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Uma ode à Síria (1/10/2015)
Por Camila Frésca

Da Síria temos ouvido, quase diariamente, notícias desalentadoras de uma guerra que vitimiza os que menos por ela são responsáveis. Mas também da Síria é que vem um dos discos mais bonitos lançados no mercado brasileiro este ano: Poemas musicais do Oriente Médio. Na verdade, a música vem de lá, mas a iniciativa é brasileira. A gravação foi feita em 1995, em Damasco, com jovens músicos locais. Nessa época, estavam na Síria os brasileiros Rosalie Pereira – estudiosa especializada em filosofia árabe – e Flavio Metne, descendente de árabes e músico.

Me encontrei com os autores recentemente, numa tarde de sábado, para entender como surgiu a iniciativa. Rosalie e Flavio se conheceram num curso de árabe em São Paulo. Mais tarde, voltaram a se encontrar em Damasco – ela aprimorando os conhecimentos na língua e ele dando sequência aos estudos musicais. Eles contam que a ideia naquele momento foi realizar uma gravação profissional de um determinado tipo de música árabe e viabilizar um disco, na tentativa de divulgar aquela música mundialmente.


Gravura de 1794 que retrata músicos sírios da cidade de Alepo, no norte do país [imagem: reprodução]

Mas que música seria essa? “Música clássica contemporânea síria”, define Flavio. Em 1990 foi fundado o Instituto Superior de Música de Damasco, o que dinamizou o ambiente musical acadêmico. Músicos de formação ocidental se aprofundaram nos fundamentos da música árabe, e aqueles de formação oriental foram treinados na música ocidental. Instrumentos orientais como o alaúde, o buzuk, o nay e o qanun, além do canto árabe, passaram a fazer parte do currículo como matérias principais para quem as escolhessem. “É nesse contexto que obras de caráter inédito começam a ser compostas. Surgem os primeiros esboços de uma música nacional contemporânea, aberta ao que se conhece por música universal, mas, ao mesmo tempo, comprometida com suas raízes históricas, sua principal fonte de inspiração”, explica Flavio. O disco, gravado cinco anos depois, captura exatamente esse momento de efervescência. Por isto mesmo, na seleção das peças, não quiseram repetir repertório e chamaram dois jovens compositores – Shafi Badreddin e Elias Bachoura – que escreveram músicas inéditas, gravadas pela primeira vez no CD.

Apesar do entusiasmo da dupla, não encontraram quem apoiasse o projeto. Rosalie voltou ao Brasil e deu sequência à sua carreira acadêmica. Flavio acabou se estabelecendo na Síria, onde se tornou professor do Instituto Superior de Música. Há três anos e meio, temendo as consequências de um conflito que já batia à porta, teve que retornar ao Brasil. Mas então o projeto, adormecido por quase 20 anos, voltou à pauta.

O disco tem doze faixas: seis improvisos introduzem as seis composições, três de Shafi Badreddin (que também toca no disco clarinete e alaúde) e três por Elias Bachoura (alaúde e percussão). Completam o instrumental dois violinos, duas violas, um violoncelo e um contrabaixo, além dos instrumentos da música árabe: qanun, nay, buzuq e os já mencionados alaúdes. Flavio explica que há pelo menos cem anos todas as orquestras árabes incluem os instrumentos de corda ocidentais (não sem antes destacar que a origem destes instrumentos é oriental). Mas em geral eles formam uma base, sobre a qual destacam-se os instrumentos árabes.

Em 1995, todos esses músicos eram bem jovens – entre 20 e 25 anos. Trata-se, portanto, ainda hoje, da novíssima música síria. Além de muito bonitas, as composições são sofisticadas e não têm exatamente aquela sonoridade que associamos imediatamente à música árabe, e que tem mais a ver com a música popular. É preciso uma audição um pouco mais atenta para notar, no entanto, que os mesmos fundamentos estão lá. “Não é música para dançar, não é música folclórica. É música para sentar e ouvir. E ouvir muitas vezes”, diz Flavio. Eu pergunto aos dois se, no Brasil, essa música é pouco conhecida. “É totalmente desconhecida”, eles me respondem de imediato.


Imagem sem data de uma banda árabe também na cidade de Alepo, na Síria [foto: reprodução]

Hoje, um dos compositores vive na Bélgica e o outro em Luxemburgo. Quanto aos músicos, estão espalhados pela Europa, ou viajando pelo mundo. Alguns, no entanto, ainda estão na Síria. “Por incrível que pareça, alguns deles ainda estão trabalhando em Damasco. Tem coisas funcionando lá, a escola de música está funcionando”, conta Flavio. “Mas você está o tempo todo correndo o risco de um míssil cair na sua casa ou à mercê de um sequestro. O clima é tenso”, lamenta.

Os autores explicam que o título “poemas musicais” tem a ver com aquilo que as músicas sugestionam. “É uma música muito discursiva, que te leva a lugares, provoca a imaginação, remete a cheiros, sensações”, explica Flavio. “Alguns dos títulos das peças também evidenciam esse caráter, vide Poema do norte, Sonho de Gilgamesh, Dança de Ishtar”. Segundo Flavio, Shafi, que é original do sul da Síria, tem uma sonoridade mais “árabe”, enquanto Elias, do norte do país, traz um colorido da Mesopotâmia em sua música. “São peças compostas há quase duas décadas, em tempos de paz, quando tudo parecia estável e permanente”, reflete.

O restante da conversa com Rosalie e Flavio foi uma verdadeira aula sobre cultura, história e geopolítica árabe. Destacaram a importância daquela região como um dos berços da civilização, e lamentaram profundamente as consequências da guerra atual. Assim, só posso pensar que esses Poemas musicais do Oriente Médio vêm servir como alento e homenagem a essa cultura ancestral a qual tanto devemos.


[Veja também]
O CD Poemas musicais do Oriente Médio está disponível na Loja CLÁSSICOS

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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