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Bienal de Música Contemporânea encerra edição confirmando sua importância (21/10/2015)
Por Camila Frésca

Na última segunda-feira, dia 19, encerrou-se a 21ª edição da Bienal de Música Brasileira Contemporânea, promovida pela Funarte. A convite da organização do evento, acompanhei as atrações do último final de semana (a Revista CONCERTO esteve também na abertura da bienal, e você pode ler as impressões de Nelson Rubens Kunze aqui). Além dos concertos, pude assistir a programação paralela que homenageou duas das mais importantes figuras da música brasileira no século XX: Mário de Andrade e Hans-Joachim Koellreutter.

A organização da bienal, encabeçada pelo incansável e meticuloso Flávio Silva, decidiu pensar esta homenagem propondo uma discussão que avaliasse em conjunto as ideias de ambos. Assim, na sexta-feira, às 15h30, foi exibido um vídeo da ópera Café, um libreto original de Mário de Andrade que foi musicado, muitos anos depois, por Koellreutter. A gravação, feita pela TV Cultura em 1996, é um registro precioso da única montagem realizada desta “tragédia secular”, que tem como ponto de partida a queda da bolsa de Nova York em 1929 e os desdobramentos que o evento causa na economia do café e na vida dos trabalhadores diretamente envolvidos com ela.

A exibição foi acompanhada por vários nomes de nosso meio cultural como Ricardo Tacuchian, Jorge Antunes, Edino e Nenem Krieger, Ana Buarque de Hollanda, Manoel Corrêa do Lago, Laís de Souza Brasil, Flávia Toni e Luís Gustavo Petri – que regeu a Sinfônica Municipal de Santos nessa montagem de quase 20 anos atrás e deu um depoimento antes do início da sessão. O filme foi o pontapé inicial para a discussão, que seguiu no dia seguinte com a mesa redonda “Música e política – entre Mário de Andrade e Koellreutter”, reunindo os pesquisadores Flávia Toni e Jorge Coli. No domingo, “Revivendo o Grupo Música Viva” trouxe uma palestra de Carlos Kater sobre o movimento criado por Koellreutter e sobre uma de suas principais integrantes, a pianista e compositora Eunice Katunda. Na sequência, a soprano Clarissa Cabral e a pianista Eliana Monteiro da Silva interpretaram peças de integrantes do Música Viva: além de Koellreutter e Eunice Katunda, Edino Krieger, Guerra-Peixe e Claudio Santoro.


Eliana Monteiro da Silva e Clarissa Cabral em recital dedicado a Eunice Katunda [fotos: divulgação]

Enquanto na parte da tarde esses eventos se desenrolavam no Espaço Guiomar Novaes, à noite aconteciam os concerto da bienal, na Sala Cecília Meireles. Acompanhei as apresentações de sexta (16) e sábado (17), e em ambas vários aspectos me impressionaram positivamente. O primeiro, é claro, é o fato de assistir a uma apresentação inteiramente formada por estreias mundiais (foram 8 na sexta e 9 no sábado). Além disso, há um clima geral de entusiasmo nos concertos, que reúnem compositores consagrados ao lado de jovens de menos de 30 anos, bem como peças de formações bastante distintas e de orientações estéticas diferentes. No geral, as peças eram bem ensaiadas e bem acabadas, com um time bastante grande de intérpretes – na maioria dos casos, músicos já ligados aos compositores dos quais apresentavam as obras. Tudo isso criou um ambiente variado e dinâmico, e no qual o público – em excelente número em todos os eventos que acompanhei, por sinal – é constituído por estudantes de música, profissionais do meio musical, interessados em geral e por uma boa parte dos compositores, que compareceu às diversas apresentações (e não apenas àquela na qual sua peça foi tocada).


Flo Menezes, Cláudio Cruz e Simone Menezes com a Orquestra Sinfônica Nacional da UFF, no dia 18

Em que outra oportunidade, por exemplo, seria possível ouvir uma obra de um compositor de São Paulo, seguida por outra do Rio Grande do Sul, e uma terceira do Acre? Tudo isso em primeira audição e com a presença dos autores? Foi o que aconteceu, por exemplo, na sexta-feira, quando se pôde ouvir Fragmentos, para trombone solo, de Clayton Ribeiro (São Paulo, SP), seguida por Tempo e memória, para piano, acordeão, violino e percussão, de Antonio Borges-Cunha (Bom Jesus, RS) e, encerrando a primeira parte, Cercado de neblina com estilhaços no olhar, para flauta, clarinete, fagote, violino, viola, violoncelo, vibrafone e violão, de Rubens Tubenchlak (Rio Branco, AC).

Foi uma felicidade e uma surpresa ter podido acompanhar, pela primeira vez, eventos da Bienal de Música Brasileira Contemporânea. É uma iniciativa muito bem organizada e realizada e que, além da música de nossos dias, promove o encontro, a confraternização e a troca de ideias entre o meio musical. Considerando ainda sua continuidade e longevidade – a primeira bienal aconteceu em 1975, portanto lá se vão 40 anos –, é sem dúvida uma das mais importantes iniciativas no campo da música e das artes no Brasil. Já aguardo com interesse a próxima edição, em 2017.

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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