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Poulenc e Bernanos em tempos estranhos (4/11/2015)
Por João Luiz Sampaio

Em 1956, o compositor Francis Poulenc, a partir de um texto de Georges Bernanos, escreveu uma das principais óperas do século XX: Diálogo das carmelitas. A obra era baseada na história real de freiras carmelitas que, durante a Revolução Francesa, foram guilhotinadas por se recusarem a renunciar à sua vocação. Mais de cinco décadas depois, em 2010, o diretor russo Dmitri Tcherniakov assinou uma nova produção do título para a Ópera da Bavária, na Alemanha. Mas “mudou” o final da ópera, que termina com a execução, uma a uma, das irmãs: na sua versão, elas são salvas por uma delas, a jovem Blanche, que em seguida decide tirar a própria vida.

A cena final do Diálogo é um dos momentos mais fortes da história da ópera: a caminhada ao cadafalso é descrita pela música de maneira crua, assim como as sucessivas quedas das lâminas das guilhotinas. Nesse sentido, é possível questionar a decisão do diretor – o que, aliás, fez a crítica internacional na época da estreia da montagem, assim como no momento em que ela foi lançada em DVD: não haveria, na opção do diretor, um descompasso entre cena e música, o que sugere uma quebra no pacto entre as artes que está na essência de um espetáculo operístico? É uma boa discussão e, até aí, nada de novo: apenas mais um dia no mundo da ópera.


Cena da montagem de Dmitri Tcherniakov para o Diálogo das carmelitas, de Poulenc [foto: reprodução]

No final de outubro, no entanto, a questão mudou de figura. Um tribunal parisiense acatou um pedido dos herdeiros legais de Bernanos e Poulenc de proibir a circulação do DVD. Segundo a demanda judicial, a produção traiu as intenções originais dos autores e “o direito moral de qualquer diretor de cena sobre sua produção está limitado pelo direito do autor da obra pré-existente a partir da qual trabalha e ao qual não se pode afetar”. A sentença seguiu na mesma direção, afirmando que a noção de suicídio está “em total contradição com a esperança, elemento cardeal do cristianismo” e que Blanche “leva adiante um projeto que jamais foi atribuído a ela, nem pelo escritor, nem pelo músico, o de salvar suas irmãs”.

Deixemos a religião de lado; esqueçamos que herdeiros podem ser os responsáveis legais de uma obra, mas não necessariamente se configuram como os depositários das intenções subjetivas de seu autor; ou então que o próprio Bernanos, ao escrever o texto, tomou liberdades com relação à história original em que se baseou. Mais importante me parece um outro aspecto. A música e o texto não foram mexidos na produção de Tcherniakov. Ou seja, a demanda judicial não se dá contra uma alteração stricto sensu do original mas, sim, contra a interpretação dada à obra.

A recriação das intenções originais de um compositor é uma das obsessões mais incompreensíveis do mundo da ópera, um gênero que, em sua essência, rejeita qualquer noção básica de naturalismo ou verossimilhança. Toda interpretação é uma recriação. Isso vale, inclusive, para a música: compositores como Mozart, Verdi, Donizetti, Rossini e tantos outros acompanharam de perto a criação de suas obras, guiando a leitura musical ou escolhendo vozes específicas que pudessem retratar seus objetivos claramente declarados. Mas recriar – em termos de andamentos, timbres etc – a intenção do compositor é uma ilusão. E não só isso: a riqueza de interpretações, os olhares distintos de maestros e cantores, é o que torna a ópera tão fascinante.

Mas se essa é uma verdade amplamente aceita no que diz respeito à música, no campo da direção cênica a questão se revela mais complexa. Já se passou mais de um século desde que a preocupação em simplesmente representar uma obra foi substituída pelo desejo de interpretá-la. Nas outras artes, essa não parece mais ser uma questão; na ópera, no entanto, segue como tema polêmico. Nada de errado com isso. Existem limites na hora de adaptar uma obra? Quais? É possível ser fiel às intenções originais de um compositor e, ao mesmo tempo, distanciar-se delas? Essas e tantas outras perguntas fazem parte do cotidiano da ópera. E as respostas a elas surgem do diálogo da plateia com um espetáculo, do debate público sobre uma determinada produção. E que bom que seja assim: a troca de ideias é parte do processo democrático.

Mas não foi isso o que aconteceu dessa vez. Por meio da decisão de retirar o DVD de circulação, um tribunal, no final das contas, sugeriu que existe uma maneira errada de se interpretar uma obra. Tempos estranhos, não?


O jornalista e crítico musical João Luiz Sampaio iniciou nesta semana o curso “Música na Contemporaneidade”, como parte dos Cursos CLÁSSICOS, que trata justamente das encenação e interpretação das óperas “históricas” nos dias de hoje. Para quem se interessar, o próximo encontro será na Livraria Martins Fontes, terça-feira que vem, dia 10, às 15. Saiba mais detalhes e preços pelo telefone (11) 3539-0048.

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João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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