de Manon não melhorou muito as coisas. A uruguaia Maria José Siri tem uma constituição física sólida, que em nada sugere a delicadeza da frágil heroína. Vê-la fazendo trejeitos de mocinha envergonhada que acabou de sair do convento, fazendo nomes do pai estampando sorrisinhos afetados, era sentir o anúncio do pior.


Maria José Siri e Marcello Giordani como Manon Lescaut e Des Grieux [fotos: Heloísa Ballarini/divulgação]

Cenário discreto, simples, com a banalidade de uma enorme plotagem como pano de fundo reproduzindo uma fotografia de árvores – por que não a poesia de um belo telão pintado? Algumas mesas, cadeiras, figurinos de época, e os personagens se moviam numa movimentação convencional sem inspiração.

Salvava-se, de modo notável, a orquestra dirigida por John Neshling com nuanças sedosas, que faziam lembrar o quanto Puccini deveu à música francesa.

Segundo ato. A indiferença persistia, com direção de atores deixada por conta de cada um; aí, Paulo Szot se destacou graças à sua excepcional desenvoltura, justeza dos gestos e atitudes.

Manon canta In quelle trine morbide com grande pureza musical, belo timbre e voz perfeitamente adequada. Nos agudos, uma vibração cerrada introduzia um encanto acidulado. Canta bem, com musicalidade, mas com certa aplicação. Nem o personagem, nem o seu tédio, estavam ali.

A aula de dança introduziu uma pequena corte de espectadores grotescos, mas não engraçados, nem muito convincentes. Tudo continua com certa indiferença.

Até o início do dueto Tu, tu, amore? Tu? Não creio que exista música mais carnalmente erótica do que essa. Violentamente tomados pelo desejo, o casal amoroso enfim emerge em intensidade. O gênio de Puccini se impôs então, arrebatando tudo num incêndio apaixonado que iria perdurar até o término da ópera. Os defeitos na voz de Giordani não contavam mais – na ópera, a imperfeição do canto pode ser ultrapassada pela força interpretativa. Não contava mais seu físico: ele transformou-se num Des Grieux verdadeiro e intenso. Maria José Siri encontrou enfim sua autêntica Manon, arrebatada, sensual, abrindo com desespero a roupa de seu amado. O timbre caloroso, tão belo, correspondia aos sentimentos vívidos e poderosos.

No terceiro ato, depois de um maravilhoso intermezzo, não importava que a movimentação cênica nem sempre fosse feliz: o desespero doloroso estava ali, e o coração se comovia com a sorte da pobre Manon.


Siri e Giordani em cena do quarto ato de Manon Lescaut, de Puccini, no Theatro Municipal de São Paulo

O quarto ato começou engasgando com um incidente: o maestro ataca, a cortina se abre, mas logo depois se fecha! Interrupção, pausa, novo ataque e tudo recomeça. Vê-se uma duna ondulada de areia invadindo um palácio em ruínas, evocação da antiga vida opulenta de Manon, como memória de restos antigos e desgastados. Ressurge mesmo desenterrado da areia, o vestido magnífico dos tempos de esplendor. Foi o momento mais original e mais poético da concepção cênica.

Para além disso, Siri cantou com intensidade, convicção, secundada por um Giordani todo entregue ao seu papel. Tudo de fato musical, forte, comovente.

Manon Lescaut, que começara com maus auspícios, terminava incendiada por emoções. Agora, é esperar pelo que vai acontecer com o segundo elenco.


Ouça Maria José Siri na ária Sola, perduta, abbandonata, em 2014, do último ato de Manon Lescaut. E aqui Marcello Giordani em Donna non vidi mai, do primeiro ato, em 2009.


Segundo elenco
Que festa vocal foi a apresentação com o segundo elenco de Manon Lescaut no Municipal de São Paulo! Mais que vocal, musical, porque a regência do maestro Michelangelo Mazza, domingo, dia 6 de setembro, toscaniniana na sua energia apaixonada, fazia o fôlego sustar, diante das pulsões tão arrebatadas. A orquestra respondeu com fervor, e aplaudiu o maestro várias vezes durante o espetáculo.

Os principais intérpretes eram brasileiros com carreiras internacionais. Paulo Szot, que participou de todas as apresentações no papel de Lescaut, é um artista consumado. Talvez se pudesse notar um leve cansaço na voz, no volume menos potente da emissão, mas mantendo sempre a bela musicalidade e a bela convicção que é a dele.

Martin Muehle foi um fenomenal Des Grieux. A voz possui um metal brilhante, imperativo, irradiante. Ele impôs imediatamente seu personagem. Adriane Queiroz fez prova de um timbre aveludado, caloroso, constante dos graves aos agudos: voz ideal para o papel. Era maravilhoso ouvir a combinação dos dois parceiros, aço sobre veludo.

Vamos torcer para que eles voltem, voltem mais, voltem sempre ao Municipal.


[Veja também]
A produção de Manon Lescaut tem votação aberta no Ouvinte Crítico; participe

[Texto atualizado às 16h18 do dia 8/9/2015]

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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