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Yes, we can: Que tal resgatar a mágica do recital de piano? (6/11/2008)
Por João Marcos Coelho

A fórmula do recital de piano foi estabelecida pelo compositor e pianista húngaro Franz Liszt, lá por volta de 1837. Foi naquele ano que o jovem compositor, vasta cabeleira e tipo físico de poeta romântico, seduziu moçoilas, encantou platéias e instituiu o que hoje conhecemos como o recital de piano.

Até aquele momento, os concertos eram meio bagunçados. Juntava-se um punhado de músicos, grupos de câmara, cantores e até orquestra para bancarem uma noitada de música, que se estendia por várias horas. Alternavam-se no palco, não necessariamente nesta ordem: cantoras interpretavam árias de óperas ou canções; pianistas interpretavam uma sonata ou peça, ou mesmo um movimento isolado de uma sonata; um maestro regia um violinista num movimento de um concerto, ou um movimento de uma nova sinfonia; etc., etc. Como se vê, nenhuma unidade.

Pois Liszt botou ordem na casa. Instituiu o culto ao virtuose, fez do intérprete figura talvez mais importante do que a do compositor. Andei pesquisando as origens do recital de piano e fiquei espantado. Liszt costumava receber suas platéias no saguão dos teatros em que tocava. Conversava com eles, e os convidava a colocarem em papeizinhos os nomes das músicas que gostariam de ouvir no recital. Em seguida, já no palco, "sorteava" alguns desses papeizinhos, e decidia na hora o que tocar. Mais: muitos pediam para ele improvisar sobre temas da moda - de melodias de concertos ou sinfonias até árias líricas. E ele deitava e rolava.

Chegou a contratar um "personal manager" para coordenar suas turnês e viajava com seu próprio piano - um luxo inimaginável na Europa da metade do século 19. Um cartunista húngaro, János Jankó, mostrou Liszt em ação numa série 8 cartuns hoje célebres [veja abaixo].

Mas ao promover tamanha comunhão do artista com o público ele também instituiu a persona do intérprete virtuose, diabólico, divino. Começava ali o culto aos gênios do teclado, que depois espalhou-se por outros instrumentos e sobretudo para a batuta.
A fórmula fez tanto sucesso que se estratificou de vez. Estratificou quer dizer engessou-se. Hoje, em pleno século 21, o gênero só pegou dos tempos de Liszt o lado menos interessante: a personificação do intérprete como gênio do além, que toca tudo de cor e é onipotente, praticamente um deus; e a gestuália exagerada que o público acompanha com ohs! e ais!

A informalidade, infelizmente, foi trocada por um ritual que provocaria medo até num marciano que sentasse na platéia e visse aquele pingüim todo de preto, seríssimo, silencioso, agradecer aos aplausos, sentar-se na banqueta e tocar, tocar, tocar... sem jamais dirigir-se ao público. Minto: o pianista hoje só fala para anunciar o extra. Mesmo assim, só anuncia quando tem vontade. [Veja o cartum abaixo, do russo Piotr Kulinich. Ele retrata o sonho de 10 entre 10 pianistas de hoje.]

Que tal trazermos para o século 21 algumas das qualidades que fizeram a glória de Liszt quase 200 anos atrás? Afinal, hoje em dia, vivemos um momento decisivo: enquanto a indústria da música gravada vive uma crise mortal por causa da pirataria e da internet, as pessoas de todas as idades querem ver música ao vivo, querem participar, sentir-se integrados ao espetáculo. Seja de uma "rave" de música eletrônica ou de um recital. Pianistas: pensem nisso. É preciso reatar a comunhão perdida entre palco e platéia, entre músicos e espectadores. Pois só assim ressuscitaremos a mágica essencial da música.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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