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Uma aula com Jordi Savall (9/9/2015)
Por Camila Frésca

Na última semana, Jordi Savall tocou em São Paulo em dois concorridos concertos pela temporada da Cultura Artística. Entre as duas apresentações, realizou uma masterclass no Auditório do Masp, no qual ouviu três alunos do núcleo de música antiga da USP. A atividade foi aberta, e cerca de 170 pessoas, entre estudantes e profissionais da área, se reuniram na quarta-feira, dia 2, para ouvir os ensinamentos do músico catalão.

A audição se iniciou com a chaccone de um dos Quartetos parisienses de Telemann, para violino, flauta, viola da gamba e cravo. Jovens tímidos e bons músicos, eles logo foram interpelados por Savall por conta da disposição do grupo, que prejudicava, entre outras coisas, a projeção do som do violino em direção à plateia. Uma vez reordenados, ouviram a pergunta: “O que é uma chaccone?” Uma dança, alguém respondeu. “Alguém iria dançar com essa música?” E falou de ritmo e de como dar sentido ao discurso musical. “Na hora de tocar, pensem na música, não na técnica”.

Em seguida, Savall passou a ouvir os músicos individualmente – sempre com o apoio do cravo, tocado por Pedro Diniz. Gentil e de fala suave, Jordi Savall virava-se ao público para dar explicações, misturando espanhol, italiano e português. Diz que uma das maiores virtudes que um músico pode ter é a sensibilidade para perceber e corrigir rapidamente um erro – uma nota ligeiramente desafinada, por exemplo –, antes que o público sequer se dê conta. “Todos erram, somos humanos. Mas os músicos mais preparados e sensíveis percebem seu erro e o corrigem rapidamente”.


Jordi Savall e Iara Ungarelli na masterclass realizada pela Cultura Artística no Masp [foto: divulgação]

Roberto Dorigatti, flautista, foi o primeiro a tocar. Após finalizar a peça de Couperin, ouviu de Savall uma frase do compositor: “J'aime beaucoup mieux ce qui me touche” (eu prefiro aquilo que me toca). “Por que, apesar de ter tocado corretamente, ter feito todos os ornamentos, não me toca?”, perguntou Savall para o jovem. E ele mesmo respondeu: “Porque você está demasiado atento a todas as pequenas coisas, e perde o sentido geral. Música é tensão e relaxamento constante”. Savall passou a trabalhar algumas notas pensando em apurar a dinâmica, variar a intensidade. O resultado era imediatamente perceptível. O público também pôde fazer perguntas, complementando a explicação.

“Para os músicos é muito difícil fazer uma aula dessas, com tanta gente olhando. Seria como fazer uma consulta médica com plateia”, afirmou Savall enquanto esperava a próxima aluna, provocando risos. Na sequência, subiu ao palco Iara Ungarelli, com um trecho da Sonata nº 1 para gamba e cravo obligato de Bach. Os momentos dedicados à viola da gamba foram os mais interessantes: Savall pegou o instrumento, tocou e explicou detalhes técnicos. Deu uma pequena aula sobre como tocar a gamba sem o arco e como obter determinados sons a partir da intensidade com que os dedos tocam o espelho. Falou também sobre o histórico do instrumento e o trabalho de recuperação de sua técnica junto com o nascimento do movimento da música antiga: uma vez que deixou de ser tocado por mais de um século, não havia uma transmissão de conhecimento passada de uma geração a outra.

A última a se apresentar foi Clara Sawada, ótima violinista, que tocou a primeira Sonata do rosário, Anunciação, de Biber. “Bravo”, disse Savall assim que ela terminou. Mas lembrou logo o título da obra, atentando para sua dimensão espiritual. “Pareceu em alguns momentos uma sonata italiana” – ele se referia à interpretação de passagens virtuosísticas desprovidas da intenção essencial da peça. “Essa música vem diretamente da improvisação. Portanto pode-se tomar um pouco mais de liberdade e fazer alguns sons mais doces. Pense sempre em criar uma relação com a ideia da Anunciação. Músicas de compositores que são eles mesmos grandes virtuoses têm um componente muito orgânico”. Foram várias questões levantadas, mas a conversa apresentava resultados imediatos na repetição dos trechos. Savall questionou ainda a expressividade de algumas passagens, que não deviam soar mecânicas, e sobre a necessidade de melhorar as cordas duplas. Mas, com extrema delicadeza, iniciava suas falas com um “quizás” (talvez) dando a entender que dava mais conselhos do que ditava regras. Afirmou ainda que Clara havia tocado muito bem e que se tratava de pequenas questões. “Para mim está magnífico”, afirmou, após a última repetição – sempre aplaudindo os alunos ao final de sua participação.

Ainda houve tempo para mais uma pequena aula sobre a viola da gamba, antes do encerramento de uma manhã muito especial para todos os presentes.

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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